Carta de Nicolau de Moraes Barros, 1900, 01-0000277
Metadados
Descrição
Carta de Nicolau de Moraes Barros para Manoel de Moraes Barros e outros, Paris - França, 1900
Código do documento
01-0000277
Remetente / Autor
Nicolau de Moraes Barros
Destinatário
Manoel de Moraes Barros | Maria Ignez de Moraes Barros
Texto do documento
[01-0277-Página 01]
Paris, 19 de Julho de 1900
(Leião os de S[ão] Paulo e remettão aos
de Piracicaba – Papai. 9 Agosto)
Papai e Mamãi.
Recebi finalmente as
suas primeiras cartas que cus-
taram bem a vir mas que afi-
nal vieram – longas e noticio-
sas, o que de certo modo com-
pensou a demora, tirando-me
do estado apprehensivo em que me
achei por mais de dois longos
mezes. É preciso ter-se uma
vez afastado da familia para
um meio desconhecido e tão dis-
tante como este, para bem se
avaliar a falta que fazem as
noticias de casa; d’aqui as mi-
nhas constantes queixas em todas
as cartas que para ahi dirigi:
Nhânhâ e Jorge que deponham a
respeito!
Eu continuo a passar bem,
tanto quanto o permitte o
[01-0277-Página 02]
o calor senigaleses que temos
tido de 10 dias para cá.
Paris, durante o verão é uma
verdadeira fornalha incompara-
velmente mais intoleravel que
o do Rio – o sol queima muito
mais o que se comprehende atten-
dendo o que elle levanta-se as
4 da manhã p[ar]a só deitar-se as
8 da tarde, e as noites são tão
quentes como os dias. Ahi ao
menos tem-se o vececoso[?] das
casas espaçosas e bem arejadas e
a vantagem de vir-se a mesa
com roupa leve de brim ou al-
paca; emquanto por cá, os quartos
são uns cubiculos atavancados
de tapetes, cortinas e estufados
com janelinhas muito pequenas,
de sorte que foge-se das ruas
para não ser cozido, pelo sol
e vem-se para casa derreter-se
em suor. É um horror: para
começar o thermometro tem subido
a 35 e 36º centígrados a sombra
e diz-se que para Agosto está nos
[01-0277-Página 03]
reservada a brincadeira de 40º !!
Duvido que me aguente aqui,
si a cousa continuar n’esse
andar. Estou pensando em
passar algum tempo, 2 ou 3 se-
manas, na Suissa, para o que
já conto com a companhia
do Jacob Guyer, chegado há pou-
cos dias e de um filho[?] de Totó
Sampaio de Itú. Apezar do calor
tenho ido aos hospitais e a aula
de allemão com o qual vou
me familiarizando aos poucos.
É intenção ficar em Paris
até principios de Novembro
p[ar]a então passar-me p[ar]a Vien-
na porque di certo é que se
iniciam os cursos hospita-
lares que devo frequentar.
Aqui em Paris perde-se muito
tempo: os hospitaes são muito
dispersos e distantes uns dos
outros e só se trabalha 2 horas
todas as manhãs; o resto do
dia é inteiramente perdido, o que
não quer dizer que eu não
tenha em que empregal-o –
antes muito pelo contrario.
[01-0277-Página 04]
Das noticias que tenho do Brazil
a mais grata e que mais
particularmente me affecta
é a alta do cambio, que
não sei porque não manteve-
se nos 14 ½; como Papai bem o
diz os meus cobres vão propor-
cionalmente espichando e eu
começo a entrar nos credito ex-
traordinarios pela insufficien-
cia dos 1000 francos mensaes.
Que ao menos mantenha-se nos
12 ⅛ em que está hoje, para
felicidade minha e do paiz são
meus votos! E o café? Não
tem baixado muito?
Tenho acompanhado nos
jornaes d’ahi, alguns mandados
por Papai e Nonô, as peripecias
do reconhecimento de poderes no
Congresso. Não me surprehendeu
nem a intervenção escandalosa
do C[ampos] Salles nem a submissão
nojenta dos deputados Valois
e outros. Muito mais do que
[01-0277-Página 05]
5
o voto da carneirada paulista
no 2º districto de Campos, en-
tristece e desanima a scisão
dos baianos, que eu reputava
incorruptiveis e serios. Con-
tando-me a noticia do reconhe
cimento do Mitello[?], o Piza disse
que logo que o nome de Papai
estava entre o 16, o que mais era
novidade p[ar]a mim, e que estes
16 valiam bem os 23. A ver-
dade é, contudo que a essas
miserias da politica interna
oppõe-se a melhora do cambio,
o renascimento da confiança
inspirada pela firmeza com que
o governo queima papel e diz
fazer economias. Valha-nos isso!
O Lambert aqui esteve alguns
dias seguindo p[ar]a Vichy, d’onde
voltará p[ar]a Paris após uma
estação de 1 mez. Trouxe-me
boas noticias do Rio e contou-
me muitas novidades. Fomos
[01-0277-Página 06]
6
juntos a revista[?] de 14 de Julho
dia horrorosamente quente, cir-
cunstancia que eu aproveitei
para dar-lhe uns cotanados[?]
e fazel-o confessar que no
Rio a cousa é sempre um
pouco melhor.
E o casamento do Jorge? espero
communicação official para
felicital-o, emquanto ella não
vier podem Papai e Mamãi
abraçal-o por mim. Em carta
recebida ha dias Nhânhâ con-
ta-me umas histórias de
chôro da moça, que não
quer separar-se dos paes e que
deixam entrever imminencia
de borrasca. Que ao chegar d’esta
Já se tenham desfeito essas
nuvens suspeitas, é o que desejo.
Recebi uma carta de Nônô
mettida entre os Jornais; o
Richard que a descobriu censu-
rou o facto e com razão,
[01-0277-Página 07]
7
o que quer dizer que Nônô não
deve repetil-o, devendo contudo
escrever-me mais amiudadas
vezes. Vou responder a ella pelo 1º vapor.
Mamãi que retribui a Dolores
e D[ona] Christina as lembranças
que me mandavam. E o
teu reumatismo, e as coceiras?
Já soube que o Nhônhô está
de filha nova – que saia esta
mais forte que a Maria e
tão engraçada como o
Manduca.
Já 11 ½ da manhã, o meu
companheiro lembra-me que
são horas de vestir para o almoço,
comemos habitualmente n’um
bom restaurant junto a gard
L. Lagare[?] onde nos reunimos
nada menos de 8 brazileiros
e todos paulistas. Mesmo despido
como me acho, súo em bica,
imagina que supplicio vestir-
me e metter-me n’uma sala
[01-0277-Página 08]
de restaurant – com 34º de
temperatura.
Saudades e abraços a todos
e a Papai e Mamai do
filho m[uit]o am[ig]o
Nicolao
Devem remeter a corres-
pondencia minha para a
rua Godot de Mauroi - 49
onde estou fixamente morando.
Esquecia-me de contar-lhes que
já fallo o francez correntemente.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Manuel de Moraes Barros Neto – Manduca
Paris, 19 de Julho de 1900
(Leião os de S[ão] Paulo e remettão aos
de Piracicaba – Papai. 9 Agosto)
Papai e Mamãi.
Recebi finalmente as
suas primeiras cartas que cus-
taram bem a vir mas que afi-
nal vieram – longas e noticio-
sas, o que de certo modo com-
pensou a demora, tirando-me
do estado apprehensivo em que me
achei por mais de dois longos
mezes. É preciso ter-se uma
vez afastado da familia para
um meio desconhecido e tão dis-
tante como este, para bem se
avaliar a falta que fazem as
noticias de casa; d’aqui as mi-
nhas constantes queixas em todas
as cartas que para ahi dirigi:
Nhânhâ e Jorge que deponham a
respeito!
Eu continuo a passar bem,
tanto quanto o permitte o
[01-0277-Página 02]
o calor senigaleses que temos
tido de 10 dias para cá.
Paris, durante o verão é uma
verdadeira fornalha incompara-
velmente mais intoleravel que
o do Rio – o sol queima muito
mais o que se comprehende atten-
dendo o que elle levanta-se as
4 da manhã p[ar]a só deitar-se as
8 da tarde, e as noites são tão
quentes como os dias. Ahi ao
menos tem-se o vececoso[?] das
casas espaçosas e bem arejadas e
a vantagem de vir-se a mesa
com roupa leve de brim ou al-
paca; emquanto por cá, os quartos
são uns cubiculos atavancados
de tapetes, cortinas e estufados
com janelinhas muito pequenas,
de sorte que foge-se das ruas
para não ser cozido, pelo sol
e vem-se para casa derreter-se
em suor. É um horror: para
começar o thermometro tem subido
a 35 e 36º centígrados a sombra
e diz-se que para Agosto está nos
[01-0277-Página 03]
reservada a brincadeira de 40º !!
Duvido que me aguente aqui,
si a cousa continuar n’esse
andar. Estou pensando em
passar algum tempo, 2 ou 3 se-
manas, na Suissa, para o que
já conto com a companhia
do Jacob Guyer, chegado há pou-
cos dias e de um filho[?] de Totó
Sampaio de Itú. Apezar do calor
tenho ido aos hospitais e a aula
de allemão com o qual vou
me familiarizando aos poucos.
É intenção ficar em Paris
até principios de Novembro
p[ar]a então passar-me p[ar]a Vien-
na porque di certo é que se
iniciam os cursos hospita-
lares que devo frequentar.
Aqui em Paris perde-se muito
tempo: os hospitaes são muito
dispersos e distantes uns dos
outros e só se trabalha 2 horas
todas as manhãs; o resto do
dia é inteiramente perdido, o que
não quer dizer que eu não
tenha em que empregal-o –
antes muito pelo contrario.
[01-0277-Página 04]
Das noticias que tenho do Brazil
a mais grata e que mais
particularmente me affecta
é a alta do cambio, que
não sei porque não manteve-
se nos 14 ½; como Papai bem o
diz os meus cobres vão propor-
cionalmente espichando e eu
começo a entrar nos credito ex-
traordinarios pela insufficien-
cia dos 1000 francos mensaes.
Que ao menos mantenha-se nos
12 ⅛ em que está hoje, para
felicidade minha e do paiz são
meus votos! E o café? Não
tem baixado muito?
Tenho acompanhado nos
jornaes d’ahi, alguns mandados
por Papai e Nonô, as peripecias
do reconhecimento de poderes no
Congresso. Não me surprehendeu
nem a intervenção escandalosa
do C[ampos] Salles nem a submissão
nojenta dos deputados Valois
e outros. Muito mais do que
[01-0277-Página 05]
5
o voto da carneirada paulista
no 2º districto de Campos, en-
tristece e desanima a scisão
dos baianos, que eu reputava
incorruptiveis e serios. Con-
tando-me a noticia do reconhe
cimento do Mitello[?], o Piza disse
que logo que o nome de Papai
estava entre o 16, o que mais era
novidade p[ar]a mim, e que estes
16 valiam bem os 23. A ver-
dade é, contudo que a essas
miserias da politica interna
oppõe-se a melhora do cambio,
o renascimento da confiança
inspirada pela firmeza com que
o governo queima papel e diz
fazer economias. Valha-nos isso!
O Lambert aqui esteve alguns
dias seguindo p[ar]a Vichy, d’onde
voltará p[ar]a Paris após uma
estação de 1 mez. Trouxe-me
boas noticias do Rio e contou-
me muitas novidades. Fomos
[01-0277-Página 06]
6
juntos a revista[?] de 14 de Julho
dia horrorosamente quente, cir-
cunstancia que eu aproveitei
para dar-lhe uns cotanados[?]
e fazel-o confessar que no
Rio a cousa é sempre um
pouco melhor.
E o casamento do Jorge? espero
communicação official para
felicital-o, emquanto ella não
vier podem Papai e Mamãi
abraçal-o por mim. Em carta
recebida ha dias Nhânhâ con-
ta-me umas histórias de
chôro da moça, que não
quer separar-se dos paes e que
deixam entrever imminencia
de borrasca. Que ao chegar d’esta
Já se tenham desfeito essas
nuvens suspeitas, é o que desejo.
Recebi uma carta de Nônô
mettida entre os Jornais; o
Richard que a descobriu censu-
rou o facto e com razão,
[01-0277-Página 07]
7
o que quer dizer que Nônô não
deve repetil-o, devendo contudo
escrever-me mais amiudadas
vezes. Vou responder a ella pelo 1º vapor.
Mamãi que retribui a Dolores
e D[ona] Christina as lembranças
que me mandavam. E o
teu reumatismo, e as coceiras?
Já soube que o Nhônhô está
de filha nova – que saia esta
mais forte que a Maria e
tão engraçada como o
Manduca.
Já 11 ½ da manhã, o meu
companheiro lembra-me que
são horas de vestir para o almoço,
comemos habitualmente n’um
bom restaurant junto a gard
L. Lagare[?] onde nos reunimos
nada menos de 8 brazileiros
e todos paulistas. Mesmo despido
como me acho, súo em bica,
imagina que supplicio vestir-
me e metter-me n’uma sala
[01-0277-Página 08]
de restaurant – com 34º de
temperatura.
Saudades e abraços a todos
e a Papai e Mamai do
filho m[uit]o am[ig]o
Nicolao
Devem remeter a corres-
pondencia minha para a
rua Godot de Mauroi - 49
onde estou fixamente morando.
Esquecia-me de contar-lhes que
já fallo o francez correntemente.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Manuel de Moraes Barros Neto – Manduca