Carta de Paulo de Moraes Barros, 1907, 01-0000899
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Piracicaba - SP, 1907
Código do documento
01-0000899
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Texto do documento
Guia 2
[01-0899-Página 01 - f.001f]
[Papel timbrado com a identificação no canto superior esquerdo:]
Dr. Paulo de Moraes Barros
Medico
Rua do Commercio, 141
Piracicaba
Piracicaba, 29 de 9bro [novembro] de 1907
Nhônhô
Aqui cheguei hontem. Vocês perderam
um viajão. Até Bahurú calôr e pó horriveis.
De Bahurú seguimos em especial, com carro
presidencial, mas fizemos a viagem toda bem
installados no limpa-trilhos da machina.
Estão em trafego 92 kilometros apenas. Passa-
das a grande e bonita lavoura do C[oron]el Figuei-
redo, com 800 mil pés de café, logo no come-
ço da linha, e a tambem bonita do Jui
Digo no kilometro 81, já em vertentes do
rio Feio, ambas com terras brancas regu-
lares, tudo o mais é terra de areia secca e
ruim, em mattas até o kilometro 202; ahi
começam os campos de Avanhandava,
algumas leguas apenas, feias e ruins.
Dormimos em rancho de um dos emprei-
teiros n’esse kilometro e no dia seguinte
seguimos no trem de lastro até o 209,
lá tomamos huns animaes, almoçamos
no manchamento de outro empreiteiro
e deixamos a linha que vae procurar
travessia muito abaixo, no canal do Infer-
no, kilometro 336, mais ou menos. Passamos
por um pequeno povoado - Lageado - a meio
caminho e com 4 horas de marcha em ex-
[Na lateral esquerda:]
Em outra serei mais minucioso; esta foi para
aproveitar o trem, e as férias[?].
[01-0899-Página 02 - f.001f]
cellente estrada chegamos a Porto Novo, do M[arech]al
Bento da Cruz, 5 kilometros abaixo do Salto.
Ao escrever estavamos no povoado, que
tem o mesmo aspecto que o do Salto Grande,
um ponto menor. Nossa casa ficava mesmo
ao lado da cachoeira, que só se vê bem de
baixo; éra[rasurado] de um tal Castilho, e ahi se passa
muito regularmente; intitula-se - Hotel
Avanhandavez - ! O Salto é lindissimo!
Imagine o nosso Piracicaba em ponto muit-
to maior, com a mesma altura, e com
perspectiva muito mais variada. Mais
de cincoenta garças, alguns soccós bois
e bandos enormes de paturis, frescando nas
cachoeiras. Ahi passamos o domingo, pes-
cando tambem e vendo pescar á fisga; parecia-me
os antigos tempos em que pescavamos á
lençol em Piracicaba. Segunda feira depois
das dez horas fizemos uma volta p[ar]a anta
rio abaixo; des antas vimos apenas os rastos,
e esses em abundancia. Terça feira voltamos
rasto atraz, andamos boa parte da noite em
trem de lastro; quarta, sempre no limpa tri-
lhos chegamos a Bahurú, e hontem aqui.
Em Bahurú, como aqui nenhuma noticia
encontrei de Mamãe, nem de Tita; vocês
esqueceram-se do meu pedido.
[Na lateral esquerda:]
Abraços a todos do mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Carolina de Moraes Buchard – Tita
Maria Ignez da Silva Gordo / Maria Inês da Silva Gordo de Moraes Barros – “Mamãe”
[01-0899-Página 01 - f.001f]
[Papel timbrado com a identificação no canto superior esquerdo:]
Dr. Paulo de Moraes Barros
Medico
Rua do Commercio, 141
Piracicaba
Piracicaba, 29 de 9bro [novembro] de 1907
Nhônhô
Aqui cheguei hontem. Vocês perderam
um viajão. Até Bahurú calôr e pó horriveis.
De Bahurú seguimos em especial, com carro
presidencial, mas fizemos a viagem toda bem
installados no limpa-trilhos da machina.
Estão em trafego 92 kilometros apenas. Passa-
das a grande e bonita lavoura do C[oron]el Figuei-
redo, com 800 mil pés de café, logo no come-
ço da linha, e a tambem bonita do Jui
Digo no kilometro 81, já em vertentes do
rio Feio, ambas com terras brancas regu-
lares, tudo o mais é terra de areia secca e
ruim, em mattas até o kilometro 202; ahi
começam os campos de Avanhandava,
algumas leguas apenas, feias e ruins.
Dormimos em rancho de um dos emprei-
teiros n’esse kilometro e no dia seguinte
seguimos no trem de lastro até o 209,
lá tomamos huns animaes, almoçamos
no manchamento de outro empreiteiro
e deixamos a linha que vae procurar
travessia muito abaixo, no canal do Infer-
no, kilometro 336, mais ou menos. Passamos
por um pequeno povoado - Lageado - a meio
caminho e com 4 horas de marcha em ex-
[Na lateral esquerda:]
Em outra serei mais minucioso; esta foi para
aproveitar o trem, e as férias[?].
[01-0899-Página 02 - f.001f]
cellente estrada chegamos a Porto Novo, do M[arech]al
Bento da Cruz, 5 kilometros abaixo do Salto.
Ao escrever estavamos no povoado, que
tem o mesmo aspecto que o do Salto Grande,
um ponto menor. Nossa casa ficava mesmo
ao lado da cachoeira, que só se vê bem de
baixo; éra[rasurado] de um tal Castilho, e ahi se passa
muito regularmente; intitula-se - Hotel
Avanhandavez - ! O Salto é lindissimo!
Imagine o nosso Piracicaba em ponto muit-
to maior, com a mesma altura, e com
perspectiva muito mais variada. Mais
de cincoenta garças, alguns soccós bois
e bandos enormes de paturis, frescando nas
cachoeiras. Ahi passamos o domingo, pes-
cando tambem e vendo pescar á fisga; parecia-me
os antigos tempos em que pescavamos á
lençol em Piracicaba. Segunda feira depois
das dez horas fizemos uma volta p[ar]a anta
rio abaixo; des antas vimos apenas os rastos,
e esses em abundancia. Terça feira voltamos
rasto atraz, andamos boa parte da noite em
trem de lastro; quarta, sempre no limpa tri-
lhos chegamos a Bahurú, e hontem aqui.
Em Bahurú, como aqui nenhuma noticia
encontrei de Mamãe, nem de Tita; vocês
esqueceram-se do meu pedido.
[Na lateral esquerda:]
Abraços a todos do mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Carolina de Moraes Buchard – Tita
Maria Ignez da Silva Gordo / Maria Inês da Silva Gordo de Moraes Barros – “Mamãe”