Carta de Anna Maria de Moraes Burchard, 1925, 01-0000127-128
Metadados
Descrição
Carta de Anna Maria de Moraes Burchard para Antonio de Moraes Barros, Paris - França, 1925
Código do documento
01-0000127-128
Remetente / Autor
Anna Maria de Moraes Burchard
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Royal Hotel | Companhia Cafeeira do Rio Feio
Texto do documento
[01-0000127-Página 01 - esquerda]
[Papel timbrado do Royal Hotel / 33 Avenue Friedland / Paris; no canto superior esquerdo,
anotado na diagonal “Reservada”]
3-11-25
Nhonhô
Espero que quando esta che-
gar ás suas mãos o assumpto de
que trata a carta de Lena, que re-
metti a você, ja tenha tido a sua
solução, que desconfio qual tenha
sido. Imagino a decepção, des-
contentamento do Braz ao ter rece-
bido uma resposta negativa.
Tenho entretanto me preoccupado,
e não pouco, com os apuros em
que elle deve achar-se com a recu-
sa de um auxilio da minha par-
te. Onde irá elle buscar os meios
para cumprir o contrato que tão
levianamente assignou?
O rapaz é um desalmado, um in-
sensato, porem, em fundo, não
é mau, é um homem do traba-
[01-0000127-Página 01 - direita]
2)
lho, de coração, bom marido e bom
pae. Eu o quero bem e porisso
tenho pena d’elle. E mais ainda
de Lena, da minha filha, que é
quem sofre as consequencias dos
desatinos do marido.
O negocio que elle fez, iniciando o
plantio de café em suas terras,
deve ser muito bom, pois que
outros, que tem criterio, como Pau-
lo, D[outo]r Mesquita, Horacio Sabino etc.
etc. fizeram cousa identica.
Mas isso é emprehendimento para
gente que tem dinheiro e não tem
dividas, como elle.
A resposta que dei a Lena foi - mais
ou menos, o que segue:
“A sua carta sobre o negocio do
plantio de café nas terras que vocês
possuem na Noroeste remetti, lo-
go depois de recebida, a Tio Nhonhô,
que é a pessoa que, na minha
ausencia, pode decidir o caso,
pois que d’aqui eu não o saberia
fazer.
Autorizei-o a prestar a vocês o
auxilio de que necessitam no ca-
so de m’o permittirem os meus
recursos e se o puder fazer ef-
ficazmente para os tirar de diffi-
culdades. Não sei se me acho em
[01-0000127-Página 02 - esquerda]
3)
condições de assumir as respon-
sabilidades para a formação de
uma fazenda de 100 mil pés de
café.
Tenho grande desejo, faço mesmo em
Junho emprestar auxilio aos fi-
lhos que recorrem a mim, desde
que isso não reverta em prejui-
zo dos outros filhos.
Permitta, minha filha, que me
adimire de uma cousa: de vo-
cês terem tomado novos e não pe-
quenos compromissos antes de
solvidos os antigos e, o que ain-
da é mais grave, de se terem
mettido na nova empreza e de
terem para isso assignado con-
tracto em que se obrigam a pres-
tações a prazos fixos e curtos, ba-
seados em simples esperanças
de um emprestimo que porven-
tura pudessem obter, portanto,
sem ter de antemão a certeza
d’onde lhes viriam os meios,
isto é, o dinheiro.
Não me consta ter fornecido
dinheiro a Comp[anhia] Cafeeira quan-
[01-0000127-Página 02 - direita]
4)
do a Chantebled em formação. De-
pois de formada, sim. Mas sem-
pre enxerguei isso como uma
boa e garantidissima applica-
ção de capital, que me tem ren-
dido bons juros, e não como au-
xilio a quem quer que seja.
Quiz muito consultar João
Sampaio sobre o assumpto da
sua carta, tive, porem, de re-
nunciar porque ignoro o seu
ultimo endereço. A esta hora
deve andar pela Riviera. Quan-
do ainda em Lunchon, nos Pyre-
neos, escreveu-me que da Riviera
voltaria a Paris em principio
de Novembro.”
Mudando de assumpto…. O que
ha sobre a companhia Cafeei-
ra? Realiza-se a venda d’ella
a um syndicato?
Alem das 160 acções que possuo
da Companhia, você deve sa-
ber que tenho mais 200, que Jor-
ge me fez comprar ao Braz
a 300$000 r[ei]s cada uma, es-
tas, porem, sob a condição de
lh’as revender pelo mesmo pre-
ço caso elle as quizesse ou
[01-0000127-Página 03 - esquerda]
5)
pudesse comprar de novo.
No caso de ser vendida
a Chantebled e essas ac-
ções ainda estiverem
em minha posse, co-
mo certamente estarão
(porque o Braz não encon-
tra dinheiro para as comprar e
se encontrasse deveria primei-
ro pagar a divida que tem
commigo) a quem pertence
o producto d’essas acções, a mim
ou a elle? Será que terei di-
reito somente ao capital em-
pregado e juros, e o excedente,
o lucro, terei de entregar ao Braz?
Em boa hora fez-me Jorge
comprar essas 200 acções
porque, se for vendida a Com-
panhia receberei uma boa som-
ma que me indemnisará
de muita cousa.
[01-0000128-Página 03 - direita]
6)
O que o Braz queria me vender
n’essa occasião em que preci-
zou de dinheiro, era o terreno
de Hygienopolis que comprara
ao Banco e que, como as di-
tas acções, não tinha acaba-
do de pagar.
Jorge achou, porem, que melhor
negocio para mim seriam
as acções da Comp[anhia] Cafeeira, cu
ja maior valorisação previa,
e me fez propôr ao Braz a
compra d’essas acções.
Quanto foi boa essa provi
dencia, estou vendo agora.
Naturalmente, prefiro, eu, ficar
com todo o producto da venda
das 200 acções, porque o lucro
seria então repartido entre as mi
nhas trez filhas ao passo que
tendo de entregar o excedente
ao Braz, será só para uma
d’ellas, para Lena.
Mas, se for assim, tambem
não faz mal. O essencial é
que as acções tenham sido
vendidas a mim, como fo-
[01-0000128-Página 04 - esquerda]
7)
ram e não tenham ido pa-
rar em mãos extranhas.
Mande me dizer alguma
cousa que me esclareça sobre
este negocio.
Nonô continúa em Paris,
porem certa de voltar para
Leysin. Ainda não sabe quan-
do será a viagem. De saúde
não pode ir melhor. Aqui já
fez o pneumo-thoraz duas vezes.
O pulmão doente está inteira-
mente comprimido, portanto,
em repouso, pois que não res-
pira mais.
Marina e o Juca vão bem em
Vienna. Este, como sempre,
estudando muito.
Estou lendo, ou antes, já li as
suas “Allegações de defeza” como
curador do D[outo]r José C. de Ma-
cedo Soares. Este fez-me presen-
te de um exemplar. Dê cá
um abraço pelo bello trabalho.
Li-o com o maximo interes-
se.
Você não imagina como apre-
[01-0000127-Página 04 - direita]
8)
cio o D[outo]r José Carlos e a D[ona] Mathil-
de, e tambem as respectivas
mães - D[ona] Escholastica e D[ona] Mo-
cinha. Esta é a Macedo Soares.
A boa camaradagem que fi-
zemos na viagem ao Oriente
continúa e progride. Aqui
em Paris é a casa delles em
que vou com mais gosto.
Parece até que somos da mes-
ma familia.
Nonô recebeu hontem carta de
Sinhá com boas noticias de
Isaura. Muito e muito esti-
mo isso.
Com ella, filhos e netos ac-
ceite affectuosos abracos e
as muitas saudades
da irmã m[ui]to amiga
Nhanhâ
P[ost] S[criptum] Toninho deve
ter entregue a você
o 4º volume das confe-
rencias de Henri Robert
- Les grands Procès de l’Histoire.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Helena de Moraes Buchard / Helena de Moraes Buchard Revorêdo – Lena
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
[Papel timbrado do Royal Hotel / 33 Avenue Friedland / Paris; no canto superior esquerdo,
anotado na diagonal “Reservada”]
3-11-25
Nhonhô
Espero que quando esta che-
gar ás suas mãos o assumpto de
que trata a carta de Lena, que re-
metti a você, ja tenha tido a sua
solução, que desconfio qual tenha
sido. Imagino a decepção, des-
contentamento do Braz ao ter rece-
bido uma resposta negativa.
Tenho entretanto me preoccupado,
e não pouco, com os apuros em
que elle deve achar-se com a recu-
sa de um auxilio da minha par-
te. Onde irá elle buscar os meios
para cumprir o contrato que tão
levianamente assignou?
O rapaz é um desalmado, um in-
sensato, porem, em fundo, não
é mau, é um homem do traba-
[01-0000127-Página 01 - direita]
2)
lho, de coração, bom marido e bom
pae. Eu o quero bem e porisso
tenho pena d’elle. E mais ainda
de Lena, da minha filha, que é
quem sofre as consequencias dos
desatinos do marido.
O negocio que elle fez, iniciando o
plantio de café em suas terras,
deve ser muito bom, pois que
outros, que tem criterio, como Pau-
lo, D[outo]r Mesquita, Horacio Sabino etc.
etc. fizeram cousa identica.
Mas isso é emprehendimento para
gente que tem dinheiro e não tem
dividas, como elle.
A resposta que dei a Lena foi - mais
ou menos, o que segue:
“A sua carta sobre o negocio do
plantio de café nas terras que vocês
possuem na Noroeste remetti, lo-
go depois de recebida, a Tio Nhonhô,
que é a pessoa que, na minha
ausencia, pode decidir o caso,
pois que d’aqui eu não o saberia
fazer.
Autorizei-o a prestar a vocês o
auxilio de que necessitam no ca-
so de m’o permittirem os meus
recursos e se o puder fazer ef-
ficazmente para os tirar de diffi-
culdades. Não sei se me acho em
[01-0000127-Página 02 - esquerda]
3)
condições de assumir as respon-
sabilidades para a formação de
uma fazenda de 100 mil pés de
café.
Tenho grande desejo, faço mesmo em
Junho emprestar auxilio aos fi-
lhos que recorrem a mim, desde
que isso não reverta em prejui-
zo dos outros filhos.
Permitta, minha filha, que me
adimire de uma cousa: de vo-
cês terem tomado novos e não pe-
quenos compromissos antes de
solvidos os antigos e, o que ain-
da é mais grave, de se terem
mettido na nova empreza e de
terem para isso assignado con-
tracto em que se obrigam a pres-
tações a prazos fixos e curtos, ba-
seados em simples esperanças
de um emprestimo que porven-
tura pudessem obter, portanto,
sem ter de antemão a certeza
d’onde lhes viriam os meios,
isto é, o dinheiro.
Não me consta ter fornecido
dinheiro a Comp[anhia] Cafeeira quan-
[01-0000127-Página 02 - direita]
4)
do a Chantebled em formação. De-
pois de formada, sim. Mas sem-
pre enxerguei isso como uma
boa e garantidissima applica-
ção de capital, que me tem ren-
dido bons juros, e não como au-
xilio a quem quer que seja.
Quiz muito consultar João
Sampaio sobre o assumpto da
sua carta, tive, porem, de re-
nunciar porque ignoro o seu
ultimo endereço. A esta hora
deve andar pela Riviera. Quan-
do ainda em Lunchon, nos Pyre-
neos, escreveu-me que da Riviera
voltaria a Paris em principio
de Novembro.”
Mudando de assumpto…. O que
ha sobre a companhia Cafeei-
ra? Realiza-se a venda d’ella
a um syndicato?
Alem das 160 acções que possuo
da Companhia, você deve sa-
ber que tenho mais 200, que Jor-
ge me fez comprar ao Braz
a 300$000 r[ei]s cada uma, es-
tas, porem, sob a condição de
lh’as revender pelo mesmo pre-
ço caso elle as quizesse ou
[01-0000127-Página 03 - esquerda]
5)
pudesse comprar de novo.
No caso de ser vendida
a Chantebled e essas ac-
ções ainda estiverem
em minha posse, co-
mo certamente estarão
(porque o Braz não encon-
tra dinheiro para as comprar e
se encontrasse deveria primei-
ro pagar a divida que tem
commigo) a quem pertence
o producto d’essas acções, a mim
ou a elle? Será que terei di-
reito somente ao capital em-
pregado e juros, e o excedente,
o lucro, terei de entregar ao Braz?
Em boa hora fez-me Jorge
comprar essas 200 acções
porque, se for vendida a Com-
panhia receberei uma boa som-
ma que me indemnisará
de muita cousa.
[01-0000128-Página 03 - direita]
6)
O que o Braz queria me vender
n’essa occasião em que preci-
zou de dinheiro, era o terreno
de Hygienopolis que comprara
ao Banco e que, como as di-
tas acções, não tinha acaba-
do de pagar.
Jorge achou, porem, que melhor
negocio para mim seriam
as acções da Comp[anhia] Cafeeira, cu
ja maior valorisação previa,
e me fez propôr ao Braz a
compra d’essas acções.
Quanto foi boa essa provi
dencia, estou vendo agora.
Naturalmente, prefiro, eu, ficar
com todo o producto da venda
das 200 acções, porque o lucro
seria então repartido entre as mi
nhas trez filhas ao passo que
tendo de entregar o excedente
ao Braz, será só para uma
d’ellas, para Lena.
Mas, se for assim, tambem
não faz mal. O essencial é
que as acções tenham sido
vendidas a mim, como fo-
[01-0000128-Página 04 - esquerda]
7)
ram e não tenham ido pa-
rar em mãos extranhas.
Mande me dizer alguma
cousa que me esclareça sobre
este negocio.
Nonô continúa em Paris,
porem certa de voltar para
Leysin. Ainda não sabe quan-
do será a viagem. De saúde
não pode ir melhor. Aqui já
fez o pneumo-thoraz duas vezes.
O pulmão doente está inteira-
mente comprimido, portanto,
em repouso, pois que não res-
pira mais.
Marina e o Juca vão bem em
Vienna. Este, como sempre,
estudando muito.
Estou lendo, ou antes, já li as
suas “Allegações de defeza” como
curador do D[outo]r José C. de Ma-
cedo Soares. Este fez-me presen-
te de um exemplar. Dê cá
um abraço pelo bello trabalho.
Li-o com o maximo interes-
se.
Você não imagina como apre-
[01-0000127-Página 04 - direita]
8)
cio o D[outo]r José Carlos e a D[ona] Mathil-
de, e tambem as respectivas
mães - D[ona] Escholastica e D[ona] Mo-
cinha. Esta é a Macedo Soares.
A boa camaradagem que fi-
zemos na viagem ao Oriente
continúa e progride. Aqui
em Paris é a casa delles em
que vou com mais gosto.
Parece até que somos da mes-
ma familia.
Nonô recebeu hontem carta de
Sinhá com boas noticias de
Isaura. Muito e muito esti-
mo isso.
Com ella, filhos e netos ac-
ceite affectuosos abracos e
as muitas saudades
da irmã m[ui]to amiga
Nhanhâ
P[ost] S[criptum] Toninho deve
ter entregue a você
o 4º volume das confe-
rencias de Henri Robert
- Les grands Procès de l’Histoire.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Helena de Moraes Buchard / Helena de Moraes Buchard Revorêdo – Lena
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá