Décadas de cartas

O acervo Moraes Barros tem nas cartas o seu mais numeroso tipos de documentos. A seguir, estão selecionados exemplos significativos dessas produções ao longo do período pelo qual o acervo se estende.

1880

Indignação

Em 1883, Anna B. B. Silva desabafa indignada após um bilhete de Maneco ser entregue por engano ao "Seu Frederico", provocando um choque familiar. Na mesma folha, Moraes Barros diverte-se com o mal-entendido e avisa o filho para nem ir à casa da avó: "serias enchotado á cabo de vassoura".

Joaquim Floriano

Em carta de 1889 a Rafael de Sampaio, Joaquim Floriano defende a candidatura do republicano Moraes Barros para acalmar os "desordeiros" de São Manuel. Ao fim, nota com ironia o pragmatismo das urnas locais: “estou vendo q[ue] não teremos nenhum republicano eleito, pois o partido conservador parece estar quazi todo liberal!...”

1890

Risco de golpe

Com o "espírito acabrunhado" às vésperas da posse de Prudente de Moraes em 1894, Moraes Barros desabafa sobre o risco de um golpe de Floriano Peixoto e dispara contra Campos Salles: "não é homem para situação d’estas, tem medo e fogi". Ao fim, celebra a vitória da lei de cabotagem na Câmara.

Atentado a Prudente

Em carta de 1897, Jorge relata a Nhônhô o atentado a Prudente de Moraes no desembarque das tropas de Canudos, que vitimou o Ministro da Guerra. Entre o clima de revolta política e ofertas de ajuda em duelos, o autor contrasta a tensão nacional com a notícia do nascimento da sobrinha.

Acerto de contas

Em tom dramático e ressentido, Francisco F. do Amaral cobra Antônio de Moraes Barros por oito meses de salários atrasados como administrador de sua sogra, em 1897. Afirmando que seus filhos passam fome enquanto outros desfrutam de seu "sangue e suor", ele desabafa o desprezo e a miséria a que foi reduzido.

1900

Homenagem surpresa

Em carta de 1902, Morato pede a Nhônhô detalhes sobre um contrato com a Cia. Paulista e faz um pedido secreto: que avise a chegada de Paulo a Piracicaba para recebê-lo "com música e rojões". O autor brinca que o povo local está "como caldeira com excesso de vapor" para comemorar.

Manobras políticas

Em carta de Piracicaba (1904), Paulo arquiteta com Nhônhô as manobras para a formação do diretório político local. Sem poupar opositores, qualifica um rival como "o homem mais perverso e leviano" da cidade e desabafa que "os cafajestes estão de focinho torcido", ansioso para concluir a negociação.

Informação casual

Nesta carta de 1904, Paulo conta a Nhônhô que descobriu por acaso, através de um cruzamento de linhas telefônicas, as manobras dos adversários para reorganizar o diretório local. Entre o luto por uma morte e o pedido de roupas pretas para missa, o autor encerra com recados cotidianos e caçadas.

Disputa verbal

Em carta de 1906, Paulo de Moraes Barros narra a Nhônhô um "tempo quente" na Câmara de Piracicaba, onde lavou roupa suja em plenário contra o rival "Corió". Entre disputas e bastidores locais, ele contrasta o embate político com o sucesso do seu novo automóvel, que atraía multidões na cidade.

Paisagens rurais

Nesta carta de 1907, Paulo de Moraes Barros narra a Nhônhô sua viagem pelo interior paulista rumo à região do rio Feio e Avanhandava. Entre descrições de fazendas de café, a travessia de trem e a beleza natural do Salto, ele revive momentos de lazer pescando e caçando pela região.

Relato da América do Norte

De Nova York em 1908, Paulo escreve fascinado com a opulência e eficiência dos EUA. Entre visitas técnicas a serviços de água e espetáculos na Metropolitan Opera, aceita a candidatura a deputado, comenta a produção de café e a política paulista, e narra o sucesso da viagem em família.

Casamento compulsório?

De Berlim em 1908, Paulo discute a acusação contra um administrador das fazendas, sugerindo o casamento arranjado da jovem atingida como solução prática. Ao mesmo tempo, articula candidaturas políticas locais contra a "oligarquia", reporta lições de inglês e planos de viagem.

1910

A saúde de Nenê

Escrita do spa de Bad Nauheim em 1910, esta carta narra os cuidados com a saúde debilitada de Nênê, sob tratamento cardíaco e nervoso. Além de relatar o itinerário da família pela Europa, o autor comenta os bastidores políticos brasileiros e o fracasso da viagem do Marechal Hermes pelo continente.

Articulação a bordo

A bordo do navio Cap. Ortegal em 1910, Paulo relata a Nhônhô a intensa escrita de centenas de cartas eleitorais enviadas a Fernando Costa. Além de monitorar o cenário político em Piracicaba, relata suas conversas com Lauro Müller e Rivadavia sobre a formação do governo de Hermes da Fonseca.

Luto e cotidiano

Escrita de Berlim em 1911, a carta traz o relato de Nhanhã a Nhônhô sobre o abalo da família com a morte da tia Dada durante viagem à Alemanha, logo após o falecimento de Nenê. Entre o luto e os cuidados com a mãe, ela trata de assuntos práticos, como compras de roupas, bilhetes de loteria e negócios imobiliários.

Segredo de família

Nesta declaração de 1917, Antonio de Salles Penteado assume por escrito o segredo de filiação de sua noiva, Isabel (Bebé). Sabendo por Nhônhô que ela é filha biológica de Manoel de Moraes Barros, o noivo pede para manter a revelação apenas para depois do casamento.

Crise conjugal de Leonor

Em carta de 1918, Manoel responde a Coelho com sensibilidade sobre a crise conjugal enfrentada com Leonor. Ao lamentar a incompatibilidade do casal e o aborto sofrido por ela, reafirma o carinho da família pelo cunhado, mas destaca a dor e o isolamento que recaem sobre a irmã.

1920

Providências por segurança

Em carta de julho de 1924, Manuel Elpidio relata ao sogro Nhônhô os intensos tiroteios no bairro por conta da revolta paulista. Buscando refúgio em Piracicaba com a família para fugir do perigo, ele articula o transporte até a estação e solicita recursos para a viagem.

Bombardeios da revolução

Durante a Revolução de 1924 em São Paulo, Nhônhô relata a Isaura a tensão dos combates no Brás e Cambuci, com bombardeios do governo contra revoltosos. Ele descreve a fuga de parentes para o interior e a busca por segurança, enquanto tenta manter a calma e a rotina da família.

1930

Choque com assassinato

Em carta de 1930, escrita na Fazenda Pau d’Alho, Paulo de Moraes Barros manifesta a Nhônhô seu assombro com o assassinato do líder paraibano João Pessoa. Indignado com a política de Washington Luís ("W. de P."), questiona se o crime dará fibra à oposição na iminência da Revolução de 1930.

Paulo Ministro pela Junta

Nesta carta de outubro 1930, escrita no Rio de Janeiro logo após a vitória da Revolução de 1930, Paulo relata a Nhônhô sua nomeação para os ministérios da Agricultura e Viação pela Junta Governativa. Entre reuniões no Palácio, descreve as articulações para a posse de Morato em São Paulo e a expectativa pela chegada de Getúlio Vargas.

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