Carta de Anna Maria de Moraes Burchard, 1928, 01-0000326
Metadados
Descrição
Carta de Anna Maria de Moraes Burchard para Antonio de Moraes Barros, Rio de Janeiro - RJ, 1928
Código do documento
01-0000326
Remetente / Autor
Anna Maria de Moraes Burchard
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Hercules & Werneck
Texto do documento
[01-0326-Página 01]
[Papel timbrado: Hercules & Werneck / Rua Ferreira Vianna n.29 / Flamengo / Rio de Janeiro / Proximo dos banhos de Mar / Tel. Beira Mar - 3752 / End. Tel - Regina -]
Rio, 19 de Novembro de 1928
Nhonhô
Saude a você e aos seus.
Acabo de receber essa carta de
Chica que, como voce vê, me
pede soccorro. Sinto-me na
obrigação de acudil-a, por is-
so peço a você fazer por ella
o que possivel.
Lembro acceitar a hypothe-
ca da casa mediante a obri-
gação de pagar a divida do
vendeiro e de fazer forneci-
mentos mensaes para a sua
manutenção até attingir
uma determinada somma,
que você estipulará de ac-
[01-0326-Página 02 - esquerda]
cordo com o valor da casa.
A occasião é pessima pa-
ra metter-me em negocio
dessa ordem, porque pelo que
me parece, as minhas finan-
ças não andam bem.
Jorge, se não estivesse ausen-
te, talvez não se recusasse a
me ajudar a carregar a car-
ga. O primeiro marido da Chi-
ca, o José, foi um antigo em-
pregado da casa de commer-
cio, e durante muitos annos.
Fiquei sabendo por Peró, que
ouvio de Manduca, já estar
eu devendo a Moraes, Burchard
e C[ompanh]ia, o que muito me tem in-
commodado.
Também não podia ser de outra
[01-0326-Página 02 - direita]
forma, com as despesas colos-
saes que tenho tido desde
que voltei da Europa.
Alem do dispendio de manuten-
ção, que não é pequeno, ha
ainda os innumeros extra-
ordinarios.
Engrossam esses extraordi-
narios: – a compra de 2!
automoveis por 50 contos;
diversos concertos indispens-
saveis e pintura parcial
da casa; reforma da gara-
ge e da casa do jardinei-
ro, que estava quasi a ca-
hir; concerto de 300 metros
de passeio em volta da casa;
pintura de grades de ferro e
portões etc. e mil outras pe-
[01-0326-Página 03]
queninas cousas que, em
geral, nunca custam me-
nos de um conto de reis.
Só a reforma dos para raios
das torres, que cahiram com
uma ventania, custou-me
perto de 4 contos.
Espero poder, no anno que vem,
viver mais economicamen-
te, porque, a não ser a pin-
tura externa de que a casa es-
tá muito necessitada, e que de-
ve custar de 6 a 8 contos, não
prevejo outros extraordinarios.
Manduca disse a Peró que
as minhas despezas mensaes
orçam por 20 contos. Isso não
pode ser, deve haver engano.
Só se está incluida nos
[01-0326-Página 04]
[Papel timbrado: Hercules & Werneck / Rua Ferreira Vianna n.29 / Flamengo / Rio de Janeiro / Proximo dos banhos de Mar / Tel. Beira Mar - 3752 / End. Tel - Regina -]
nos 20 contos a despeza com
a fazenda do Braz.
Não será possivel pa-
gar o que devo a Moraes Burchard
com algum dinheiro que tenha
empregado em hypotheca, fazen-
do a transferencia desta para
uma outra pessoa?
Você que já me tem arranja-
do tantas cousas, tome mais
essa maçada e arranje-me
tambem o negocio da Chica
e a divida de Moraes Bur-
chard, contando sempre e
sempre com a minha gra-
tidão.
Ha já um mez que me acho no
[01-0326-Página 05 - esquerda]
Rio de Janeiro. Cá tenho estado
a apreciar as suas já tão decan-
tadas bellezas, gosando ao mes-
mo tempo de uma temperatu-
ra deliciosamente fresca,
n’um “dolce far niente” que
me tira toda a vontade de
ir-me embora d’aqui.
Entretanto, é preciso pensar
(em voltar) na volta para
casa. Creio que, no proximo
sabbado, o mais tardar, segui-
rei para São Paulo.
O “dolce far niente” é apenas
apparente, porque os aborre-
cimentos, que não faltam,
ca vêm me procurar.
Ainda hontem, em con-
versa com Paulo, ouvi delle
[01-0326-Página 05 - direita]
que a Companhia Sampaio
Goyaz, digo, São Paulo Goyaz, da
qual possuo um bom nume-
ro de acções, vae de mal a
pior sob a gerencia de João Sam-
paio.
Os aborrecimentos que vieram
procurar-me aqui - Chica,
despesa mensal de 20 contos,
divida de Moraes Burchard,
São Paulo Goyaz etc –, fizeram
lembrar-me do que me pro-
porcionou o Pujol quando,
prevalecendo-se do seu
papel de arbitro, deu de pre-
sente a seu socio e amigo
um bom pedaço de terras
minhas no valor de algumas
dezenas de contos.
[01-0326-Página 06]
Não sei o que mais deva admi-
rar-se a inepcia do João
Sampaio em acceitar como
arbitro de uma cousa o Pujol
que elle sabia ser socio e ami-
go do Horacio Sabino, ou o pou-
co escrupulo daquelle que, se
quizesse ser homem de bem
se teria dado por suspeito.
Como você, mais de uma
vez, me offereceu a sua casa nos
Campos do Jordão, estava certa
de pedir o seu consentimento
para Lu lá ir, com os filhos,
Passar os mezes de Janeiro e Fe-
vereiro. Mas, parece que Lucia
já me tomou a dianteira e vo-
cê lhe cedeu a casa para os
trez mezes que ella tenciona
passar nos Campos.
Eu nada sei de positivo. Só
ouvi de Lucia – que parece
que ella vae para a sua casa.
Lembranças aos rapazes.
Para vocês, um abraço com
muitas saudades da
irmã e amiga grata
Nhanhã.
Sei que Isa
está nos Campos.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Manuel de Moraes Barros Neto – Manduca
Pedro de Moraes Barros – Peró
[Papel timbrado: Hercules & Werneck / Rua Ferreira Vianna n.29 / Flamengo / Rio de Janeiro / Proximo dos banhos de Mar / Tel. Beira Mar - 3752 / End. Tel - Regina -]
Rio, 19 de Novembro de 1928
Nhonhô
Saude a você e aos seus.
Acabo de receber essa carta de
Chica que, como voce vê, me
pede soccorro. Sinto-me na
obrigação de acudil-a, por is-
so peço a você fazer por ella
o que possivel.
Lembro acceitar a hypothe-
ca da casa mediante a obri-
gação de pagar a divida do
vendeiro e de fazer forneci-
mentos mensaes para a sua
manutenção até attingir
uma determinada somma,
que você estipulará de ac-
[01-0326-Página 02 - esquerda]
cordo com o valor da casa.
A occasião é pessima pa-
ra metter-me em negocio
dessa ordem, porque pelo que
me parece, as minhas finan-
ças não andam bem.
Jorge, se não estivesse ausen-
te, talvez não se recusasse a
me ajudar a carregar a car-
ga. O primeiro marido da Chi-
ca, o José, foi um antigo em-
pregado da casa de commer-
cio, e durante muitos annos.
Fiquei sabendo por Peró, que
ouvio de Manduca, já estar
eu devendo a Moraes, Burchard
e C[ompanh]ia, o que muito me tem in-
commodado.
Também não podia ser de outra
[01-0326-Página 02 - direita]
forma, com as despesas colos-
saes que tenho tido desde
que voltei da Europa.
Alem do dispendio de manuten-
ção, que não é pequeno, ha
ainda os innumeros extra-
ordinarios.
Engrossam esses extraordi-
narios: – a compra de 2!
automoveis por 50 contos;
diversos concertos indispens-
saveis e pintura parcial
da casa; reforma da gara-
ge e da casa do jardinei-
ro, que estava quasi a ca-
hir; concerto de 300 metros
de passeio em volta da casa;
pintura de grades de ferro e
portões etc. e mil outras pe-
[01-0326-Página 03]
queninas cousas que, em
geral, nunca custam me-
nos de um conto de reis.
Só a reforma dos para raios
das torres, que cahiram com
uma ventania, custou-me
perto de 4 contos.
Espero poder, no anno que vem,
viver mais economicamen-
te, porque, a não ser a pin-
tura externa de que a casa es-
tá muito necessitada, e que de-
ve custar de 6 a 8 contos, não
prevejo outros extraordinarios.
Manduca disse a Peró que
as minhas despezas mensaes
orçam por 20 contos. Isso não
pode ser, deve haver engano.
Só se está incluida nos
[01-0326-Página 04]
[Papel timbrado: Hercules & Werneck / Rua Ferreira Vianna n.29 / Flamengo / Rio de Janeiro / Proximo dos banhos de Mar / Tel. Beira Mar - 3752 / End. Tel - Regina -]
nos 20 contos a despeza com
a fazenda do Braz.
Não será possivel pa-
gar o que devo a Moraes Burchard
com algum dinheiro que tenha
empregado em hypotheca, fazen-
do a transferencia desta para
uma outra pessoa?
Você que já me tem arranja-
do tantas cousas, tome mais
essa maçada e arranje-me
tambem o negocio da Chica
e a divida de Moraes Bur-
chard, contando sempre e
sempre com a minha gra-
tidão.
Ha já um mez que me acho no
[01-0326-Página 05 - esquerda]
Rio de Janeiro. Cá tenho estado
a apreciar as suas já tão decan-
tadas bellezas, gosando ao mes-
mo tempo de uma temperatu-
ra deliciosamente fresca,
n’um “dolce far niente” que
me tira toda a vontade de
ir-me embora d’aqui.
Entretanto, é preciso pensar
(em voltar) na volta para
casa. Creio que, no proximo
sabbado, o mais tardar, segui-
rei para São Paulo.
O “dolce far niente” é apenas
apparente, porque os aborre-
cimentos, que não faltam,
ca vêm me procurar.
Ainda hontem, em con-
versa com Paulo, ouvi delle
[01-0326-Página 05 - direita]
que a Companhia Sampaio
Goyaz, digo, São Paulo Goyaz, da
qual possuo um bom nume-
ro de acções, vae de mal a
pior sob a gerencia de João Sam-
paio.
Os aborrecimentos que vieram
procurar-me aqui - Chica,
despesa mensal de 20 contos,
divida de Moraes Burchard,
São Paulo Goyaz etc –, fizeram
lembrar-me do que me pro-
porcionou o Pujol quando,
prevalecendo-se do seu
papel de arbitro, deu de pre-
sente a seu socio e amigo
um bom pedaço de terras
minhas no valor de algumas
dezenas de contos.
[01-0326-Página 06]
Não sei o que mais deva admi-
rar-se a inepcia do João
Sampaio em acceitar como
arbitro de uma cousa o Pujol
que elle sabia ser socio e ami-
go do Horacio Sabino, ou o pou-
co escrupulo daquelle que, se
quizesse ser homem de bem
se teria dado por suspeito.
Como você, mais de uma
vez, me offereceu a sua casa nos
Campos do Jordão, estava certa
de pedir o seu consentimento
para Lu lá ir, com os filhos,
Passar os mezes de Janeiro e Fe-
vereiro. Mas, parece que Lucia
já me tomou a dianteira e vo-
cê lhe cedeu a casa para os
trez mezes que ella tenciona
passar nos Campos.
Eu nada sei de positivo. Só
ouvi de Lucia – que parece
que ella vae para a sua casa.
Lembranças aos rapazes.
Para vocês, um abraço com
muitas saudades da
irmã e amiga grata
Nhanhã.
Sei que Isa
está nos Campos.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Manuel de Moraes Barros Neto – Manduca
Pedro de Moraes Barros – Peró