Carta de Antonio de Moraes Barros, 1908, 01-0000886
Metadados
Descrição
Carta de Antonio de Moraes Barros para Paulo de Moraes Barros, Bad Nauheim - Alemanha, 1908
Código do documento
01-0000886
Remetente / Autor
Antonio de Moraes Barros
Destinatário
Paulo de Moraes Barros
Texto do documento
[01-0886-Página 01 - esquerda]
Bad-Nauheim, 22 de Julho de 1908
Nhônhô
Acabo de receber carta do Facha=
da[?] em que diz-me, sem mais expli=
cações, que o Banco do Pedro Alexan=
drino fechou as portas. Se assim é, ima=
gino o prejuizo nosso, meu especialmen=
te, o de Tudinha, e mais que tudo
da nossa Camara. A nossa impre=
videncia é a unica culpada, pois
este resultado era previsto para epo=
cha mais ou menos remota. Antes
de vir conversei com Mauro Silvei=
ra, com Fernando e Morato, separa=
damente, fazendo-lhes ver a convenien=
cia da Camara depositar em S[ão] Paulo
os seus saldos, desde que elles avultassem,
e na occasião excediam de 54 contos.
Lembro-me que todos navegaram nas
mesmas agoas e disse-me o Fernando,
que até Julho esse saldo desappareceria,
ou teria diminuido muito. Para mostrar-
lhes a pouca confiança que eu tinha
[01-0886-Página 01 - direita]
na direcção, contei-lhes que de meu
deixava apenas quinhentos mil reis
e isso mesmo para pagamento de
impostos e algumas pequenas despezas.
Depois, o Luiz Franco lá depositou mais
400 e tantos mil reis, e receio que o
Ribeiro tenha depositado os 2:500$ da ven=
da do automovel. Será bem tudo?
Quanto aos cobres da nossa firma,
se tens continuado com o mesmo
systema, de só manter deposito para
pagamentos de dois mezes no maximo,
nosso prejuizo hade ser pequeno, quiçá
mesmo nenhum. E a Camara? Se já
recebeu do Governo os 31 contos do quar=
tel, é bem de crer que o seu pre=
juizo ande por mais de 40. Será um
rombo formidavel, que alem do mal
material, se prestará a explorações
de politicagem. O Pedro Alexandrino,
esse velhaco mór, que fundou e esta-
va mantendo o Asylo da Velhice para
apadrinhar o seu projectado crack actual
.
[01-0886-Página 02 - esquerda]
esse deve ter posto a coberto grossa
maquia[?], para recomeçar a vida, tal=
vez em maior escala e em melhor
logar. Mas, não lhe hão de faltar defen=
sores. Quando sahi d’ahi elle estava
metido em tudo isto: proprietario
e director do Banco, de casas, fazenda,
e terrenos na cidade; casa de com=
missões de café em Santos, de
instrumentos de lavoura e generos
do paiz em Piracicaba, socio do Al=
fredo Ferraz, na torrefação de café
de Ribeirão Preto e do Juvenal, no
Café Americano em S[ão] Paulo, da
officina mechanica de Teixeira
Mendes, Piracicaba, da C[ompanh]ia Importa=
dora, com refinação de assucar em
Piracicaba. Sustentava, alem da pro=
pria casa, as fazendas dos cunhados
e a que foi da sogra, o Jornal
de Piracicaba, dois ou tres protegi=
dos, com mais de 500$ mensaes,
e o Asylo não sei com quanto. Do
[01-0886-Página 02 - direita]
ceu não vinha dinheiro para tanta
cousa. E Tudinha? Creio que a anti=
ga divida da D. Anna Ribeira p[ar]a
com o Juca, foi paga á Tudinha
em titulos, firmados pelo Pedro Ale=
xandrino. Por esta não receio tanto
porque o Morato, que presidio ao ne=
gocio, não devia ter deixado escapar
a hypotheca da fazenda, unica garan=
tia real, ainda que depreciada.
E o Nicoláo Turco, o meu genro
postiço, não teria depositado no
Banco os 50 e tantos contos de
Alice, que recebeu em S[ão] Paulo?
– O unico mal que virá para bem
será o do Jornal de Piracicaba. Es=
te brigado com os Moratos e
sem o seu Braz, hade seguir fa=
talmente a sorte do Banco, ou
irá parar nas mãos do Titica.
Enfim, cá de longe estou a
fazer como D[om] Quichote, sem bem
poder medir o alcance da coisa.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Bad-Nauheim, 22 de Julho de 1908
Nhônhô
Acabo de receber carta do Facha=
da[?] em que diz-me, sem mais expli=
cações, que o Banco do Pedro Alexan=
drino fechou as portas. Se assim é, ima=
gino o prejuizo nosso, meu especialmen=
te, o de Tudinha, e mais que tudo
da nossa Camara. A nossa impre=
videncia é a unica culpada, pois
este resultado era previsto para epo=
cha mais ou menos remota. Antes
de vir conversei com Mauro Silvei=
ra, com Fernando e Morato, separa=
damente, fazendo-lhes ver a convenien=
cia da Camara depositar em S[ão] Paulo
os seus saldos, desde que elles avultassem,
e na occasião excediam de 54 contos.
Lembro-me que todos navegaram nas
mesmas agoas e disse-me o Fernando,
que até Julho esse saldo desappareceria,
ou teria diminuido muito. Para mostrar-
lhes a pouca confiança que eu tinha
[01-0886-Página 01 - direita]
na direcção, contei-lhes que de meu
deixava apenas quinhentos mil reis
e isso mesmo para pagamento de
impostos e algumas pequenas despezas.
Depois, o Luiz Franco lá depositou mais
400 e tantos mil reis, e receio que o
Ribeiro tenha depositado os 2:500$ da ven=
da do automovel. Será bem tudo?
Quanto aos cobres da nossa firma,
se tens continuado com o mesmo
systema, de só manter deposito para
pagamentos de dois mezes no maximo,
nosso prejuizo hade ser pequeno, quiçá
mesmo nenhum. E a Camara? Se já
recebeu do Governo os 31 contos do quar=
tel, é bem de crer que o seu pre=
juizo ande por mais de 40. Será um
rombo formidavel, que alem do mal
material, se prestará a explorações
de politicagem. O Pedro Alexandrino,
esse velhaco mór, que fundou e esta-
va mantendo o Asylo da Velhice para
apadrinhar o seu projectado crack actual
.
[01-0886-Página 02 - esquerda]
esse deve ter posto a coberto grossa
maquia[?], para recomeçar a vida, tal=
vez em maior escala e em melhor
logar. Mas, não lhe hão de faltar defen=
sores. Quando sahi d’ahi elle estava
metido em tudo isto: proprietario
e director do Banco, de casas, fazenda,
e terrenos na cidade; casa de com=
missões de café em Santos, de
instrumentos de lavoura e generos
do paiz em Piracicaba, socio do Al=
fredo Ferraz, na torrefação de café
de Ribeirão Preto e do Juvenal, no
Café Americano em S[ão] Paulo, da
officina mechanica de Teixeira
Mendes, Piracicaba, da C[ompanh]ia Importa=
dora, com refinação de assucar em
Piracicaba. Sustentava, alem da pro=
pria casa, as fazendas dos cunhados
e a que foi da sogra, o Jornal
de Piracicaba, dois ou tres protegi=
dos, com mais de 500$ mensaes,
e o Asylo não sei com quanto. Do
[01-0886-Página 02 - direita]
ceu não vinha dinheiro para tanta
cousa. E Tudinha? Creio que a anti=
ga divida da D. Anna Ribeira p[ar]a
com o Juca, foi paga á Tudinha
em titulos, firmados pelo Pedro Ale=
xandrino. Por esta não receio tanto
porque o Morato, que presidio ao ne=
gocio, não devia ter deixado escapar
a hypotheca da fazenda, unica garan=
tia real, ainda que depreciada.
E o Nicoláo Turco, o meu genro
postiço, não teria depositado no
Banco os 50 e tantos contos de
Alice, que recebeu em S[ão] Paulo?
– O unico mal que virá para bem
será o do Jornal de Piracicaba. Es=
te brigado com os Moratos e
sem o seu Braz, hade seguir fa=
talmente a sorte do Banco, ou
irá parar nas mãos do Titica.
Enfim, cá de longe estou a
fazer como D[om] Quichote, sem bem
poder medir o alcance da coisa.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô