Carta de Paulo de Moraes Barros, 1924, 01-0000452
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Isaura de Moraes Barros, Paris - França, 1924
Código do documento
01-0000452
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Isaura de Moraes Barros
Palavras-chave
Hotel Royal
Texto do documento
[01-0452- Página 01 - envelope]
[Com carimbo e selo dos correios de Paris.]
M[ada]me
Isaura de Moraes Barros
Rua Braulio Gomes, 2.
S[ão] Paulo
Brésil
[01-0452- Página 02]
Paris, Hotel Royal, 33, Av. de Friedland, 11 de Maio de 1924
Isaura
Na correria da partida ficou no tinteiro,
ou antes só na intenção, o abraço da despedida, que
agora vae acompanhado por outro ainda mais vasto,
pelo dia 20. Que elle encontre V[ocê] conformada com a
velhice que começa com tanta rabugem, mas, res-
taurada de saude e animo, para alcançar o ultimo
fio de cabello embranquecido.
Tivemos viagem explendida, apenas com um susto
á entrada do Tejo, quando o “Arlanza”, ao mudar de
rumo bruscamente, deu forte guinada, atirando
os passageiros aos trambolhões o que custou um bra-
ço quebrado á S[e]n[ho]ra do Fabio Uchôa. O mar esteve
uma delicia; vimos Bahia, Pernambuco e Madeira
por um oculo, so desembarcando em Lisbôa, onde só
almoçamos, por ser escasso o tempo e se achar em
gréve todo o pessoal dos carros e automoveis, hoje
dirigente dos destinos da terra dos nossos avós. Em
Cherbourg tivemos desagradavel surpreza não encontran-
do duas mallas grandes de porão, esquecidas em
Santos pela Companhia, que as recebera em casa,
obrigando-se a pol-as á bordo. O mal não foi dos
maiores, por que já devem ter sido remettidas pelo
[01-0452- Página 03]
“Avon”, d’ahi partido á 3 ou 4 do corrente. Pregamos boa
surpresa ao nosso pessoal de cá, pois, só eramos espe-
rados a 9 e chegamos a 6. Ate Paris, a viagem pela
Normandia vestida de primavera, foi um encanto.
Córa só chegou da Inglaterra, onde fora visitar a Miss
Sadler, uma antiga professora de inglez, no dia 8. Tanto
ella como Nônô estão muito bem, na apparencia,
mas, fazendo um regimen feroz de sôpas, bifes sêccos,
batatas e macarrão, com o qual se dão as maravilhas,
como se verifica pelo bom humor incessante, Córa
ainda muito influida no bom desempenho da com-
missão das escolas domesticas. Pelo geito, parece
que vae dar uma tia de truz. Quem não vae bem
é Nhanhâ, magra, envelhecida, em franca decaden-
cia, apezar de sem assucar e em regimen apurado.
Seu mal maior é a continua obcessão com as filhas,
com os genros, com sua situação financeira; discu-
te tudo, á torto e a direito, multiplicando as occasiões
graças á insolencia do pessoal de serviço, á miseria
dos menus, e ao custo fabuloso da vida, occasiões fa-
vorecidas pela sua indecisão, dez vezes maior do que
a que dahi trouxe. Ao menor contratempo suspeitado,
passa semanas sem dormir e ainda fica mais ranzinza.
A incumbencia de enxoval da sobrinha tem-lhe sido
[01-0452- Página 04]
verdadeiro martyrio e as encommendas ainda estão
em meio, exigindo as casas de roupa branca de
3 a 6 mezes para apromptal-as. Por tal forma
se preoccupa aqui com Marina e o Juca, aliás um
tanto culpados por falta de expediente, e com a
perspectiva de ser na casa da rua Arthur Prado
assediada demais pelos genros e filhas, á sua volta,
que lhe sugeri a ideia de voltar em Outubro comnos-
co e ir morar em appartamento no Hotel Esplanada.
Nhônhô que estude o lembrete com os outros irmãos
e se o acharem bom, que comece a pôl-o em pra-
tica, procurando passar á cobres o palacete; por
ella é negocio decidido. Si continuar com a vida
daqui, ou voltar à antiga dahi, pouco tempo de
vida lhe restará. – Sinhá nem bem chegada
está na lufa-lufa das compras, dando para
o diabo com os preços, todos pela hora da morte.
A não ser este encarecimento, Paris está, apezar
delle, com o mesmo antigo movimento, com as
mesmas seducções e, graças a estação, com dias
lindos, temperatura ideal e alegria por toda parte.
Eu ainda não tive tempo para aprecial-o como me-
rece, pois, se o tempo á bordo foi pouco para estu-
dar e escrever – algodão –, só terminei o trabalho
[01-0452- Página 05]
ante-hontem e ando agora á procura de quem o tra-
duza e imprima em francez mesmo, que, em in-
glez, desisti da empreitada. Imagine que só pela
traducção pediram-me de 2500 até 15000 francos!
Neste andar os 8 contos ouro, com que me favoreceu
o Calmon, estarão comidos antes de chegarmos a
Vienna. Pensamos partir para lá nos primeiros
dias de Junho e, como parece que a vida ainda está
mais cara lá do que aqui, assim que desoccupado, tra-
tarei de seguir para uma estação de agoas, ou sa-
natório, si aconselhados por especialista. – É do-
mingo hoje, são quasi 11 horas, o sóll esta de fóra e
convidando para um passeio ao Bois de Boulogne.
Ahi vae, porisso, com o ponto final uma duzia
de abraços para V[ocê] repartir com Nhonho e filhos,
de Sinhá, Córa, Nhanhã, Nônô e do
irmão m[ui]to am[ig]o
Paulo.
Isaura. – Estamos no lufa-lufa de Paris e ajudan-
do Nhãnhã a comprar os enxovaes. Coitada,
não tinha coragem para decidir nada! Os seus
como estão? E voce? Mais um abraço pelo dia
20 com os melhores votos de boa saude e alegria.
Da irmã e amiga Sinhá.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
[Com carimbo e selo dos correios de Paris.]
M[ada]me
Isaura de Moraes Barros
Rua Braulio Gomes, 2.
S[ão] Paulo
Brésil
[01-0452- Página 02]
Paris, Hotel Royal, 33, Av. de Friedland, 11 de Maio de 1924
Isaura
Na correria da partida ficou no tinteiro,
ou antes só na intenção, o abraço da despedida, que
agora vae acompanhado por outro ainda mais vasto,
pelo dia 20. Que elle encontre V[ocê] conformada com a
velhice que começa com tanta rabugem, mas, res-
taurada de saude e animo, para alcançar o ultimo
fio de cabello embranquecido.
Tivemos viagem explendida, apenas com um susto
á entrada do Tejo, quando o “Arlanza”, ao mudar de
rumo bruscamente, deu forte guinada, atirando
os passageiros aos trambolhões o que custou um bra-
ço quebrado á S[e]n[ho]ra do Fabio Uchôa. O mar esteve
uma delicia; vimos Bahia, Pernambuco e Madeira
por um oculo, so desembarcando em Lisbôa, onde só
almoçamos, por ser escasso o tempo e se achar em
gréve todo o pessoal dos carros e automoveis, hoje
dirigente dos destinos da terra dos nossos avós. Em
Cherbourg tivemos desagradavel surpreza não encontran-
do duas mallas grandes de porão, esquecidas em
Santos pela Companhia, que as recebera em casa,
obrigando-se a pol-as á bordo. O mal não foi dos
maiores, por que já devem ter sido remettidas pelo
[01-0452- Página 03]
“Avon”, d’ahi partido á 3 ou 4 do corrente. Pregamos boa
surpresa ao nosso pessoal de cá, pois, só eramos espe-
rados a 9 e chegamos a 6. Ate Paris, a viagem pela
Normandia vestida de primavera, foi um encanto.
Córa só chegou da Inglaterra, onde fora visitar a Miss
Sadler, uma antiga professora de inglez, no dia 8. Tanto
ella como Nônô estão muito bem, na apparencia,
mas, fazendo um regimen feroz de sôpas, bifes sêccos,
batatas e macarrão, com o qual se dão as maravilhas,
como se verifica pelo bom humor incessante, Córa
ainda muito influida no bom desempenho da com-
missão das escolas domesticas. Pelo geito, parece
que vae dar uma tia de truz. Quem não vae bem
é Nhanhâ, magra, envelhecida, em franca decaden-
cia, apezar de sem assucar e em regimen apurado.
Seu mal maior é a continua obcessão com as filhas,
com os genros, com sua situação financeira; discu-
te tudo, á torto e a direito, multiplicando as occasiões
graças á insolencia do pessoal de serviço, á miseria
dos menus, e ao custo fabuloso da vida, occasiões fa-
vorecidas pela sua indecisão, dez vezes maior do que
a que dahi trouxe. Ao menor contratempo suspeitado,
passa semanas sem dormir e ainda fica mais ranzinza.
A incumbencia de enxoval da sobrinha tem-lhe sido
[01-0452- Página 04]
verdadeiro martyrio e as encommendas ainda estão
em meio, exigindo as casas de roupa branca de
3 a 6 mezes para apromptal-as. Por tal forma
se preoccupa aqui com Marina e o Juca, aliás um
tanto culpados por falta de expediente, e com a
perspectiva de ser na casa da rua Arthur Prado
assediada demais pelos genros e filhas, á sua volta,
que lhe sugeri a ideia de voltar em Outubro comnos-
co e ir morar em appartamento no Hotel Esplanada.
Nhônhô que estude o lembrete com os outros irmãos
e se o acharem bom, que comece a pôl-o em pra-
tica, procurando passar á cobres o palacete; por
ella é negocio decidido. Si continuar com a vida
daqui, ou voltar à antiga dahi, pouco tempo de
vida lhe restará. – Sinhá nem bem chegada
está na lufa-lufa das compras, dando para
o diabo com os preços, todos pela hora da morte.
A não ser este encarecimento, Paris está, apezar
delle, com o mesmo antigo movimento, com as
mesmas seducções e, graças a estação, com dias
lindos, temperatura ideal e alegria por toda parte.
Eu ainda não tive tempo para aprecial-o como me-
rece, pois, se o tempo á bordo foi pouco para estu-
dar e escrever – algodão –, só terminei o trabalho
[01-0452- Página 05]
ante-hontem e ando agora á procura de quem o tra-
duza e imprima em francez mesmo, que, em in-
glez, desisti da empreitada. Imagine que só pela
traducção pediram-me de 2500 até 15000 francos!
Neste andar os 8 contos ouro, com que me favoreceu
o Calmon, estarão comidos antes de chegarmos a
Vienna. Pensamos partir para lá nos primeiros
dias de Junho e, como parece que a vida ainda está
mais cara lá do que aqui, assim que desoccupado, tra-
tarei de seguir para uma estação de agoas, ou sa-
natório, si aconselhados por especialista. – É do-
mingo hoje, são quasi 11 horas, o sóll esta de fóra e
convidando para um passeio ao Bois de Boulogne.
Ahi vae, porisso, com o ponto final uma duzia
de abraços para V[ocê] repartir com Nhonho e filhos,
de Sinhá, Córa, Nhanhã, Nônô e do
irmão m[ui]to am[ig]o
Paulo.
Isaura. – Estamos no lufa-lufa de Paris e ajudan-
do Nhãnhã a comprar os enxovaes. Coitada,
não tinha coragem para decidir nada! Os seus
como estão? E voce? Mais um abraço pelo dia
20 com os melhores votos de boa saude e alegria.
Da irmã e amiga Sinhá.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá