Carta, 1918, 01-0000963
Metadados
Descrição
Carta para Coelho, São Paulo - SP, 1918
Código do documento
01-0000963
Destinatário
Coelho
Texto do documento
[1-0000963-Página 01]
S[ão] Paulo, 8 de Fevereiro 1918
Meu caro Coelho
Recebi hoje a tua de 4.
Não escrevi ao Peró senão por
necessidade de negocios, e isso
mesmo só uma carta.
Nada mais natural do que
perguntar por você. Excusado
pois o teu agradecimento.
Quando não houvera o justo
interesse de saber noticias tuas,
havia ao menos um dever
de urbanidade a cumprir em
relação a quem só tem me
cumulado de carinhos e genti-
lezas. Creio mesmo que este
é o pensar de todos os irmãos.
Não podia nem póde, por-
tanto, haver de tua parte,
[01-0963-Página 03 - pelo conteúdo, a página no final é, na realidade, a segunda página]
qualquer illusão sobre o ambiente
familiar da sympathía com que
foste recebido por nós todos. Admit-
tir a hypothese de uma illusão
com referencia a esse particular,
seria nos suppor menos sinceros.
Injustiça, que a nossa indole não procuro[sobrescrito]
e os habitos de conveniencia da fami-
lia demonstrar. Contesto, e isso bas-
tará para apagar no teu espirito
a duvida que por um momento
te assaltou. Você sabe
que a situação desastrada que está
se criando entre Você e a nossa
irmã.
Effectivamente continúa a
nos mover os mesmos sentimentos
de carinho e amizade que desde o prin-
cípio inspiraste. Tal estado de cousas
não se alterou em nada se alterou
em consequencia da melindrosa si-
tuação de incompatibilidade de tempe-
ramentos que infelizmente se
[01-0963-Página 02 - esquerda]
desenha entre V[ocê] e Leonor. Diz-nos
a consciencia que em nada con-
corremos para isso: - ao contrario,
nunca faltaram a Leonor os con-
selhos de Mamãe e dos irmãos, no
sentido de apagar divergencias, que
infelizmente se accentuaram ao
ponto de constituir o que chamas[sobrescrito] uma desgraça
para ambos como. Aliás, quando
ha um anno ella teve aquelle
aborto, em consequencia do tumor
uterino que ha annos se formára,
conforme o diagnostico dos medicos que
a operaram, comprehendi que ella
não teria filhos, e comecei a receiar
m[ui]to pela boa harmonia do casal.
Lia-se isso na tua physionomia
tristonha de então. E com que pezar!
[acrescentado]Um filho seria o penhor da
harmonia e felicidade do casal.
Que fatalidade para ambos.
Reclamo, entretanto, para ella
o maior quinhão na desventura.
É mulher. Você é homem.
[01-0963-Página 02 - direita]
Para Você o tempo trará o leni-
tivo do esquecimento, e a relativa
liberdade que um homem póde
gozar fruir em tal emergencia.
E para ella? Que vida vai levar?
Já está principiando: vive fechada
com Julinha em casa de Mamãe.
Os irmãos só a vêem quando
lá vão.
E a pobre Mamãe que entreviu
com agonia esse futuro da filha!
Não cogitariamos nunca de
uma submissão da tua parte, aliás,
improducente, como V[ocê] reconhece.
Submissão della, isso sim; mas espon-
tanea, pensada e resolvida com intenção
inabalavel de leval-a avante, resolvida em
consequencia de um exame criterioso
da situação, seus corollarios e consequencias,
exame confirmado pela visão
pratica de uma perspec-
tiva de isolamento para toda a vida.
Os nossos esforços nada conseguiram.
Permitta Deus que ella, por si mes-
ma, vá sentindo na experiencia da vida
a força das razões que expusemos, e se renda
por uma solução inflexível ao que é razoavel, justo e desejado por
nós todos.
S[ão] Paulo, 8 de Fevereiro 1918
Meu caro Coelho
Recebi hoje a tua de 4.
Não escrevi ao Peró senão por
necessidade de negocios, e isso
mesmo só uma carta.
Nada mais natural do que
perguntar por você. Excusado
pois o teu agradecimento.
Quando não houvera o justo
interesse de saber noticias tuas,
havia ao menos um dever
de urbanidade a cumprir em
relação a quem só tem me
cumulado de carinhos e genti-
lezas. Creio mesmo que este
é o pensar de todos os irmãos.
Não podia nem póde, por-
tanto, haver de tua parte,
[01-0963-Página 03 - pelo conteúdo, a página no final é, na realidade, a segunda página]
qualquer illusão sobre o ambiente
familiar da sympathía com que
foste recebido por nós todos. Admit-
tir a hypothese de uma illusão
com referencia a esse particular,
seria nos suppor menos sinceros.
Injustiça, que a nossa indole não procuro[sobrescrito]
e os habitos de conveniencia da fami-
lia demonstrar. Contesto, e isso bas-
tará para apagar no teu espirito
a duvida que por um momento
te assaltou. Você sabe
que a situação desastrada que está
se criando entre Você e a nossa
irmã.
Effectivamente continúa a
nos mover os mesmos sentimentos
de carinho e amizade que desde o prin-
cípio inspiraste. Tal estado de cousas
não se alterou em nada se alterou
em consequencia da melindrosa si-
tuação de incompatibilidade de tempe-
ramentos que infelizmente se
[01-0963-Página 02 - esquerda]
desenha entre V[ocê] e Leonor. Diz-nos
a consciencia que em nada con-
corremos para isso: - ao contrario,
nunca faltaram a Leonor os con-
selhos de Mamãe e dos irmãos, no
sentido de apagar divergencias, que
infelizmente se accentuaram ao
ponto de constituir o que chamas[sobrescrito] uma desgraça
para ambos como. Aliás, quando
ha um anno ella teve aquelle
aborto, em consequencia do tumor
uterino que ha annos se formára,
conforme o diagnostico dos medicos que
a operaram, comprehendi que ella
não teria filhos, e comecei a receiar
m[ui]to pela boa harmonia do casal.
Lia-se isso na tua physionomia
tristonha de então. E com que pezar!
[acrescentado]Um filho seria o penhor da
harmonia e felicidade do casal.
Que fatalidade para ambos.
Reclamo, entretanto, para ella
o maior quinhão na desventura.
É mulher. Você é homem.
[01-0963-Página 02 - direita]
Para Você o tempo trará o leni-
tivo do esquecimento, e a relativa
liberdade que um homem póde
gozar fruir em tal emergencia.
E para ella? Que vida vai levar?
Já está principiando: vive fechada
com Julinha em casa de Mamãe.
Os irmãos só a vêem quando
lá vão.
E a pobre Mamãe que entreviu
com agonia esse futuro da filha!
Não cogitariamos nunca de
uma submissão da tua parte, aliás,
improducente, como V[ocê] reconhece.
Submissão della, isso sim; mas espon-
tanea, pensada e resolvida com intenção
inabalavel de leval-a avante, resolvida em
consequencia de um exame criterioso
da situação, seus corollarios e consequencias,
exame confirmado pela visão
pratica de uma perspec-
tiva de isolamento para toda a vida.
Os nossos esforços nada conseguiram.
Permitta Deus que ella, por si mes-
ma, vá sentindo na experiencia da vida
a força das razões que expusemos, e se renda
por uma solução inflexível ao que é razoavel, justo e desejado por
nós todos.