Carta de Paulo de Moraes Barros, 1924, 01-0000249
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Nicolau de Moraes Barros, Paris - França, 1924
Código do documento
01-0000249
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Nicolau de Moraes Barros
Palavras-chave
Hotel Royal
Texto do documento
[01-0249-Página 01 - envelope]
M[onsieu]r le Prof[esseur]
D[octeu]r Nicoláo de Moraes Barros
Avenida Paulista 77
Brésil S[ão] Paulo
[01-0249-Página 02]
Paris, Hotel Royal, 9 de Junho de 1924
Nicoláo
Esta leva noticias bem pouco satisfactorias
sobre a nossa Nhanhâ. Conforme contei em carta a
Isaura ou Jorge, encontramol-a magra, envelhecida,
desfeita, em plena decadencia de corpo e espirito e
em completo desanimo. Nossa chegada fel-a resurgir
por assim dizer, quasi recuperando em vinte dias
o que perdera em sete mezes de Paris. Uma carta
da ajuizada Lú, fallando innocentemente, da sua pro-
blematica apendicite chronica, em via de provavel opera-
ção, do estado do Galeno que, magro, pallido e exhausto,
iria repousar dois mezes em Guarujá, ou no Rio Grande,
e finalmente, em papel separado para não ser lido por
mim, reclamando com vehemencia a restituição dos
50 contos e juros emprestados ao marido para fazer socieda-
de com o Eduardo Castilho, à titulo de indemnização por
conta do prejuizo que teve no inventario do pae, essa carta
foi para a coitada verdadeiro cataclysma, reduzindo-a
a estado ainda mais deploravel do que aquele em que
a encontramos. Está ainda de pé e ainda mesmo nos a-
companha nas compras e nos poucos passeios que fa-
zemos, mas, parecendo antes um espectro de gente, sumi-
da, embodocada como Mamãe no ultimo anno de vida,
e peor que tudo com as ideas confusas, inteiramente desa-
[01-0249-Página 03]
nimada, debulhando-se em lagrimas, triste de fazer dó. A
sua obcessão é o futuro das filhas Revoredo; o Braz inutilisa-
do pelo alcool e o Galeno pela diabetis (já teve acetona),
o que será dellas? Nesse estado ainda faz questão de comple-
tar o enxoval de Luiza, que lhe tem causado verdadeiro
supplicio. Sinhá, que a tem acompanhando nessa fama,[?]
fica assombrada como ella conseguio apromptar a maior
parte delle, tal a indecisão que a obriga a ir a 6 e 8 casas
para recomeçar de novo, taes as difficuldades para se
mover e as interminaveis discussões com as vendeuses, nem
sempre pacientes. Estamos fazendo o possivel para conseguir
della que deixe ao nosso encargo as ultimas peças do
enxoval, os cristaes, para quando voltarmos a Paris em
Setembro. Ainda não sei como resolver o caso desta pobre
irmã, cuja vinda á Europa foi um verdadeiro desastre,
porque se fez, como era natural, chefe do farrancho de
mulheres, quando já não tinha mais expediente, nem
energia, para dirigir-se, quanto mais dirigil-as. O resulta-
do foi Leonor e Córa, que aproveitaram bastante em Ber-
lin, tudo perderam desde que a ella se reuniram em
Vienna. A ultima então, viemos encontrar em estado
de tal depressão nervosa, que cheguei a recear ficasse
maluca, estado do qual tem melhorado gradualmente
em nossa companhia. As tres, em vez de se ajudarem,
atrapalhavam-se, maldiziam-se, vivendo em continuadas
[01-0249-Página 04]
3
discussões, cada uma fazendo carga á outra do seu estado.
O Juca e Marina, por inexperientes e commodistas, quando
com a mãe, ainda lhe tornavam a vida mais diffi-
cil e amarga, pois, até ceroulas á comprar, passagens,
despachos de bagagens, etc, o genro lhe empurrava. Por isto
é que digo não saber como heide arrumal-a. A Vienna,
para onde quer ir, não a posso acompanhar com o tem-
po escasso e distribuido como tenho e sosinha não convem
que vá, e quando lá, com o casal de moleirões, é possi-
vel que peore de condicções, com a primeira carta do
Brasil. Trato de convence-a á fazer comnosco a esta-
ção de Vichy no mez de Julho, para depois de ficar um
pouco mais valente, expedil-a com uma governante
à Vienna. Esta ideia de governante, que é indispensa-
vel pôr em pratica, não lhe sorri, mas, em Vichy te-
riamos um mez a mais para amadurecel-a. Emfim,
o indispensavel é que ella não receba cartas das filhas
de S[ão] Paulo, se tiver de recebeu-as como a da Lú.
– Já vocês devem estar inteirados que o Congresso de
Vienna gorou e que o Calmon, naturalmente para
aproveitar a ajuda de custo que me ahounou[?], sugerio-me
a ideia de seguir para o Egypto estudar o algodão.
Bem enfronhado do que lá teria de fazer, de que a via-
gem só será praticamente util em Novembro e de
que a verba recebida para Vienna será insufficien-
[01-0249-Página 05]
4
te para a nova randomisé, de tudo informei minuciosa-
mente o Ministro, cuja resposta aguardo, disposto a e-
cutar a nova commissão. E, se esta fôr confirmada,
só lá para fim de Dezembro é que as penates de
S[ão] Paulo e do Páo d’Alho nos verão de novo.
Esperando aproveito o tempo da melhor forma. Desde
que cheguei entrei em tratamento com o Marcel l’-
Abbé, que me púlga[?] mais caso de laboratorio de ana-
lyses e regimen, este felizmente não muito severo,
porque aquele demonstrou apenas – fraca permeabi-
lidade dos rins à glycose, alguma desta no sangue,
certa insufficiência hepatica, uréa normal na circula-
ção e pressão sanguinea tambem. Com quatro sema-
nas de Vichy e attenção aos albuminoides entende o
mestre que poderei ainda arrastar o canastro me-
nos desagradavelmente uns pares de annos pelo gran-
de valle das lagrimas. E, como Córa tambem apro-
veitará Vichy e precisa depois uma estação de mon-
tanhas, é quasi certo que passemos o mez de Agosto
no Jura, onde os dias correrão mais insipidos, porem,
onde o cambio francez, que está se medindo pelo nosso
ficará mais ao sabor das algibeiras, com o mesmo
proveito que os ares puros com o franco á 1$500 da Suissa.
– Como o diabo, que depois de velho se fez ermitão, eu com
a edade dei para estudioso da nossa economia rural,
[01-0249-Página 06]
5
no que encontro não pequeno conforto ás mazellas do
corpo e as do espirito. Tomei á serio o negocio do
algodão e com a boa bagagem que trouxe consegui,
nos 15 dias de travessia, consegui compôr um pequeno
repositorio de informações uteis, o qual, conquanto
de compilação, apenas com um capitulo original, pare-
ce-me que não sahio máo de todo para o fim em
vista, que é o de demonstrar as possibilidades que
o Brasil, S[ão] Paulo na ponta, offerece ao capital ex-
trangeiro applicado na cultura do algodão. Tendo
falhado a opportunidade de Vienna, consegui que o
meu trabalho seja publicado no – International Cot-
ton Bulletin – n[úmer]os de Setembro e Dezembro, onde
terá a desejada divulgação, por ser o orgão mais
lido pelos interessados do mundo todo. Ao mesmo tem-
po, como succedaneo mais prompto, vou fazer uma
palestra no dia 17 do corrente, com os accionistas do
Syndicat Général de l’Industrie Cotonnière de Fran-
ce, cujos directores mostraram-se enthusiasmados
com as informações que lhes dei e dispostos a
desde logo começarem á operar no Brasil, mon-
tando uma grande usina de beneficio, fauroce-
to[?] e compra de algodão, com fazenda modelo
para selecção de sementes ao lado, em S[ão] Paulo.
Em paga almoçarei com esses accionistas, que já
[01-0249-Página 07]
6
foram convocados para a reunião, tendo eu declinado
de participar da direcção da empreza, no caso de
ir avante, por não se compadecer com a commis-
são que ora desempenho. No dia 18 seguiremos para
Londres, onde pretendo fazer igual serviço, visitar
a Exposição e talvez assistir o Congresso do Frio, pa-
ra ter opportunidade de visitar as grandes ins-
tallações frigorificas do Reino Unido. Creio que, se
algum resultado lograrem os meus esforços, o
Governo Federal não terá que chorar o seu rico di-
nheirinho, ora em evaporação nas minhas algibeiras.
A volta se operará via quatro dias de Bruxellas
e depois directamente para Vichy.
Na perspectiva da viagem ao Egypto em Outubro
mez em que ainda lá se cosem ovas ao sál, tenho
tomado umas licções á respeito que me serão
de grande utilidade. O mestre é uma especie
de sabio de verdade, Audebean-Bey, que como enge-
nheiro chefe dos serviços de barragens e cultura irriga-
da do algodão lá residio mais de 40 annos, sendo
um Larousse vivo na especialidade. Bondoso e
complacente poz-me o seu maravilhoso archivo
á disposição, em Garches, logo adiante de Versailles,
e para lá vou eu com Sinhá e Córa ao chá de
familia, sendo tratadas como gente de casa. E o mes-
[01-0249-Página 08]
7
tre parece que está contente com o discipulo, que digo
aproveitavel. Pena é que um thezouro destes não
seja convidado pelo Governo brasileiro para ir ao
Nordeste visitar as poucas grandes obras que ainda
lá se executam e sobre ellas se manifestar. Seria
o meio de evitar ainda muitos disparates.
Chega de dar a taramella sobre assuntos tão pou-
co attrahentes e passemos á outras que nos tocam o
mais de perto. Em um dos ultimos numeros re-
cebidos do “Estado” li a noticia da promoção
do Henrique de Souza Queiroz á presidencia da
Rural e da chamada do Bento de Abreu para
a vice-presidencia, o que quer dizer para o exer-
cicio effectivo, pela falta de assiduidade do pri-
meiro. Ora, isso significa nada mais, nada menos,
do que um golpe de força audacioso contra o ac-
cordo de 1923, pelo qual ficou assertado o afasta-
mento da direcção de todos os antigos directores
durante o interregno da directoria de conciliação,
cujo mandato termina em Março de 1925. Signi-
fica mais um acto de desconsideração pessoal a
mim e aos companheiros solidarios na campa-
nha de salvação da Sociedade, acto que me visa
especialmente, promovido pelo Sampaio Vidal,
para valorisar o Cotehing[?], de quem é socio de ad-
[01-0249-Página 09]
8
vocacia e de exploração de terrenos suburbanos da
Villa Maria, por intermedio do irmão Bento. O
primeiro passo nesse sentido foi dado pelo Ga-
briel Ribeiro dos Santos, fazendo incluir o pri-
meiro malandro entre os presidentes honora-
rios da Rural, aproveitando-se da minha au-
sencia no Rio, em principio de Abril, sendo pos-
sivel que este segundo ainda tenha sido pre-
parado por elle, ao renunciar a presidencia.
Por occasião de minha partida era tão manifes-
to o seu desejo de agradar o Ministro da Fazenda,
que só posso attribuir a felonia a essa origem.
Vamos a ver como responde á interpellação
formal que, em termos cortezes, lhe fiz em
longa carta, que segue por este mesmo correio.
Se tiver a confirmação da minha suspeita sou
homem para pôr as cousas em pratos limpos
pela imprensa, com a minha assignatura por
baixo. Não sei como o Barros Penteado, Vicente
Sampaio, Diedericksen e Nhônhô Magalhães
deixaram-se ir no embrulho, pois, sem o pla-
cet delles a maroteira não seria feita. O ve-
hiculo, creio não errar apontando o Figueira
de Mello, muito desejoso de um lugar de repre-
sentação que julga poder galgar sob as azas
[01-0249-Página 10]
9
do Bento, do Rafael e do Gabriel. Converse com
aquelles e diga-me alguma cousa á respeito,
pois, estou agoniado com o safadismo e com
cocegas de esclarecel-o ao grande publico.
Chega tambem de dar corda aos nervos.
Á não ser theatros, cujo repertorio variado é ex-
plendido e alguns passeios, pouco temos apro-
veitado de Paris, o tempo sendo-me pouco para
ler, escrever e contar e a Sinhá para as vi-
sitas á magazins e ás modistas para encommen-
das proprias e alheias, o que aliás não deixa de
ter o seu sabor. O dinheiro evapora-se logo ao sa=
hir do banco, como as agoas do Nordeste; tudo
custa 5 e 6 vezes mais do que antigamente, só
o taxi não subio de preço. O movimento da ci-
dade cresceu na proporção de 1:5, com os bonds
multiplicados e os autobus irradiando-se em
todas as direcções, em numero 5 vezes maior que
o delles. Temos á menos a insolencia das
cocheiras de fiacres, e á mais a cortezia dos
chauffeurs, que é gente mais educada. As fon-
tes de gastos semi-superfluos tambem estão
muito augmentadas; com a miseria da meza
dos hoteis, o chá é quasi obrigatorio e custa
mais do que custava um almoço; os pourboi-
[01-0249-Página 11]
10
re estão erigidos mais que nunca á altura de um
principio e nos theatros, então, é um Deus nos acu-
da, elevando de 20% o alto custo dos bilhetes. Em
comer fóra do hotel só pensam os nababos, sob
pena de perigoso desiquilibrio do orçamento,
sem a autorisação da cauda de que abusam os
governos de nossa terra. Com todos esses senões
Paris é o mesmo Paris de sempre, alegre, ruidoso,
blagueur e descuidado, certo de que o dinheiro foi
feito para circular.
E dou com o Thomé, que Leonor está nos re-
clamando para o jantar por termos de ir
ao theatro da Etoile ver a Ivonne Prinptemps,
na revista que tem seu nome.
Como esta vae chegar mais ou menos no
anniversario do Luizinho, pespegue-lhe por nós um
forte abraço. Que saia um homem aos avôs.
A França está atravessando um dos seus mais graves momentos politicos.
Derrotado Poincaré e o partido de Millerand nas urnas, formou este
o gabinete Marçal, exclusivamente para ter ministro que leve ás
Camaras consulta sua interpellando-as, si o presidente deve renun-
ciar o mandato por ter a maioria vencedora recusado formar mi-
nisterio com elle. A crise deve ser resolvida hoje. O cambio de
amanhã dirá das suas consequencias. Beijos às duas graci-
nhas, repartido com a Francisca e o Baby abraços de Sinhá e do
Paulo.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
M[onsieu]r le Prof[esseur]
D[octeu]r Nicoláo de Moraes Barros
Avenida Paulista 77
Brésil S[ão] Paulo
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Paris, Hotel Royal, 9 de Junho de 1924
Nicoláo
Esta leva noticias bem pouco satisfactorias
sobre a nossa Nhanhâ. Conforme contei em carta a
Isaura ou Jorge, encontramol-a magra, envelhecida,
desfeita, em plena decadencia de corpo e espirito e
em completo desanimo. Nossa chegada fel-a resurgir
por assim dizer, quasi recuperando em vinte dias
o que perdera em sete mezes de Paris. Uma carta
da ajuizada Lú, fallando innocentemente, da sua pro-
blematica apendicite chronica, em via de provavel opera-
ção, do estado do Galeno que, magro, pallido e exhausto,
iria repousar dois mezes em Guarujá, ou no Rio Grande,
e finalmente, em papel separado para não ser lido por
mim, reclamando com vehemencia a restituição dos
50 contos e juros emprestados ao marido para fazer socieda-
de com o Eduardo Castilho, à titulo de indemnização por
conta do prejuizo que teve no inventario do pae, essa carta
foi para a coitada verdadeiro cataclysma, reduzindo-a
a estado ainda mais deploravel do que aquele em que
a encontramos. Está ainda de pé e ainda mesmo nos a-
companha nas compras e nos poucos passeios que fa-
zemos, mas, parecendo antes um espectro de gente, sumi-
da, embodocada como Mamãe no ultimo anno de vida,
e peor que tudo com as ideas confusas, inteiramente desa-
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nimada, debulhando-se em lagrimas, triste de fazer dó. A
sua obcessão é o futuro das filhas Revoredo; o Braz inutilisa-
do pelo alcool e o Galeno pela diabetis (já teve acetona),
o que será dellas? Nesse estado ainda faz questão de comple-
tar o enxoval de Luiza, que lhe tem causado verdadeiro
supplicio. Sinhá, que a tem acompanhando nessa fama,[?]
fica assombrada como ella conseguio apromptar a maior
parte delle, tal a indecisão que a obriga a ir a 6 e 8 casas
para recomeçar de novo, taes as difficuldades para se
mover e as interminaveis discussões com as vendeuses, nem
sempre pacientes. Estamos fazendo o possivel para conseguir
della que deixe ao nosso encargo as ultimas peças do
enxoval, os cristaes, para quando voltarmos a Paris em
Setembro. Ainda não sei como resolver o caso desta pobre
irmã, cuja vinda á Europa foi um verdadeiro desastre,
porque se fez, como era natural, chefe do farrancho de
mulheres, quando já não tinha mais expediente, nem
energia, para dirigir-se, quanto mais dirigil-as. O resulta-
do foi Leonor e Córa, que aproveitaram bastante em Ber-
lin, tudo perderam desde que a ella se reuniram em
Vienna. A ultima então, viemos encontrar em estado
de tal depressão nervosa, que cheguei a recear ficasse
maluca, estado do qual tem melhorado gradualmente
em nossa companhia. As tres, em vez de se ajudarem,
atrapalhavam-se, maldiziam-se, vivendo em continuadas
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3
discussões, cada uma fazendo carga á outra do seu estado.
O Juca e Marina, por inexperientes e commodistas, quando
com a mãe, ainda lhe tornavam a vida mais diffi-
cil e amarga, pois, até ceroulas á comprar, passagens,
despachos de bagagens, etc, o genro lhe empurrava. Por isto
é que digo não saber como heide arrumal-a. A Vienna,
para onde quer ir, não a posso acompanhar com o tem-
po escasso e distribuido como tenho e sosinha não convem
que vá, e quando lá, com o casal de moleirões, é possi-
vel que peore de condicções, com a primeira carta do
Brasil. Trato de convence-a á fazer comnosco a esta-
ção de Vichy no mez de Julho, para depois de ficar um
pouco mais valente, expedil-a com uma governante
à Vienna. Esta ideia de governante, que é indispensa-
vel pôr em pratica, não lhe sorri, mas, em Vichy te-
riamos um mez a mais para amadurecel-a. Emfim,
o indispensavel é que ella não receba cartas das filhas
de S[ão] Paulo, se tiver de recebeu-as como a da Lú.
– Já vocês devem estar inteirados que o Congresso de
Vienna gorou e que o Calmon, naturalmente para
aproveitar a ajuda de custo que me ahounou[?], sugerio-me
a ideia de seguir para o Egypto estudar o algodão.
Bem enfronhado do que lá teria de fazer, de que a via-
gem só será praticamente util em Novembro e de
que a verba recebida para Vienna será insufficien-
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te para a nova randomisé, de tudo informei minuciosa-
mente o Ministro, cuja resposta aguardo, disposto a e-
cutar a nova commissão. E, se esta fôr confirmada,
só lá para fim de Dezembro é que as penates de
S[ão] Paulo e do Páo d’Alho nos verão de novo.
Esperando aproveito o tempo da melhor forma. Desde
que cheguei entrei em tratamento com o Marcel l’-
Abbé, que me púlga[?] mais caso de laboratorio de ana-
lyses e regimen, este felizmente não muito severo,
porque aquele demonstrou apenas – fraca permeabi-
lidade dos rins à glycose, alguma desta no sangue,
certa insufficiência hepatica, uréa normal na circula-
ção e pressão sanguinea tambem. Com quatro sema-
nas de Vichy e attenção aos albuminoides entende o
mestre que poderei ainda arrastar o canastro me-
nos desagradavelmente uns pares de annos pelo gran-
de valle das lagrimas. E, como Córa tambem apro-
veitará Vichy e precisa depois uma estação de mon-
tanhas, é quasi certo que passemos o mez de Agosto
no Jura, onde os dias correrão mais insipidos, porem,
onde o cambio francez, que está se medindo pelo nosso
ficará mais ao sabor das algibeiras, com o mesmo
proveito que os ares puros com o franco á 1$500 da Suissa.
– Como o diabo, que depois de velho se fez ermitão, eu com
a edade dei para estudioso da nossa economia rural,
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no que encontro não pequeno conforto ás mazellas do
corpo e as do espirito. Tomei á serio o negocio do
algodão e com a boa bagagem que trouxe consegui,
nos 15 dias de travessia, consegui compôr um pequeno
repositorio de informações uteis, o qual, conquanto
de compilação, apenas com um capitulo original, pare-
ce-me que não sahio máo de todo para o fim em
vista, que é o de demonstrar as possibilidades que
o Brasil, S[ão] Paulo na ponta, offerece ao capital ex-
trangeiro applicado na cultura do algodão. Tendo
falhado a opportunidade de Vienna, consegui que o
meu trabalho seja publicado no – International Cot-
ton Bulletin – n[úmer]os de Setembro e Dezembro, onde
terá a desejada divulgação, por ser o orgão mais
lido pelos interessados do mundo todo. Ao mesmo tem-
po, como succedaneo mais prompto, vou fazer uma
palestra no dia 17 do corrente, com os accionistas do
Syndicat Général de l’Industrie Cotonnière de Fran-
ce, cujos directores mostraram-se enthusiasmados
com as informações que lhes dei e dispostos a
desde logo começarem á operar no Brasil, mon-
tando uma grande usina de beneficio, fauroce-
to[?] e compra de algodão, com fazenda modelo
para selecção de sementes ao lado, em S[ão] Paulo.
Em paga almoçarei com esses accionistas, que já
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foram convocados para a reunião, tendo eu declinado
de participar da direcção da empreza, no caso de
ir avante, por não se compadecer com a commis-
são que ora desempenho. No dia 18 seguiremos para
Londres, onde pretendo fazer igual serviço, visitar
a Exposição e talvez assistir o Congresso do Frio, pa-
ra ter opportunidade de visitar as grandes ins-
tallações frigorificas do Reino Unido. Creio que, se
algum resultado lograrem os meus esforços, o
Governo Federal não terá que chorar o seu rico di-
nheirinho, ora em evaporação nas minhas algibeiras.
A volta se operará via quatro dias de Bruxellas
e depois directamente para Vichy.
Na perspectiva da viagem ao Egypto em Outubro
mez em que ainda lá se cosem ovas ao sál, tenho
tomado umas licções á respeito que me serão
de grande utilidade. O mestre é uma especie
de sabio de verdade, Audebean-Bey, que como enge-
nheiro chefe dos serviços de barragens e cultura irriga-
da do algodão lá residio mais de 40 annos, sendo
um Larousse vivo na especialidade. Bondoso e
complacente poz-me o seu maravilhoso archivo
á disposição, em Garches, logo adiante de Versailles,
e para lá vou eu com Sinhá e Córa ao chá de
familia, sendo tratadas como gente de casa. E o mes-
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tre parece que está contente com o discipulo, que digo
aproveitavel. Pena é que um thezouro destes não
seja convidado pelo Governo brasileiro para ir ao
Nordeste visitar as poucas grandes obras que ainda
lá se executam e sobre ellas se manifestar. Seria
o meio de evitar ainda muitos disparates.
Chega de dar a taramella sobre assuntos tão pou-
co attrahentes e passemos á outras que nos tocam o
mais de perto. Em um dos ultimos numeros re-
cebidos do “Estado” li a noticia da promoção
do Henrique de Souza Queiroz á presidencia da
Rural e da chamada do Bento de Abreu para
a vice-presidencia, o que quer dizer para o exer-
cicio effectivo, pela falta de assiduidade do pri-
meiro. Ora, isso significa nada mais, nada menos,
do que um golpe de força audacioso contra o ac-
cordo de 1923, pelo qual ficou assertado o afasta-
mento da direcção de todos os antigos directores
durante o interregno da directoria de conciliação,
cujo mandato termina em Março de 1925. Signi-
fica mais um acto de desconsideração pessoal a
mim e aos companheiros solidarios na campa-
nha de salvação da Sociedade, acto que me visa
especialmente, promovido pelo Sampaio Vidal,
para valorisar o Cotehing[?], de quem é socio de ad-
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vocacia e de exploração de terrenos suburbanos da
Villa Maria, por intermedio do irmão Bento. O
primeiro passo nesse sentido foi dado pelo Ga-
briel Ribeiro dos Santos, fazendo incluir o pri-
meiro malandro entre os presidentes honora-
rios da Rural, aproveitando-se da minha au-
sencia no Rio, em principio de Abril, sendo pos-
sivel que este segundo ainda tenha sido pre-
parado por elle, ao renunciar a presidencia.
Por occasião de minha partida era tão manifes-
to o seu desejo de agradar o Ministro da Fazenda,
que só posso attribuir a felonia a essa origem.
Vamos a ver como responde á interpellação
formal que, em termos cortezes, lhe fiz em
longa carta, que segue por este mesmo correio.
Se tiver a confirmação da minha suspeita sou
homem para pôr as cousas em pratos limpos
pela imprensa, com a minha assignatura por
baixo. Não sei como o Barros Penteado, Vicente
Sampaio, Diedericksen e Nhônhô Magalhães
deixaram-se ir no embrulho, pois, sem o pla-
cet delles a maroteira não seria feita. O ve-
hiculo, creio não errar apontando o Figueira
de Mello, muito desejoso de um lugar de repre-
sentação que julga poder galgar sob as azas
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do Bento, do Rafael e do Gabriel. Converse com
aquelles e diga-me alguma cousa á respeito,
pois, estou agoniado com o safadismo e com
cocegas de esclarecel-o ao grande publico.
Chega tambem de dar corda aos nervos.
Á não ser theatros, cujo repertorio variado é ex-
plendido e alguns passeios, pouco temos apro-
veitado de Paris, o tempo sendo-me pouco para
ler, escrever e contar e a Sinhá para as vi-
sitas á magazins e ás modistas para encommen-
das proprias e alheias, o que aliás não deixa de
ter o seu sabor. O dinheiro evapora-se logo ao sa=
hir do banco, como as agoas do Nordeste; tudo
custa 5 e 6 vezes mais do que antigamente, só
o taxi não subio de preço. O movimento da ci-
dade cresceu na proporção de 1:5, com os bonds
multiplicados e os autobus irradiando-se em
todas as direcções, em numero 5 vezes maior que
o delles. Temos á menos a insolencia das
cocheiras de fiacres, e á mais a cortezia dos
chauffeurs, que é gente mais educada. As fon-
tes de gastos semi-superfluos tambem estão
muito augmentadas; com a miseria da meza
dos hoteis, o chá é quasi obrigatorio e custa
mais do que custava um almoço; os pourboi-
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re estão erigidos mais que nunca á altura de um
principio e nos theatros, então, é um Deus nos acu-
da, elevando de 20% o alto custo dos bilhetes. Em
comer fóra do hotel só pensam os nababos, sob
pena de perigoso desiquilibrio do orçamento,
sem a autorisação da cauda de que abusam os
governos de nossa terra. Com todos esses senões
Paris é o mesmo Paris de sempre, alegre, ruidoso,
blagueur e descuidado, certo de que o dinheiro foi
feito para circular.
E dou com o Thomé, que Leonor está nos re-
clamando para o jantar por termos de ir
ao theatro da Etoile ver a Ivonne Prinptemps,
na revista que tem seu nome.
Como esta vae chegar mais ou menos no
anniversario do Luizinho, pespegue-lhe por nós um
forte abraço. Que saia um homem aos avôs.
A França está atravessando um dos seus mais graves momentos politicos.
Derrotado Poincaré e o partido de Millerand nas urnas, formou este
o gabinete Marçal, exclusivamente para ter ministro que leve ás
Camaras consulta sua interpellando-as, si o presidente deve renun-
ciar o mandato por ter a maioria vencedora recusado formar mi-
nisterio com elle. A crise deve ser resolvida hoje. O cambio de
amanhã dirá das suas consequencias. Beijos às duas graci-
nhas, repartido com a Francisca e o Baby abraços de Sinhá e do
Paulo.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá