Carta de Edmundo, 1918, 05-0000155
Metadados
Descrição
Carta de Edmundo para Antonio de Moraes Barros, s.l., 1918
Código do documento
05-0000155
Remetente / Autor
Edmundo
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
negócios
Texto do documento
[05-0155-Página 01 - envelope]
[Com carimbos e selos. Uma anotação posterior em lápis azul: Edmundo]
= Via Lisbôa =
“Certificada”
Ex[celentíssi]mo S[enho]r
D[outo]r Antonio de Moraes Barros
4, Rua da Bôa Vista
São Paulo
“Brasil”
[05-0155-Página 02 - envelope]
[Carimbos do correio.]
[05-0155-Página 03]
[Anotação no canto superior esquerdo:
Copia da Carta
enviada a 18-5-18
e 5-6-18]
[No canto superior direito:
3ª via]
Algecira, Anglo-Hispano Hotel.
18-Maio-18
Nhônhô.
Saudações. Hontem recebi sua esti-
mada carta de 18-março-18.
Confirmo m[eu] telegramma de hoje: “No com-
prendo ausencia de mis honorarios en cuenta.
Telegrafé explicando.”
Sua referida carta foi para mim uma
grande sorpresa, pois V[ocê] nunca me disse nada
que não estava recebendo nada, quero dizer, re-
cebendo regularmente meus vencimentos de
Governo e nem que, para attender despesas
minhas estava lançando mão do meu capi-
tal empregado com o s[enho]r Allegretti e em seu
poder.
Esse contratempo acarreta me, como V[ocê]
vê, um prejuiso cujo alcance está em
desharmonia com minhas posses.
Estou certo de que se V[ocê] assim agiu,
fez pelo melhor, mas eu não chego a com-
prehender.
Junto remeto lhe uma copia resumida
de minha conta com V[ocê] tal como eu a escrip-
turava com dados de valores aproximados,
somente para minha oreintação.
Imagine meu apuro ao confrontar n/[?]
[05-0155-Página 04]
II
contas.
Espero que tudo seja excesso de pessimismo
de m[inha] parte e procuro dominar meu estado de
inquietação inteiramente confiado no meu
bom amigo.
Rogo lhe encarecidamente escrever me ur-
gente e detalhadamente sobre este particular e
interessar se por meus assumptos em geral,
como sempre.
Na conta que V[ocê] mandou-me ha uma
diferença de Rs 2:000$-- (erro em transporte)
contra V[ocê]. Em vez de 4 contos e tanto, o meu
saldo credor em seu poder é apenas de
dois contos e tanto em 18-Março-18.
Antes de fallar de mim tenho que pedir-lhe
com o maximo empenho e favor de empenhar-se
com energia no sentido de que o Governo de S[ão] Paulo
tome em serio medidas eficazes e radicais para
apoiar me e proteger me esclarecendo ao mesmo
tempo, ao Governo Inglez o objecto de minha per-
manencia aqui e ocupação em Gibraltar. Estou
em perigo de ser tomado por pessoa suspeita, soffren-
do vergonha, provações e sacrificios e gastando extraor-
dinaramente ha dez meses (!) mais do que ganho e
tudo por um inexplicavel descuido do Governo de
S[ão] Paulo que sabe que sem apresentação especial offi-
cial e garantias (pedidas por mim no devido tempo) eu
nem ninguem pode residir [+] em Gibraltar desde
Setembro do anno passado; - que sabe que a
minha missão não me permitte residir em
[05-0155-Página 05]
III
Hespanha sem riscos de graves complicações
ás quaes eu não estou disposto á aventurar me.
= Seja dicto de passagem: para a estabili-
dade de n[osso] serviço de embarque em Gibr[altar] é in-
dispensavel que o governo mantenha o posto - fiscal
e para manter o posto - fiscal é tambem intei-
raramente indispensavel que o fiscal nomeado re-
sida em Gibraltar. O mesmo serviço de embarque,
uma vez declarado suspenso ou interrompido,
nunca mais poderá ser restabelecido por uma
serie de circunstancias que o Gov[erno] de S[ão] Paulo não
pode ignorar. =
Para que V[ocê] possa fazer um juiso menos
imperfeito de minha situação que poco invejavel,
devo acrescentar: – Em dez[embr]o de 1913 o S[enho]r D[outo]r
Secretario d’Agric[ultura], attendendo á uma reclama-
ção do n[osso] Ministro em Madrid, suspendeu o servi-
ço official aqui, eu fui mandado ao oriente.
Ao meu regresso reassumi meu cargo, porém fun-
cionando por conta de um Grupo de fazendei-
ros do Est[ado] de S[ão] Paulo, e assim figura até hoje,
não obstante haver desapparecido, por reacção
particular minha as modificações que implan-
tei no n[osso] serviço, todos os inconvenientes que
davam caracter clandestino ao mesmo. Nessa
situação obscura eu me sustentei, sabe Deus
com quantos sacrificios e desgostos até Setem-
bro do anno passado, quando veio uma Commi-
são de recenceamento de Inglaterra a Gibr[altar] e
quando houve mudança de pessoal do Governo
[05-0155-Página 06]
IV
desta fortaleza. Chegou m[inha] vez de apresentar meus
passaportes e de declarar minha occupação. – Minha
declaração que foi sincera não poude ser satisfacto-
riamente clara. Em Setembro de 1917 quando ficou ter-
minado o serviço de recenciamento de Gibr[altar], o S[enho]r Gover-
nador da Praça, com o fim de reduzir o numero de
habitantes, passou uma ordem intimando a todos
os extrangeiros que não representavam officialmente
paiz amigo ou alleado,a retirar se em prazo de
dias. Eu entrei nessa onda e creio que não
sómente pela minha condicção de extrangeiro particu-
lar, motivo que por si só seria reputado suficiente, mais
tambem pela minha posição enigmatica e por meu
nome chamativo, apelido que desde que começou
a Guerra me foi sempre um fardo incommodo. Pas-
sei á residir em Hespanha no dia 3 de setembro de
1917 e escrevi ao Governo de S[ão] Paulo relatando o
ocorrido e pedindo providencias. Só em 11 de
Jan[eir]o de 1918 é que recebi resposta a esta m[inha] refe-
rida carta, dizendo que o S[enho]r D[outo]r Secretario havia
tomado em consideração o meu pedido. Assombra-
me ver que até hoje nada foi deliberado sobre
este assumpto que, sei, para o Governo de S[ão] Paulo
é de importancia secundaria, é para mim, mo-
ral e financeiramente de importancia capital.
Recentemente recebi um telegramma da Sec[retaria] d’Ag[ricultura]
em resposta a um meu pedindo motivações
e recursos, concebido nos termos seguintes: “J’ac
recu votre depâche. Attendez des ordres á
Gibraltar.” = Será possivel que o Gover-
[05-0155-Página 07]
V
Governo de S[ão] Paulo ignore que desde setembro
do anno passadeu já não resido em Gibral-
tar, forçado por uma ordem governamental e
que desde março deste anno eu já não tenho
licença para sequer desembarcar n’aquella
praça?
Bom Costa?].
Acceite com todos os seus os meus
melhores votos de felicidades e muitas sau-
dades
Um abraço aff[ecutos]o do
seu am[ig]o grato e certo
[Edmundo?] —
P. S. Em Piracicaba não sabem de mim. Rogo-
lhe dar boas noticias minhas a minha avó e
ao Lino Franco —
[Edmundo?]
Esta carta vou postar no correio no dia 6-6-18 –
Nhonho Eu pedi ao Governo em carta de
20 de Jan[eir]o p[róximo] p[assa]do, dar me licença sem demitir-me (se entende
que tambem sem ordenado) para prestar serviço no exercito
francez. Peço lhe ver se me consegue isso – Eu ja tenho
um pouco de pratica militar e espero no sahir muito mau
soldado –
[Edmundo?] —
[05-0155-Página 08]
[Letras na lateral esquerda “cortadas”]
Minha conta com Nhônho: meu debito meu credito
[?]16 Debito de Allegrette 20.000.000
[?] 16 Saldo a m[eu] favor nesta data conf. c/ 12.466.610
[?] 30 Lettra do D[outo]r Jaguanharo Miranda 3.000.000
Março 31 9 semestres de m[eus] vencimentos a
[?] 4.859$ – mais ou menos 43.650.000
“ “ Juros da divida de Allegretti 5.400.000
“ “ Cheque British Bk 179.510
[?] 16 Somma V[alore]s 84.696.120
Set[embr]o 12 Dinh[eiro] £ 100-0-0 recebido 2.000.000
Out[ubr]o 4 “ £ 200-0-0 recebido 4.049.400
[?] Abril 10 “ £ 200-0-0 recebido 4.184.300
Set[embr]o 3 “ £ 100-0-0 recebido 1:945.060
Nov[embr]o11 “ £ 100-0-0 recebido 1:851.900
[?] 16 “ £ 400-0-0 recebido 7.470.300
31 Compra da Casa Boa Esperança 18 13.932.470
“ 9 semestres de seg[uro] de vida 1.378.800
“ Juros a Morais Burchard 231.900
Somma V[alore]s 37.044.130
47.651.890
Balanço 84:696.120 84.696.120
M[eu] credito V[alor] 84:696$120
M[eu] debito “ 37:044$130 Saldo a m[eu] favor 47.651.990
Saldo a m[eu] favor 47.651$990
Nesta conta não estão calculados juros sobre a
importancia de meus vencimentos
[Edmundo C. Hoff.?]
J.E.C.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
[Com carimbos e selos. Uma anotação posterior em lápis azul: Edmundo]
= Via Lisbôa =
“Certificada”
Ex[celentíssi]mo S[enho]r
D[outo]r Antonio de Moraes Barros
4, Rua da Bôa Vista
São Paulo
“Brasil”
[05-0155-Página 02 - envelope]
[Carimbos do correio.]
[05-0155-Página 03]
[Anotação no canto superior esquerdo:
Copia da Carta
enviada a 18-5-18
e 5-6-18]
[No canto superior direito:
3ª via]
Algecira, Anglo-Hispano Hotel.
18-Maio-18
Nhônhô.
Saudações. Hontem recebi sua esti-
mada carta de 18-março-18.
Confirmo m[eu] telegramma de hoje: “No com-
prendo ausencia de mis honorarios en cuenta.
Telegrafé explicando.”
Sua referida carta foi para mim uma
grande sorpresa, pois V[ocê] nunca me disse nada
que não estava recebendo nada, quero dizer, re-
cebendo regularmente meus vencimentos de
Governo e nem que, para attender despesas
minhas estava lançando mão do meu capi-
tal empregado com o s[enho]r Allegretti e em seu
poder.
Esse contratempo acarreta me, como V[ocê]
vê, um prejuiso cujo alcance está em
desharmonia com minhas posses.
Estou certo de que se V[ocê] assim agiu,
fez pelo melhor, mas eu não chego a com-
prehender.
Junto remeto lhe uma copia resumida
de minha conta com V[ocê] tal como eu a escrip-
turava com dados de valores aproximados,
somente para minha oreintação.
Imagine meu apuro ao confrontar n/[?]
[05-0155-Página 04]
II
contas.
Espero que tudo seja excesso de pessimismo
de m[inha] parte e procuro dominar meu estado de
inquietação inteiramente confiado no meu
bom amigo.
Rogo lhe encarecidamente escrever me ur-
gente e detalhadamente sobre este particular e
interessar se por meus assumptos em geral,
como sempre.
Na conta que V[ocê] mandou-me ha uma
diferença de Rs 2:000$-- (erro em transporte)
contra V[ocê]. Em vez de 4 contos e tanto, o meu
saldo credor em seu poder é apenas de
dois contos e tanto em 18-Março-18.
Antes de fallar de mim tenho que pedir-lhe
com o maximo empenho e favor de empenhar-se
com energia no sentido de que o Governo de S[ão] Paulo
tome em serio medidas eficazes e radicais para
apoiar me e proteger me esclarecendo ao mesmo
tempo, ao Governo Inglez o objecto de minha per-
manencia aqui e ocupação em Gibraltar. Estou
em perigo de ser tomado por pessoa suspeita, soffren-
do vergonha, provações e sacrificios e gastando extraor-
dinaramente ha dez meses (!) mais do que ganho e
tudo por um inexplicavel descuido do Governo de
S[ão] Paulo que sabe que sem apresentação especial offi-
cial e garantias (pedidas por mim no devido tempo) eu
nem ninguem pode residir [+] em Gibraltar desde
Setembro do anno passado; - que sabe que a
minha missão não me permitte residir em
[05-0155-Página 05]
III
Hespanha sem riscos de graves complicações
ás quaes eu não estou disposto á aventurar me.
= Seja dicto de passagem: para a estabili-
dade de n[osso] serviço de embarque em Gibr[altar] é in-
dispensavel que o governo mantenha o posto - fiscal
e para manter o posto - fiscal é tambem intei-
raramente indispensavel que o fiscal nomeado re-
sida em Gibraltar. O mesmo serviço de embarque,
uma vez declarado suspenso ou interrompido,
nunca mais poderá ser restabelecido por uma
serie de circunstancias que o Gov[erno] de S[ão] Paulo não
pode ignorar. =
Para que V[ocê] possa fazer um juiso menos
imperfeito de minha situação que poco invejavel,
devo acrescentar: – Em dez[embr]o de 1913 o S[enho]r D[outo]r
Secretario d’Agric[ultura], attendendo á uma reclama-
ção do n[osso] Ministro em Madrid, suspendeu o servi-
ço official aqui, eu fui mandado ao oriente.
Ao meu regresso reassumi meu cargo, porém fun-
cionando por conta de um Grupo de fazendei-
ros do Est[ado] de S[ão] Paulo, e assim figura até hoje,
não obstante haver desapparecido, por reacção
particular minha as modificações que implan-
tei no n[osso] serviço, todos os inconvenientes que
davam caracter clandestino ao mesmo. Nessa
situação obscura eu me sustentei, sabe Deus
com quantos sacrificios e desgostos até Setem-
bro do anno passado, quando veio uma Commi-
são de recenceamento de Inglaterra a Gibr[altar] e
quando houve mudança de pessoal do Governo
[05-0155-Página 06]
IV
desta fortaleza. Chegou m[inha] vez de apresentar meus
passaportes e de declarar minha occupação. – Minha
declaração que foi sincera não poude ser satisfacto-
riamente clara. Em Setembro de 1917 quando ficou ter-
minado o serviço de recenciamento de Gibr[altar], o S[enho]r Gover-
nador da Praça, com o fim de reduzir o numero de
habitantes, passou uma ordem intimando a todos
os extrangeiros que não representavam officialmente
paiz amigo ou alleado,a retirar se em prazo de
dias. Eu entrei nessa onda e creio que não
sómente pela minha condicção de extrangeiro particu-
lar, motivo que por si só seria reputado suficiente, mais
tambem pela minha posição enigmatica e por meu
nome chamativo, apelido que desde que começou
a Guerra me foi sempre um fardo incommodo. Pas-
sei á residir em Hespanha no dia 3 de setembro de
1917 e escrevi ao Governo de S[ão] Paulo relatando o
ocorrido e pedindo providencias. Só em 11 de
Jan[eir]o de 1918 é que recebi resposta a esta m[inha] refe-
rida carta, dizendo que o S[enho]r D[outo]r Secretario havia
tomado em consideração o meu pedido. Assombra-
me ver que até hoje nada foi deliberado sobre
este assumpto que, sei, para o Governo de S[ão] Paulo
é de importancia secundaria, é para mim, mo-
ral e financeiramente de importancia capital.
Recentemente recebi um telegramma da Sec[retaria] d’Ag[ricultura]
em resposta a um meu pedindo motivações
e recursos, concebido nos termos seguintes: “J’ac
recu votre depâche. Attendez des ordres á
Gibraltar.” = Será possivel que o Gover-
[05-0155-Página 07]
V
Governo de S[ão] Paulo ignore que desde setembro
do anno passadeu já não resido em Gibral-
tar, forçado por uma ordem governamental e
que desde março deste anno eu já não tenho
licença para sequer desembarcar n’aquella
praça?
Bom Costa?].
Acceite com todos os seus os meus
melhores votos de felicidades e muitas sau-
dades
Um abraço aff[ecutos]o do
seu am[ig]o grato e certo
[Edmundo?] —
P. S. Em Piracicaba não sabem de mim. Rogo-
lhe dar boas noticias minhas a minha avó e
ao Lino Franco —
[Edmundo?]
Esta carta vou postar no correio no dia 6-6-18 –
Nhonho Eu pedi ao Governo em carta de
20 de Jan[eir]o p[róximo] p[assa]do, dar me licença sem demitir-me (se entende
que tambem sem ordenado) para prestar serviço no exercito
francez. Peço lhe ver se me consegue isso – Eu ja tenho
um pouco de pratica militar e espero no sahir muito mau
soldado –
[Edmundo?] —
[05-0155-Página 08]
[Letras na lateral esquerda “cortadas”]
Minha conta com Nhônho: meu debito meu credito
[?]16 Debito de Allegrette 20.000.000
[?] 16 Saldo a m[eu] favor nesta data conf. c/ 12.466.610
[?] 30 Lettra do D[outo]r Jaguanharo Miranda 3.000.000
Março 31 9 semestres de m[eus] vencimentos a
[?] 4.859$ – mais ou menos 43.650.000
“ “ Juros da divida de Allegretti 5.400.000
“ “ Cheque British Bk 179.510
[?] 16 Somma V[alore]s 84.696.120
Set[embr]o 12 Dinh[eiro] £ 100-0-0 recebido 2.000.000
Out[ubr]o 4 “ £ 200-0-0 recebido 4.049.400
[?] Abril 10 “ £ 200-0-0 recebido 4.184.300
Set[embr]o 3 “ £ 100-0-0 recebido 1:945.060
Nov[embr]o11 “ £ 100-0-0 recebido 1:851.900
[?] 16 “ £ 400-0-0 recebido 7.470.300
31 Compra da Casa Boa Esperança 18 13.932.470
“ 9 semestres de seg[uro] de vida 1.378.800
“ Juros a Morais Burchard 231.900
Somma V[alore]s 37.044.130
47.651.890
Balanço 84:696.120 84.696.120
M[eu] credito V[alor] 84:696$120
M[eu] debito “ 37:044$130 Saldo a m[eu] favor 47.651.990
Saldo a m[eu] favor 47.651$990
Nesta conta não estão calculados juros sobre a
importancia de meus vencimentos
[Edmundo C. Hoff.?]
J.E.C.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô