Carta de João Sampaio, 1925, 01-0000540
Metadados
Descrição
Carta de João Sampaio para Antonio de Moraes Barros, Paris - França, 1925
Código do documento
01-0000540
Remetente / Autor
João Sampaio
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Texto do documento
[01-0540- Página 01]
Paris, 25 de novembro de [1]925.
Nhônhô,
aqui tenho a s[ua] carta de 30 do
mez passado, na qual você responde ás que es-
crevi de Pari[s] e de Londres, e ao telegramma
desta ultima. Dou a você os m[eus] parabens por
haver levado a bom termo o negocio das ter-
ras no Paraná e especialmente pelo apre-
ciavel resultado pecuniario que elle proporcio-
nou, como justa remuneração dos seus ser-
viços. E tenho grande satisfação em
haver posto nas suas mãos a opportu-
nidade de ganhar uma boa somma a
você que em tantas occasiões da mi-
[01-0540- Página 02 - esquerda]
nha vida tem me dispensado apoio ma-
terial e moral, respectivamente mui
valiosos e inestimaveis.
Continuo convencido de que os inglezes
realisaram um excelente negocio. E pela
maneira cautelosa com que foi ahi con-
duzido sinto-me inteiramente aliviado
do peso da responsabilidade que assumi
na reunião de Londres, onde o negocio
foi decidido em face do verdadeiro interro-
gatorio que soffri e em conformidade
com a minha orientação. Queriam elles
que eu voltasse ao Brasil para executar
o plano adoptado, no que me não
[01-0540- Página 02 - direita]
era possivel attendel-os. Mas ainda nes-
se ponto dei a solução, offerecendo homem
por mim, devendo elles estar a esta hora
bem convencidos de que o meu criterio foi
seguro. E você apenas numa[?] adminicula[?]:
Eu disse que não tinha bem presentes os
prescritos de m[inha] legislação, mas que pensava
ser necessario o domicilio no paiz para
ser director de sociedade anonyma na-
cional. Você teria opportunidade de o
unificar, em se tratando da organisação
e tendo em vista o nome de Lord Lovat.
E pela sua carta vejo que este foi feito
presidente, havendo fechado a minha opi-
[01-0540- Página 03]
nião emittida a ratione e com certo
constrangimento.
Quanto aos titulos da C[ompah]ia Morandes[?]
já elles estavam bem prevenidos, – porque
desde o primeiro relatorio que forneci pa-
ra estudo do negocio, eu os declarava
apenas formalmente bons, mas depen-
dentes em qualquer hypothese de um
expresso reconhecimento por parte do Estado.
E no contrato de emprestimo (relativ[amen]te pe-
queno) que elles fizeram á dita C[ompanh]ia eu,
além de outras garantias indicativas,
fiz questão de incluir, entre as terras
do Paraná em geral, um bloco desde
[01-0540- Página 04]
2
logo titulado pelo governo do Estado. Não
sei agora como ficou aquelle emprestimo e
o destino do mencionado bloco.
– Falando em terras, vem-me ao
bico da penna o Barbosa. Não tive
noticia alguma da causa do Henrique
de S[ouz]a[?] Queiroz nem de como vão as cousas
pela nossa zona. No meu contrato de
acôrdo – venda ha numa prestação estipu-
lada de juros (32 contos) e amortisação (50
contos) para janeiro proximo. Você po-
derá facilmente vêr a escriptura ahi
no Mazagão e mandar duas li-
nhas ao Barboza, – avisando-o de que,
[01-0540- Página 05 - esquerda]
dada a minha ausência na Europa, es-
ta encarregado de receber. Assim tenho
mais esperança de que o homem pague.
E esses cobres irão regressar a minha
conta no B[an]co Commercial, onde o des-
coberto de m[eu] debito me incommoda, ape-
zar da boa vontade-amiga do Whitaker.
Além de ₤ 2.000 que o B[an]co me enviou
em uma carta de credito, – sem a entrada
total da divida dos japoneses, – eu pedi ha
poucos dias (no presupposto de que essa
entrada seria um facto) que mandassem
pagar por m[inha] c[onta][?] em Londres ₤ 750 de acções
que o Lovat me fez subscrever. É ver-
[01-0540- Página 05 - direita]
dade que dei as mesmas acções em penhor
do resgate do seu custo e que, segundo as
informações que tenho, ellas ja tem agio
de 15020[?] na praça de Londres. Mas o
B[an]co não deve, na actual crise de nu-
merario, estar muito folgado para fazer
negocio de natureza desses meus[?].
– Em Roma, onde estive no mez pas-
sado, soube por Elisa que você estava pa-
ra vir com Izaura, para Nauhime [Nauheim]. A-
qui, porém, Nhanhã (com quem tenho es-
tado frequentemente) deu-me noticias que
me convenceram do contrario. Faço votos
para que o estado da saude de Izaura tenha melho-
rado ao ponto de dispensar a viagem. E
[01-0540- Página 06]
quando tiverem de vir mesmo, que o possam
fazer em condições de intima tranquilidade.
– De Nhanhã soube tambem de uma carta
que o Braz escreveu, e que ella mandou pára
você. Em tal carta se me attribue, no todo
ou em grande parte, a responsabilidade pe-
los apertos em que o Braz ficou com o nego-
cio da plantação de café. Entretanto, a verda-
de, que você conhece, é que eu fiz o que pu-
de para impedir o contato, sempre o acon-
selhando para que esperasse melhor opportu-
nidade, como eu mesmo esperava para a
minha plantação. E, a proposito dos fundos
necessarios, em um dia (no meu gabinete
da Caixa de Liquidação) interpellei-o for-
[01-0540- Página 07]
3
malmente sobre os com que elle dizia contar –
tendo sido esta a resposta: “se eu não tivesse os
meios seguros de custear a empreitada, não me met-
tia nisso.” A phrase, se não era exactamen-
te essa, era sem duvida uma repulsa aos meus
conselhos de prudencia. Calei-me. Mas, cerca
de um mez mais tarde, quando elle me pro-
curou, para pedir-me que arranjasse um
emprestimo para as despesas da plantação,
ainda fiz vêr as razões que eu tinha. Disse-lhe
então (e nunca antes) que procuraria arranjar;
e de facto procurei, mas sem resultado.
– Quando fui a Roma eu suppunha, se-
gundo carta que recebera de Nhanhã, que o Oc-
tavio estava em Milão. Imagine você o
[01-0540- Página 08 - esquerda]
meu embaraço ao entrar no salão de refeição
do Hotel, para o almoço, dando de cara com
a mesa em que se sentavam elle, Elisa e
as filhas!... As coisas se passaram de
tal maneira, que a reconciliação se im-
poz. Obra caprichosa do acaso, aceitei-a de
alma limpa. E estou contente, não só porque
a minha indole não é de grandes remorsos,
como pelas manifestações de estima de que
fui alvo.
– O portador desta é o Prudente, que volta res-
tabelecido e frote. Diz elle que vae estender tres me-
zes, com vontade de não perder o anno. Amen.
Eu aqui fico, cheio de inveja de quem parte
e sem saber bem quando virá o meu dia.
[01-0540- Página 08 - direita]
Lolota está de novo em tratamento com o
prof[essor] Lothe[?]. Ainda não sei se elle vae nos
dar alta, para cuidarmos do regresso, ou
se por ahi virá uma segunda temporada
de clinica ou a necessidade de outra estação
de repouso. Ponto. Saudades e abraços a todos
os seus. Um affectuoso abraço do primo e velho
amigo,
João Sampaio.
P.S. Estou assistindo agora á crise da queda do 2º gabi-
nete Painlevé, formado 23 dias antes! Tenho a im-
pressão de que não é crise de ministerio, mas
crise do regimen. Minada pelo socialismo, ain-
da forte, apesar da sua fallencia doutrinaria, e tendo ao
leme o chamado Cartel das Esquerdas, – conglome-
[01-0540- Página 09]
rado dos pseudo republicanos nordicos e dos radi-
caes socialistas, – a Republica parlamentar vae indo
á gerra[?]. A crise financeira é cada dia mais
aguda. Não serão os Caillasse e os Maloy
que hão de resolvel-a. Ja ha um grande peso
de opinião que apoiaria a volta de um rei!
O governo fomenta a perseguição a León Dan-
det, chefe realista; mas num theatro, ha poucos
dias, eu vi a apresentação do Duque de Orleans, em
scena, como personagem da peça, ser recebida por
uma ovação da assistencia. Symptomatico.
Se o Foch[?] ou o Joppe[?] fossem politicos e am-
biciosos… eu não dava mais nada pela
democracia premessa[?]. E, realmente, se democra-
cia é isto mesmo, eu prefiro a democracia
da Inglaterra ou a da Belgica. [Rubrica]
Paris, 25 de novembro de [1]925.
Nhônhô,
aqui tenho a s[ua] carta de 30 do
mez passado, na qual você responde ás que es-
crevi de Pari[s] e de Londres, e ao telegramma
desta ultima. Dou a você os m[eus] parabens por
haver levado a bom termo o negocio das ter-
ras no Paraná e especialmente pelo apre-
ciavel resultado pecuniario que elle proporcio-
nou, como justa remuneração dos seus ser-
viços. E tenho grande satisfação em
haver posto nas suas mãos a opportu-
nidade de ganhar uma boa somma a
você que em tantas occasiões da mi-
[01-0540- Página 02 - esquerda]
nha vida tem me dispensado apoio ma-
terial e moral, respectivamente mui
valiosos e inestimaveis.
Continuo convencido de que os inglezes
realisaram um excelente negocio. E pela
maneira cautelosa com que foi ahi con-
duzido sinto-me inteiramente aliviado
do peso da responsabilidade que assumi
na reunião de Londres, onde o negocio
foi decidido em face do verdadeiro interro-
gatorio que soffri e em conformidade
com a minha orientação. Queriam elles
que eu voltasse ao Brasil para executar
o plano adoptado, no que me não
[01-0540- Página 02 - direita]
era possivel attendel-os. Mas ainda nes-
se ponto dei a solução, offerecendo homem
por mim, devendo elles estar a esta hora
bem convencidos de que o meu criterio foi
seguro. E você apenas numa[?] adminicula[?]:
Eu disse que não tinha bem presentes os
prescritos de m[inha] legislação, mas que pensava
ser necessario o domicilio no paiz para
ser director de sociedade anonyma na-
cional. Você teria opportunidade de o
unificar, em se tratando da organisação
e tendo em vista o nome de Lord Lovat.
E pela sua carta vejo que este foi feito
presidente, havendo fechado a minha opi-
[01-0540- Página 03]
nião emittida a ratione e com certo
constrangimento.
Quanto aos titulos da C[ompah]ia Morandes[?]
já elles estavam bem prevenidos, – porque
desde o primeiro relatorio que forneci pa-
ra estudo do negocio, eu os declarava
apenas formalmente bons, mas depen-
dentes em qualquer hypothese de um
expresso reconhecimento por parte do Estado.
E no contrato de emprestimo (relativ[amen]te pe-
queno) que elles fizeram á dita C[ompanh]ia eu,
além de outras garantias indicativas,
fiz questão de incluir, entre as terras
do Paraná em geral, um bloco desde
[01-0540- Página 04]
2
logo titulado pelo governo do Estado. Não
sei agora como ficou aquelle emprestimo e
o destino do mencionado bloco.
– Falando em terras, vem-me ao
bico da penna o Barbosa. Não tive
noticia alguma da causa do Henrique
de S[ouz]a[?] Queiroz nem de como vão as cousas
pela nossa zona. No meu contrato de
acôrdo – venda ha numa prestação estipu-
lada de juros (32 contos) e amortisação (50
contos) para janeiro proximo. Você po-
derá facilmente vêr a escriptura ahi
no Mazagão e mandar duas li-
nhas ao Barboza, – avisando-o de que,
[01-0540- Página 05 - esquerda]
dada a minha ausência na Europa, es-
ta encarregado de receber. Assim tenho
mais esperança de que o homem pague.
E esses cobres irão regressar a minha
conta no B[an]co Commercial, onde o des-
coberto de m[eu] debito me incommoda, ape-
zar da boa vontade-amiga do Whitaker.
Além de ₤ 2.000 que o B[an]co me enviou
em uma carta de credito, – sem a entrada
total da divida dos japoneses, – eu pedi ha
poucos dias (no presupposto de que essa
entrada seria um facto) que mandassem
pagar por m[inha] c[onta][?] em Londres ₤ 750 de acções
que o Lovat me fez subscrever. É ver-
[01-0540- Página 05 - direita]
dade que dei as mesmas acções em penhor
do resgate do seu custo e que, segundo as
informações que tenho, ellas ja tem agio
de 15020[?] na praça de Londres. Mas o
B[an]co não deve, na actual crise de nu-
merario, estar muito folgado para fazer
negocio de natureza desses meus[?].
– Em Roma, onde estive no mez pas-
sado, soube por Elisa que você estava pa-
ra vir com Izaura, para Nauhime [Nauheim]. A-
qui, porém, Nhanhã (com quem tenho es-
tado frequentemente) deu-me noticias que
me convenceram do contrario. Faço votos
para que o estado da saude de Izaura tenha melho-
rado ao ponto de dispensar a viagem. E
[01-0540- Página 06]
quando tiverem de vir mesmo, que o possam
fazer em condições de intima tranquilidade.
– De Nhanhã soube tambem de uma carta
que o Braz escreveu, e que ella mandou pára
você. Em tal carta se me attribue, no todo
ou em grande parte, a responsabilidade pe-
los apertos em que o Braz ficou com o nego-
cio da plantação de café. Entretanto, a verda-
de, que você conhece, é que eu fiz o que pu-
de para impedir o contato, sempre o acon-
selhando para que esperasse melhor opportu-
nidade, como eu mesmo esperava para a
minha plantação. E, a proposito dos fundos
necessarios, em um dia (no meu gabinete
da Caixa de Liquidação) interpellei-o for-
[01-0540- Página 07]
3
malmente sobre os com que elle dizia contar –
tendo sido esta a resposta: “se eu não tivesse os
meios seguros de custear a empreitada, não me met-
tia nisso.” A phrase, se não era exactamen-
te essa, era sem duvida uma repulsa aos meus
conselhos de prudencia. Calei-me. Mas, cerca
de um mez mais tarde, quando elle me pro-
curou, para pedir-me que arranjasse um
emprestimo para as despesas da plantação,
ainda fiz vêr as razões que eu tinha. Disse-lhe
então (e nunca antes) que procuraria arranjar;
e de facto procurei, mas sem resultado.
– Quando fui a Roma eu suppunha, se-
gundo carta que recebera de Nhanhã, que o Oc-
tavio estava em Milão. Imagine você o
[01-0540- Página 08 - esquerda]
meu embaraço ao entrar no salão de refeição
do Hotel, para o almoço, dando de cara com
a mesa em que se sentavam elle, Elisa e
as filhas!... As coisas se passaram de
tal maneira, que a reconciliação se im-
poz. Obra caprichosa do acaso, aceitei-a de
alma limpa. E estou contente, não só porque
a minha indole não é de grandes remorsos,
como pelas manifestações de estima de que
fui alvo.
– O portador desta é o Prudente, que volta res-
tabelecido e frote. Diz elle que vae estender tres me-
zes, com vontade de não perder o anno. Amen.
Eu aqui fico, cheio de inveja de quem parte
e sem saber bem quando virá o meu dia.
[01-0540- Página 08 - direita]
Lolota está de novo em tratamento com o
prof[essor] Lothe[?]. Ainda não sei se elle vae nos
dar alta, para cuidarmos do regresso, ou
se por ahi virá uma segunda temporada
de clinica ou a necessidade de outra estação
de repouso. Ponto. Saudades e abraços a todos
os seus. Um affectuoso abraço do primo e velho
amigo,
João Sampaio.
P.S. Estou assistindo agora á crise da queda do 2º gabi-
nete Painlevé, formado 23 dias antes! Tenho a im-
pressão de que não é crise de ministerio, mas
crise do regimen. Minada pelo socialismo, ain-
da forte, apesar da sua fallencia doutrinaria, e tendo ao
leme o chamado Cartel das Esquerdas, – conglome-
[01-0540- Página 09]
rado dos pseudo republicanos nordicos e dos radi-
caes socialistas, – a Republica parlamentar vae indo
á gerra[?]. A crise financeira é cada dia mais
aguda. Não serão os Caillasse e os Maloy
que hão de resolvel-a. Ja ha um grande peso
de opinião que apoiaria a volta de um rei!
O governo fomenta a perseguição a León Dan-
det, chefe realista; mas num theatro, ha poucos
dias, eu vi a apresentação do Duque de Orleans, em
scena, como personagem da peça, ser recebida por
uma ovação da assistencia. Symptomatico.
Se o Foch[?] ou o Joppe[?] fossem politicos e am-
biciosos… eu não dava mais nada pela
democracia premessa[?]. E, realmente, se democra-
cia é isto mesmo, eu prefiro a democracia
da Inglaterra ou a da Belgica. [Rubrica]