Carta de Francisco Vieira de Moraes, 1919, 05-0000173
Metadados
Descrição
Carta de Francisco Vieira de Moraes para Paulo de Moraes Barros, São Paulo - SP, 1919
Código do documento
05-0000173
Remetente / Autor
Francisco Vieira de Moraes
Destinatário
Paulo de Moraes Barros
Texto do documento
[05-0173-Página 01 - envelope]
[Envelope com selos e informações datilografadas. No centro do envelope, em vermelho, manuscrito posterior: “Quito”]
Ill[ustríssi]mo S[e]n[ho]r
D[outo]r Paulo Moraes Barros
Avenida Bartholomeu de Gusmão nº 54
SANTOS
[05-0173-Página 02 - envelope]
[Carimbo do correio de Santos, com a data de 6 de julho.]
[05-0173-Página 03]
São Paulo, 5 de Julho de 1919.
Paulo.
Cumprimentos.
Depois dos ultimos factos relativos á sua filha
e a minha pessôa, parece que seria ridiculo,
ao iniciar o meu divorcio, escrever-lhe uma car-
ta, onde justificasse esse meu proceder. Atten-
dendo porem ao trato que Voce sempre me dis-
pensou quando foram boas as nossas relações,
julgo ainda cabivel uma explicação. Mesmo
porque, creio não estar Voce bem ao corrente dos fac-
tos. Apezar de Pae e de lhe assistir toda auto-
ridade, Voce jamais procurou intervir nem
no que discessi ao bem estar do casal, nem
ao que respeitasse ao nosso intimo viver. No
entanto, não posso admittir, que no tocante a
esta ultima parte voce fosse completamente ig-
norante, pois o contrario diz, uma carta que voce
escreveu ao meu Pae. Não me lastimo muito
déssa sua attitude, pois a mim me dava a intuição
de que voce me julgava capaz de por mim só me
haver na vida. Mas no desenlace que teve o meu
malfadado casamento, é bom que se apure as cul-
pas. Ainda mais, eu encontrei a minha
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mulher na sua casa e Voce foi encontrar a sua
filha separado de mim e na casa de uma tia.
É forçoso portanto que se ponha tudo as claras e ca-
da um assuma a responsabilidade que lhe ca-
be.
Viria tranquillamente no Rio, onde apezar de
longe da familia e parentes, ia encaminhando
a minha vida, modestamente, como podia.
Não lhe conhecia pessoalmente e ignorava que
tivesse filhas e – casadeiras. Ja havia mais de tres
annos que me formara. Neste interim recebi
um pedido de Mimi, meu irmão, para que lhe
mandasse o certificado da minha nomeação
para professor livre da F[aculdade] de Medicina do Rio de
Janeiro, trabalhos etc, que serviriam de ba-
ze com que elle e Nhônhô iam tentar
me transferir – e com vantagem – para S[ão] Pau
lo. Mandei alguns escriptos meus, a cer-
tidão pedida, um parecer da congregação
a meu respeito etc, sem de leve suspei-
tar do verdadeiro intuito do tal pedido.
Tendo vindo a S[ão] Paulo trazer uma das mi-
nhas irmans, que eu tinha levado ao Rio
afim de tratar da saude, fui sorprehendido com
a noticia, de que Você me convidara para
um jantar em sua casa. Foi então que
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meu pae disse-me qual as intensões delle e
os que animaram á familia Moraes Barros.
Não tendo compromisso de especie alguma, em-
bóra extranhasse o que me propunham, achei
um certo sabor exquisito nesse modo a antiga,
dos paes promoverem o casamento dos filhos. Por
infelicidade, agradou-me a pretendida noiva.
E levado por uma serie de sensações novas para
mim, deixei-me conduzir. A medida
porem que ia conhecendo a sua filha, fui no-
tando nella excentricidades. – Um dia pergun-
tando-me ella mesma, que pensava eu de festas
e bailes, respondi-lhe, que gostava e muito. Mas
um tanto ciumento, disse a ella que, uma vez
compromettido com alguem, não poderia achar pra-
zer em festas, onde esse alguem faltasse. Expon-
taneamente ella me disse, que tambem não mais
iria a festas onde eu não estivesse. Passados dias,
ainda não éramos officialmente noivos, ja o eramos
porem pelo mutuo compromisso, recebi d’ella uma
carta, contando-me que tinha ido a um grande
baile e que se divertira muito. Vendo a contra-
dicção entre o que ella mesmo me dissera e o que
acabara de contar, extranhei sobremodo e, si pa
qui não seria ella a mulher que se offises-
se ao meu modo de ver as cousas. Éra
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tempo para voltar atraz e continuar a viver tranquillo
como antes vivia. Escrevi a ella uma dessas car-
tas difficeis de se escrever (pelo qual voce me
classificou de ciumento feroz etc) pedindo
devolvessemos as nossas correspondencias, pois a
minha tentativa, outróra baseada na mais pura
das intensões, não éra viavel. Não obtive respos-
ta, o que me admirou, pois a menor dose de a-
mor proprio, indicava uma devolução immedia-
ta das cartas pedidas. Passados oito dias, escrevi
novamente um cartão insistindo no meu pedido
e fazendo ver os inconvenientes de retermos, um
correspondencia do outro. Ainda não obtive res-
posta. Escrevi novamente; agóra apenas um car-
tão, onde até o meu nome riscara!.. Isto foi
por fins de Novembro, começos de Dezembro de 1914.
No dia de Natal desse anno, quando não mais
pensava nessa minha tentativa de casamento, rece-
bi de Leninha uma carta repassada de queixumes
e um pedido que não insistisse em romper com
ella. Extranhei os termos da carta e a achei de
uma humildade sem por… (Posteriormente
Leninha contou-me, que essa carta lhe fôra
dictada). Não respondi. No dia 5 de Janei-
ro de 1915, de passagem para Pirassununga, do
“Hotel do Oeste”, telephonei a ella, dizendo, me achar
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em S[ão] Paulo, trazer comigo cartas e retratos que d’ella
possuia e que éra ocassião de cada um ficar com
o que éra seu. Disse-me ella, que só eu indo
pessoalmente levar as cartas d’ella e buscar as mi-
nhas. Não suspeitando de nada fui. Ella rece-
beu-me, atirando-se nos meus braços. Verdadei-
ramente transtornado só admitti como solução
pedil-a em casamento no mais breve tempo possi-
vel. Estavamos noivos. Em sete
de Maio vim a S[ão] Paulo, a pretexto de passar
com o Paulo II o anniversario d’elle. A oito
realisou-se em casa do S[enho]r José Paulino um
grande baile e no Rio casara-se um meu
companheiro de trabalho. Não podendo ficar
em S[ão] Paulo, parti no dia 7 mesmo para o
Rio. No dia 10 de Maio, recebi uma car-
ta de Leninha, dizendo que tinha se rea-
lizado o grande baile e que ella a elle com-
parecera. Não queria ir, porem V[ocê] a tinha
obrigado, allegando ser um Secretario, não
podendo porisso se furtar à Sociedade e
que devido a sua condicção de viuvo,
ella como filha mais velha, devia acom-
panhal-o. Foi obrigada a ir, dizia, e dera al-
guns pormenores da festa. Deante dessa
carta escrevi a V[ocê] como a situação indi-
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cava, lembrando o que de desagradavel ja se
tinha passado entre nos por causa de bailes etc,
e pedindo, que não mais a obrigasse a ir
a festas. Respondeu-me V[ocê] que apezar da
sua filha ser minha noiva, não tinha
abdicado os seus direitos de pae. Repon-
di e então em termos incisivos, deploran-
do o incidente e dando por disfeito o meu
compromisso de casamento com a sua filha.
(Disse-me posteriormente ella, que esta mi-
nha carta, chegando á sua casa quando Você
se achava ausente, ella a interceptara).
Qual não é a minha sorpreza quando pas-
sados dias, recebo nova carta de Leninha,
dizendo que não fôra a baile nem a cou-
sa alguma e, que havia escripto aquella
carta, para me submetter a uma prosa (?)
e que antes de nos casarmos, eu teria que
passar por outras ainda!.. Não respondi,
quedei-me certo porem, que o meu casa-
mento estava definitivamente desfeito e
communiquei o facto aos meus paes.
Nova sorpreza me reservava o mez de Ju-
nho, quando recebi de Você uma car-
ta dizendo que tinha lido parte da corres-
pondencia trocada entre eu e Leninha
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e que pela rudeza d’ella, receiava sobre o
nosso futuro. Com toda a lealdade es-
crevi a Você, dizendo que ja ha muito es-
tava conformado com a solução que me sug-
geria, que estava de pleno accordo em desman-
char esse casamento, acreditando que essa sug-
gestão éra calcada na sua intelligencia,
conhecimento pleno da filha, experiencia e
consciencia enfim. Se fosse me dado um
alvitre porem, lembrava, que não deviamos
tomar resoluções tão radicaes, sem um en-
tendimento a viva voz. Passados dias
recebi outra carta sua, dizendo que o meu
casamento não podia se realizar a 21 de Ju-
nho de 1915 como estava marcado, que
ficara porem para mais tarde!... Não sou-
be como julgar factos tão disparatados co-
mo os que vinha presenciando. Apenas
resolvi feichar os olhos e sem medir con-
sequencias nem ajuizar sobre cousa al-
guma e casar-me. Tinha um in-
timo prezagio que para o futuro ainda
siria o desfructar uma vida tranquilla.
– Casei-me finalmente tendo conhe-
cido minha mulher menos de um
anno antes, após ter me encontrado
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com ella ella 10 vezes apenas e de ter pro-
curado romper o contracto de casamen-
to duas vezes. Só então fui
verificando, com a amarga experiencia
de cada dia o grande passo em falso
que havia dado. Durante tres annos
e meio de casado jamais vi Leninha con-
tente. Sempre revoltada contra tudo e
contra todos, sempre tendendo a seguir
em direcção opposta á aquella que a me-
nor parcella de bom senso indicaria. Sob
aquella mascara de meiguice e tom cho-
roso, occultava de facto uma indole má.
Oppunha difficuldades na realisação das
mais insignificantes cousas, tinha o hu-
mor constantemente irritado e – porque
não dizer – um certo prazer em contra-
riar o marido. O que foram as diffi-
culdades para se escolher uma casinha
e mobilial-a, não se descreve. Tudo ella
achava ruim, tudo éra caipira; para
ajuizar sobre um objecto e para por elle
propender, só tinha um criterio – o
custo caro. Mas nunca cheguei
ter casa organisada. Não podendo
dispender como um nababo, mui-
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ta cousa não se chegou a comprar, por
ella só querer o que custasse caro.
Descontente com a casa não cuidava d’esta,
e, éra preciso que nas minimas cousas,
eu estivesse a cada passo intervindo.
De casinha nada entendendo, cheguei
eu mais de uma vez – parece caçôada –
até nisso a intervir e comemos do que
eu ensinava uma criadinha a fazer!.....
Não tendo o menor espirito de economia,
não sabendo cozer, aos poucos nas suas ves-
tes ia-se notando um certo desmanzelo e,
para que na sua propria roupa fosse pre-
gado um botão éra preciso que alguem
o fizesse, que se pagasse. A vida assim
tornara-se indiscutivelmente carissima.
Desculpava-lhe eu isto. Foi criada em
hoteis e pensões, jamais viveu a vida das
familias brazileiras. A educação que
teve foram uns europeis, porem jamais
vizou fazer d’ella uma futura dona de
casa. Ella se apresentava portanto com-
pletamente incapaz para dirigir o seu
lar, consoante o casamento que fizéra;
fosse millionaria, pudesse jogar tudo,
assim estaria bem. Veiu-lhe a gravi-
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dez. O seu descontentamento e mau hu-
mor augmentaram; o descaso pelo seu lar
ainda tornou-se maior. Consigo então
tocaram as suas irregularidades ao ex-
tremo. Em via de regra não se despia
a noite para se deitar, estivesse com o
vestido que estivesse, assim se atirava ao
divam do meu escriptorio ou na cama
e assim ficava. E só ao cabo de muito
pedir, de ouvir muita grosseria, conseguia
que se despisse. Isto éra todo dia. A gra-
videz naturalmente, a quem ainda soltei-
ra mal se aprumava, viera transtornar
mais. Assim eu pensava, esperando pelo
parto d’ella como pela redempção. Os fac-
tos nesse periodo são inenarraveis. Bas-
ta citar o seguinte, para se ajuizar da tor-
menta em que se vivia: Tendo ella
recebido a mobilia que encommendara
para a sala de jantar, durante a arru-
mação, collocou um faqueiro em meio
d’uma das portas que davam para a sa-
la. Vendo eu, que nesse lugar o movel
difficultara a passarem, perguntei a ella
onde queria que o collocasse. Disse-me
que o deixasse; ella sabia onde devia col-
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local-o. Insisti e obtive a mesma resposta.
Apesar disso desviei o faqueiro da porta e
o colloquei contra a parede do quarto con-
tiguo a sala. A noite, estando no meu
escriptorio, ouvi barulho e percebi, que des-
ciam a escada com alguma cousa mui-
to pesada. Era Leninha, que gravida de
oito mezes, descia com uma criadinha
o faqueiro pela escada abaixo! Ralhei
com ella por essa extravagancia e, com a
criada, conduzi o faqueiro para o meu
escriptorio, para onde ella o destinara.
Voltei a estudar e ouço então um ba-
rulho de quem quebra louças, no an-
dar superior. Subi ás pressas e vou encon-
trar Leninha no meio dos destroços de
um apparelho de toillet, cujas peças ella
ia quebrando arremessando tudo con-
tra as paredes e o assoalho! Conduzi-a
ao quarto, procurei acalmal-a e fiz dei-
tar-se. Estava fazendo aquillo porque
eu a deixara gravida estar carregando
moveis…. Temi com essa crize um abor-
to e tambem pela sanidade mental
d’ella. Approximava-se o parto.
O pae d’ella partia em viagem de recreio.
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Das tias, essas mesmas dentre as quaes
houve agóra que se mostrassem mui
alviçoreiras em amparal-a contra a furia
do marido, não houve uma siquer que
se offerecesse, que fizesse o menor acêno,
para assitir a sobrinha, que ellas bem
sabiam incapaz de se haver por si só
em tal emergencia, que precisava de
qualquer modo ser assistida por uma
pessôa pratica, que a auxilliasse, que
lhe desse o conforto moral que ella ca-
receria. Houve no entanto uma pes-
sôa por bem idosa, doentia e que tinha
na sua casa, quasi moribundo no lei-
to um filho, que attendendo ao meu
pedido, partiu sozinha e foi ter de Pi-
rassununga ao Rio, para assistir Leni-
nha. Essa pessôa bem se vê foi minha
Mãi. Agravando-se sobremodo o esta-
do do meu irmão doente, minha Mãi
foi obrigada a deixar-nos antes do dia 12
de Maio, quando Quitinho nasceu.
No dia 20 desse mesmo mez morria
o meu querido irmão. Nascido o
filho, em Junho do mesmo anno
os meus paes foram até o Rio, afim de
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baptisal-o. Como éra natural se hospe-
daram em casa, onde passaram 15 dias.
Afóra mais uma temporada que Sylvia, mi-
nha irman, foi passar comnosco no Rio,
a meu convite e para fazer um pouco de
companhia a Leninha, não existe mais
contacto algum da minha familia
e minha mulher. Pois bem, essa gen-
te, a quem ella só devia attenções, éra o
objecto predilecto das suas imprecações: se
minha Mãi fôra ao Rio, para assistil-a,
porque eu pagara as despezas com o
dinheiro d’ella Leninha; que minha
Mãi havia levado com objectos seus uma
mala que não restituira… sempre
pequeninos causos, mesquinhezes.
Ainda agóra, ao partir para o Pau d’Alho,
tanto fallou na tal mala – uma velha
mala de mão, quasi imprestavel – que
para continental-a comprei outra, sem a-
lilás precisar. Costumava dizer, que, se
o que tinhamos não chegava para viver-
mos, era porque eu desviava dinheiro
para a minha familia; sempre estas mi-
zerias a atormentar-me. De uma fei-
ta, em vesperas de nos separarmos, em
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casa do C[oron]el Salles, dizia a este e em minha
presença, que elle bem sabia porque eu
éra tão sovina: precisava de dinheiro
para a minha familia e para as amantes.
Esta linguagem, estes modos ella os
tinha com grande desembaraço, modos
e palavras tão improprios para uma mo-
ça, sobretudo para quem, como ella, fazia
gosto dos seus oito annos de educação
na Europa.
Prosseguindo na narrativa que vi-
nha fazendo, logo nos primeiros me-
zes após o parto, Leninha não teve mais
leite com que amamentar o filho. Re-
solvi o pretesto de assistir a um Congres-
so Medico, vir até S[ão] Paulo em fins de 1916.
Aqui, visto o menino pelo Galeno, este
aconselhou que lhe dessemos ama de lei-
te. Arranjou-se uma regular como
ama, porem boa pessôa. Partimos após
para o Rio. Lá continuou o mesmo
viver irregular, as mesmas queixas, as
mesmas malcreações, as mesmas ques-
tões de dinheiro sempre etc. Se as
criadas nunca a puderam aturar, a
ama tambem não poderia. Logo come
[05-0173-Página 17] Imagem de cabeça para baixo
çou a se emplicar com a ama. Éra pre-
ciso que a todo momento eu estivesse har-
monisando, fazendo ver a uma e outra o
que éra justo, afim de não privar o meni-
no do leite que carecia. Mas Leninha ca-
da dia se tornou peior. Uma noite, pela
1 hora, o menino acordou. A ama depois
de ter trocado os paninhos deu de mamar
a elle e o estava acalentando no berço. Eu
estava acordado. Nisto Leninha se levan-
ta de subito, corre para o quarto do meni-
no aos gritos com a ama a quem agride
a bofetadas… Corri a separar Leninha da
pobre mulher que chorava desesperada-
mente. Não sei se foi uma manifesta-
ção epileptica, o que foi enfim. Só sei
que a custo consegui Leninha voltasse pa-
ra a cama e que a ama não deixasse a
nossa casa aquella hóra da noite, o que
aliás fez no dia seguinte. – Depois
de tentarmos arranjar ama no Rio mesmo,
pedimos para S[ão] Paulo outra ama. Foi des-
ta vez uma rapariga forte, examinada –
sangue e leite pelo Braz – que nos pres-
tou bons serviços. Lá chegada, a mesma
cousa se dava com ésta. Leninha em
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poucos dias começou a se implicar com a
mulher, que pouco depois de um mez voltava
a S[ão] Paulo. Tendo se empregado em casa de u-
ma filha do Firmiano Pinto, esparramou aqui
em S[ão] Paulo, que a moça com que estivera
no Rio éra louca… Quando Sylvia
minha mana esteve no Rio, um bello dia ao
nos levantarmos como Leninha ficasse na
cama e ja fosse quasi oito horas, estando me
apromptando para ir para o trabalho, dei-lhe
uma leve palmada, dizendo: “acorda dormi-
nhoca”. Não sei como ella interpretou o meu
brinquedo. O facto é que num verdadei-
ro impulso levantou-se da cama d’um
salto e se atirou sobre mim furiosamen-
te. Fiz ver a ella o desarrazoado da zanga
e a desproporção da reacção d’ella, quiz acal-
mal-a, disse que estava brincando; mas
não houve meios de acalmal-a. Passados
momentos quiz me agredir outra vez;
evitei, sempre procurando acalmal-a.
Ao entrar porem, passado mais ou menos
uma hóra, no quarto de toillet, ella
que estava de dentro, desferiu-me um
golpe com um grampo que tinha na
mão. Então, sendo que não era mais
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possivel estar com meias medidas, tomei-a e-
nergicamente pelos braços, tirei-lhe o grampo,
fil-a sentar-se numa cadeira e ralhei
como devia com ella. Desandou então a
chorar, fez barulho e disse que viria para S[ão]
Paulo. Vestiu-se e não quiz almoçar. Recom-
mendei a Sylvia que não dissesse uma unica
palavra e o mesmo fiz eu. Após o almoço Sylvia
foi para a casa de uma amiguinha e eu
desci para o meu escriptorio onde passei o
dia. Leninha com grande escandalo fez
as malas espalhando tudo que lhe não
interessava pela casa e após tomou um
automovel e partiu com o filho. Por on-
de andou não sei. Ao escurecer chegou
á casa, mandou abrir largamente o
portão, collocar junto d’elle as malas e
tudo isto, debaixo de imprecações terriveis, com gran-
de espanto dos vizinhos, que não comprehen-
diam aquillo. Não jantou em casa.
Eu e Sylvia assistiamos a essas scenas
como dois mudos, como se nada tives-
semos com o que se estava passando.
Lá pelas oito horas da noite, um outro
automovel estava parado na porta da nossa
casa. Eu estava escrevendo no meu
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escriptorio. Nisto Leninha completamente
paramentada para viagem, approximou-se
de mim e disse que vinha se dispedir.
Disse-lhe então eu, que deixando ella a
casa como deixava, não tinha que se dis-
pedir e que podia ir. Ficou a principio
muito desconcertada e, após, num repente
atirou-se a mim aos abraços, pedindo que
a desculpasse. Aproveitamos o automovel
para ir até a “Central”, nos desfazer da pas-
sagem que ella tinha comprado. Após fez
questão que fossemos a um cinema.
Passamos alguns dias de relativa cal-
ma; logo porem começou outra vez com
as suas irregularidades. Depois que
batera na pobre da ama ficou valente. A
todo momento dizia que não estava mais
para tolerar ninguem: “se a tia Nhanhan
ja ameaçara de bater uma vez e ao Tio Nho-
nhô ja havia dado um tapa, as outras não
eram mais que estes”. E assim um
certo dia quasi foi as vias de facto com
uma costureira, tendo chegado em casa
num assomo de cólera, contando o succe-
dido.
Em Maio de 1917 estando me preparando
[05-0173-Página 21] Imagem deitada.
para um concurso adoeci de grippe e a conselho
do P[rofe]ssor Austregesibo, resolvi passar no Pau d’Alho
uma temporada. Como não quizesse perder
tempo e estivessemos em vesperas de nos mu-
dar para o Leme, parti antes, deixando Leni-
nha em companhia de Sylvia, esperando que
os retoques na nossa casa terminassem e
pudessem fazer a mudança. Éra questão de
dez dias no maximo. Leninha contudo dei-
xou-se ficar no Rio 18 dias e partiu pra São
Paulo sem mudar cousa alguma, tendo lá
se demorado o tempo necessario para fazer ves-
tidos e nada mais. – Uma vez em S[ão] Pau-
lo deixou-se ficar em casa do Octavio Men-
des e só foi para o Pau d’Alho quando ja
fazia um mez que eu lá estava e após
eu ter escripto a ella em termos mui-
to energicos. É verdade que eu não es-
tava propriamente doente e apenas en-
fraquecido por uma grippe, excesso de preo-
cupações e um pouco de estudos. Mas não
era o conceito que ella fazia da mi-
nha saude, pois ao irmão e parentes
dizia-me tuberculoso e escarrando
sangue. Era qualquer outra mu-
lher que fizesse tal juizo da saude do
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marido seria a primeira a acompanha-
lo e o cercar dos cuidados que precisasse.
De volta a S[ão] Paulo não quiz seguir
comigo para o Rio, queria ficar mais al-
gum tempo. Apezar do inconveniente
de ter ella de fazer viagem só cedi e
parti. La estava eu, quando uma bel-
la manhan, pelas dez horas e meia, en-
trou Leninha pela casa adentro blas-
phemando dizendo-me palavrões, que
eu bem sabia que ella devia chegar e
não fui esperal-a na Estação etc; d’ahi
ter chegado só naquella hóra, pois o
choffeur andou dando voltas com ella.
Fiz ver que ella não me havia escrip-
to nem telegraphado como fôra sensato.
Dizia ella que o Hominho havia tele-
graphado que eu bem sabia que ella
chegara e que fizera de proposito. – Pelas
onze horas chegou um telegramma,
era o de Hominho e foi ella mesma
que o abriu. Não se dando por ven-
cida, disse que Hominho devia ter
passado dois telegrammas…. – Homi-
nho, quando o vi pela primeira vez a-
pós esse facto, disse que Leninha não
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queria que me avisasse por forma algu-
ma, pois queria chegar de sorpreza para
ver o que eu estava fazendo! Elle havia
telegraphado depois que Leninha embar-
cou. Dois mezes após, quando Córa foi
passar connosco uns dias no Rio, as
malas da mudança e as que Leninha
trouxera de S[ão] Paulo, ainda estavam jun-
to a escada, perto da porta de entrada da
casa. E por ahi Você pode avaliar como
ella se interessava pela casa.
Agóra a queixa não éra mais contra
a casa. Dizia que no Rio ella seria
sempre assim e “cada vez peior” (sic.), que
me mudasse para S[ão] Paulo. Este passou
a ser o thema de todos os dias, o estribil-
lo de todo momento. Leninha es-
tava gravida e a espera do nascimen-
to do segundo filho. A vida em casa
continuava a ser o mesmo martyrio.
Havia ja uns oito dias, que se ella me
fallava éra apenas uma ou outra cou-
sa, para se queixar ou se mostrar
zangada. Certa manhan, ao
me levantar, ella disse que não fizes-
se barulho, que não acordasse o me-
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nino, que não éra hóra, uma cousa incri-
vel, enfim. Nisto a creada entrou no nos-
so quarto com o menino ja prompto para
descer para o café… Desci mais cedo que el-
la; fui chamado ao telephone: éra o P[rofe]ssor
T. Brandão que me chamava a casa d’elle
e eu disse que iria logo. Voltei a me ves-
tir, quando ouço, isto pelas oito e meia,
uma choradeira no andar terreo. Desci
a ver o que éra. Éra Leninha. Tinham
chegado D[on]a Bellinha Godoy e Judith, chama-
das pelo telephone por Leninha, que sen-
tira approximar-se o parto. A mim no
entanto não havia dicto uma unica
palavra. Avisou-se a parteira e medi-
co, pedi a D[on]a Bellinha, tudo em casa es-
tando prevenido, que ficasse lá um pouco
enquanto eu corria a casa do P[rofe]ssor T. Bran-
dão, de quem eu estava tratando uma
das filhas, que, posteriormente, veiu
a fallecer. Em menos de uma ho-
ra eu estava de volta, a parteira ja lá
estava e o parto parecia só vir lá pelo
meio dia. Tivemos tempo de almo-
çar; ás 12½ chegou o medico e pou-
co antes de 1 hora nasceu Elizinha
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Ella tinha sido tão injusta e perversa
com a minha mãi, que não quiz a-
buzar da paciencia d’esta, da sua extrema
bondade, fazendo-a novamente vir ao
Rio para assistir á nóra. Aos demais
parentes eu não me animaria pedir
que viessem. Eis o que ella invoca
para accusar-me de a ter abandonado
no dia de nascer a filha.
Passado este periodo começou ella ou-
tra vez com as suas historias. Que se
casara porque Você promettera que ella só
ficaria no Rio um anno, que após tra-
taria de me fazer mudar para aqui,
que fôra enganada, que se soubesse que é-
ra para viver no Rio, jamais se casaria
comigo e que se eu a quizesse ver diffe-
rente do que era, que me mudasse para
S[ão] Paulo. É verdade, que ja em sol-
teiro eu havia manifestado desejo de
me mudar para S[ão] Paulo; mas n’a-
quella épocha, pesando bem as cousas, eu
estava firme em permanecer no Rio
pelas razões que adiante exponho.
Porem na vaga esperança de que
ella aqui em S[ão] Paulo mudasse de
[05-0173-Página 26]
indole e procedimento, de que pelo exemplo
e conselho dos parentes ella pudesse me-
lhorar, depois de muito reflectir, escrevi
ao D[outo]r Franco da Rocha. Eu ia dei-
xar o Rio e um começo de vida de al-
guns annos. Ia transportar-me para
um meio completamente diverso d’aquel-
le em que estava vivendo, ferindo direc-
tamente os meus interesses, porque ia dei-
xar dois lugares que me rendiam 800$
por mez, por um de 350$ aqui em S[ão] Paulo.
Ambos os lugares que eu lá occupava,
um dos quaes hoje victalicio e outro
em vesperas de o ser tambem, rendem
actualmente 900$ ao meu substituto.
Novas relações, novos conhecimentos,
despesas de mudança, nada obstou
que eu tomasse éssa resolução, uma
vez que eu via nisso, uma vaga es-
perança de endireitar Leninha, por
ter feito a vontade d’ella. Você mes-
mo, eu sei não éra de opinião que
eu me mudasse. Depois de algu-
mas difficuldades, Leninha partiu.
Não quiz viajar pela Central, quiz
vir por mar e veiu. Terminados os
[05-0173-Página 27]
ultimos affazeres que me prendiam ao
Rio, parti tambem. Pareceu-me que
Leninha tinha vindo contente. Che-
gando a S[ão] Paulo, a sua casa e ines-
peradamente, Leninha recebeu – com ef-
fusão, muito satisfeita. SInhá então,
deante da scena da minha chegada,
teve para Leninha, mais ou menos es-
tas expressões: “não acredito no que
estou vendo, pois neste momento
você estava fallando tanto mal
de Quito”. E contou-me após, que
Leninha tinha durante os todo o
tempo se queixado, fallado dos maus
tratos que eu lhe dava e, até que
batia nella…. E, assim sempre fez.
Quando eu pensava que tudo ia
muito bem, Leninha, sem motivo
algum, ia fallar mal do marido
aos parentes. O que foram os dias
que passei em sua casa você deve
saber. V[ocê] viu no principio, quan-
do a minha nomeação periga-
va, como ella procedeu, só fallava
em nos separarmos e uma vez,
aé na sua prezença á meza, fal
[05-0173-Página 29 - imagem na sequência errada]
lou nisso. Depois foram as diffi-
culdades para se arranjar uma casa.
Arranjada esta, Leninha não ia lá,
para ver o que se fazia e precisava fazer.
Afinal em fins de Julho, estando
prompta a casa, não havia mais
razão para não nos mudarmos. Como
Leninha oppuzesse difficuldades, resol-
vi a 28 de Julho mudar-me, indo a-
penas tomar as refeições em sua casa.
E lá fiquei até 22 de Setembro, quan-
do finalmente Leninha appareceu de
mudança, queixando-se de Sinhá,
a quem naturalmente fizera algu-
ma das suas. Faltava ainda algu-
ma cousa para a casa, porem ia-se
comprar éra impossivel, pois Leninha tu-
do queria em desaccordo com as suas
posses; assim tapetes etc. Os passadores
para a escada e corredores, que não
se comprou porque ella escolheu um
de 20 e tantos mil reis o metro, quan-
do desde 5$ o metro existe. Não encon-
trava criados que servissem e de 22
de setembro a tres de dezembro, quan-
do partiu para o Pau d’Alho teve vin-
[05-0173-Página 28]
te e uma criadas entre cozinheiras,
copeiras e amas seccas.
Por occasião da grippe o que se pas-
sou em casa, não destoou do commum.
Deste tempo podem informar Córa e
Nônô que lá estiveram, attendendo
ésta a um meu pedido e, Córa, tendo
vindo expontaneamente. Porem não
devo deixar de me referir a alguns
factos. Tendo a irman e a tia vindo
nos soccorrer, pois que tambem eu es-
tive doente, Leninha foi para ellas de
uma ingratidão e malvadez sem par:
“Não tinha pedido a ninguem que se-
fosse metter em casa d’ella, que não
precisava de intrusas que só serviam
para por tudo em desordem e aborrecel-
a e, que se fossem embóra, que éra o
melhor que tinham a fazer”. Desobe-
decia a todos e as prescripções do me-
dico – o Galeno e de tal modo se tor-
nara malcriada, que um dia Córa
resolveu chamar Jorge, que viesse acu-
dil-as, porque não podiam mais com
Leninha. Jorge veiu e reprehendeu-a
asperamente, dizendo mesmo que o
[05-0173-Página 32] Imagem na sequência errada
para ella. Ja se passam déstes ul-
timos factos cinco mezes. Tive por
essa occasião a opportunidade de
ouvir a opinião, o juizo que sobre elles
faziam alguns dos mais sensatos
parentes de Leninha entre estes tios
paternos d’ella. A grande culpada é
ra Leninha. Houve d’entre esses a que
me referi, que se lembrasse, de uns
tres mezes que Juquery para corrigil-a.
Reconhecendo como eu, que ella não
tinha a sua esphera moral desen-
volvida a ponto de poder avaliar a
situação que se creára, de ser inca-
paz de sentir a tristeza da sua con-
dicção social futura e dos seus filhos,
só uma privação de aspecto material,
de prazeres, de bem estar, pudesse co-
rigil-a. Foram unanimes em con-
cordar, que uns 6 mezes ou um anno
de fazenda, fosse bastante por dar a
ella um pouco de juizo. Prival-a ma-
terialmente, castigal-a emfim, em
beneficio d’ella. Privações d’outra es-
pecie ella éra incapaz de sentir.
Estavam de accordo com esta
[05-0173-Página 33]
resolução, mas, quem seria capaz
de ir dizer a Você? Julgaram V[ocê] bas-
tante abatido por desgostos e doenças.
E ficaram, creio, como os ratos da
fabula, que descoberta a grande ideia
do guizo, não encontraram quem o
amarrasse ao pescoço do gato.
Vocé é foi além do mais desconhe-
cedor dos pormenores da triste historia
que lhe acabo de contar e portanto ja
esperava que desse razão a filha.
Porem sempre esperei do seu crite-
rio, que tendo de servir de juiz, como
fatalmente está servindo nesta ques-
tão, não chegasse a julgar, ouvido ape-
nas uma das partes; que não quizesse
me julgar um malvado commum,
que espanca a mulher, só porque isto
diz a sua filha, quando o facto não
foi presenciado por ninguem e eu
tenho sempre affirmado, que não
se passou como ella conta. Procu-
rei viver num verdadeiro isolamen-
to como tenho vivido e, vi decorrerem
cinco mezes, que se para a sua fi-
lha devem ter sido muito breves,
[05-0173-Página 34]
que, se para V[ocê] que não pode sentir
como eu hão de ter passado, mais
ou menos como os outros, para
mim representam uma eterni-
dade. Esperava a todo momen-
to como um vizionário por al-
guem, por voce, por quem mes-
mo – não sabia, que interviesse
no meu caso, pela sorte de u-
ma desajuizada e das duas
crianças. Porem nada. Ao
contrario d’aquellas medidas
lembradas, seja a principio a sua
filha passear aqui em S[ão] Paulo;
depois partir para Santos, para uma
estação cheia de banhos. Mesmo
assim esperei e pensava: o Paulo
não pode julgar sem me ouvir;
não pode desejar ver crescerem as
crianças, tendo os paes separados, sem
tentar corrigir essa situação. talvez
chegue a reconhecer que a filha
não pode ter as regalias, de uma
pessôa de identicas condicções,
porque ella é mentalmente
defficiente, uma incapaz de se
[05-0173-Página 35]
haver por si mesma na vida.
Sei perfeitamente que V[ocê] não a quer
na sua companhia, como reconhece
que ella devido á sua indole má
não pode viver na companhia de nenhum
parente, que muito menos que voce
teriam obrigação de atural-a; porem,
que vida lhe dar, senão na compa-
nhia do marido? Leninha men-
talmente é uma doente, não tem
capacidade para se manter só na
vida, é preciso que alguem a am-
pare e de perto, porque d’outra ma-
neira não vencerá á primeira dif-
ficuldade, cederá ao primeiro em-
bate que a má sorte lhe offere-
cer. Como pois admittir a sua re-
solução, de deixal-a vivendo só em
uma casinha e partir para a Euro-
pa, para longe d’estes aborrecimen-
tos de familia? Não éra da mi-
nha pessôa que se tratava e sim
de acudir o interesse e bom
nome de duas familias, de se-
lar pelo futuro de sua filha
e minha mulher, que voce
[05-0173-Página 36]
não pode deixar de reconhecer como
eu a venho apontando, incapaz
e irresponsavel e, pelo futuro de
duas crianças, por infelicidade
uma d’ellas menina. Voce po-
de bem avaliar como não era
pela minha propria sorte que
eu temia, pela hypothese de viver
separado dos meus filhos, por-
que, desgraçadamente conhe-
ço bem Leninha e – ella en-
tregue a si mesma, não tar-
dará a entregar nas minhas
mãos, não uma mas as duas
crianças. Como pois consen-
tio, deante um futuro tão
arriscado, que as cousas tomas-
sem a direcção acommoda-
ticia que pareciam tomar, só
porque um dia o casal brigou,
tomando essa briga maior vul-
to porque Leninha abandonan-
do a casa, foi ter com quem
insensatamente lhe desse razão!
Sempre tenho pensado assim.
Mas, no isolamento a que me
[05-0173-Página 37]
notei[?] jamais chegou o menor in-
dicio, que do lado da minha mu-
lher, do seu pae do seu pae natu-
ralmente, a menor iniciativa hou-
vesse. Se não percebi nada
que pudesse interpretar como fa-
voravel á minha situação futu-
ra, algumas hostilidades peque-
nas eu vinha sofrendo e cabis-
baixo. Se da parte da familia
Salles, de todos sem excepção,
eu continuei a receber o mesmo
tratamento, se da parte dos Mo-
raes Barros homens, todos intel-
ligentes, me parecia serem na
minha situação factos apenas
a se lamentar, o mesmo não
se dava com alguns dos elemen-
tos femininos e com aquelles
que embora masculos no porte,
teem um caracter afeminado; re-
firome aos dois genros do Octavio,
aqui residentes. Estes dois, sem
personalidade propria, assimilla-
ram naturalmente as ideias da
sogra, que eu sei ser muito
[05-0173-Página 38]
contra mim. tem toma[?] infecções
para o seu asoriado[?] corpo, aqui no
meu consultorio durante mezes; o
outro, quando em viagem de nup-
cias, no Rio, precisou de medico,
e, fui eu quem foi ver a sua jo-
vem esposa no H. Moderne. E, o que
é mais interessante, no dia da par-
tida, uma vez com a mulher a bor-
do de um navio do Loyd, verificou
que a partida só se realizaria no
dia seguinte. Estavam na es-
pectativa de passarem um dia num
pequeno navio, atracado num caes
immundo, pois a mulher disséra
a Leninha, que o marido só possuia
o estrictamente necessario para a via-
gem de Santos a S[ão] Paulo e que, por-
tanto, não poderiam voltar para o hotel.
Foram para a nossa casa, janta-
ram, dormiram, almoçaram no
dia seguinte e finalmente par-
tiram. E é tudo quanto devo a
esses dois typos, que agora se ne-
gam ao meu comprimento e pa-
sam por mim de cabeça teza.
[05-0173-Página 40]
procedimento d’ella justificou a vin-
da do D[outo]r Franco da Rocha e enfermei-
ros do Juquery. Emfim o que ella fez
nessa occasião, podem informar todos
os parentes que lá estiveram e nos visi-
taram. Não queria ir com os
filhos e marido se convallecer no Pau
d’Alho. Com muito custo afinal partiu.
Lá com os outros procedia normal-
mente mas comigo éra a mesma
de sempre, talvez peior, foi se julgar
amparada e eu temer escandalos.
Estando eu completamente resta-
bellecido, e precisando vir a S[ão] Paulo para
ir cuidando da minha vida como Vo-
ce bem sabe, parti, deixando-a lá, de-
pois de pedir muito que se demorasse
o mais possivel, pois que com isso, as
crianças, sobretudo Quitinho só tinham
que approveitar. Tendo eu partido no
dia 7 de Janeiro, no dia 12 tive carta d’ella.
contando que estava disposta a vir tam-
bem para S[ão] Paulo, porque a fazenda es-
tava cacetissima e, que talvez viesse no
dia 14. Não sem nesse dia e a 15 re-
cebi uma carta d’ella dizendo que
[05-0173-Página 41]
de facto desejava vir, porem a seu pedido,
resolvera ficar por mais algum tempo e
pedindo-me, que mandasse uns sapatos
fortes para ella, que não podia passar sem
exercicios e uma porção de cousas para si
e para as crianças. Deante d’esta carta
fiquei mais satisfeito, pois Leninha re-
solvera se demorar na fazenda, o que
seria muito conveniente para as crian-
ças. Domingo 19, porem, chegando após
o almoço, em casa, as 2 horas, attendo ao
telephone o Maneco, que me conta estar
Leninha na casa dos avós e fazendo gran-
de barulho, porque eu não fui esperal-a
na Estação. Dizia ter me avisado por
telegramma. Admirado disse ao Mane-
co, que não havia recebido cousa alguma.
Foi Maneco que me disse então, que procu-
rasse aviso, que talvez o telegramma esti-
vesse retido na Estação da Sorocabana.
De facto, estando eu em casa sem em-
pregados, o estafeta não me encontran-
do, deixou atravez a grade do jardim um
papelucho que lá estava junto ao portão,
no meio de reclames de cinemas etc.
Apezar d’ella ja ter soffrido no Rio as
[05-0173-Página 42]
consequencias de chegar sem me avisar,
não se corrigiu, (como não espero que ella
se corrija de cousa alguma) e partiu sem
me avisar com tempo, por carta como éra
natural. Não se rendeu deante a evi-
dencia dos factos, deante do aviso que el-
la teve na mão e escreveu a V[ocê] que eu
propositalmente não tinha ido esperal-a.
Veiu do Pau d’Alho fazendo taes
intrigas de V[ocê] comigo, que resolvi, lá pelo
quarto dia após a vinda della, escrever uma
seria carta a V[ocê]. Tendo porem mostrado a car-
ta a ella, compreendendo o mal que fi-
zera e intimidada começou me agradar,
para que eu não deitasse a carta no correio.
– Esta carta eu li para o avô d’ella e Nhô-
nhô, quando estiveram em casa. – Todas
as noites iamos á casa de D[on]a Ritinha, en-
tão doente. Durante o dia, eu estava
no meu consultorio; as 5, 5½ horas porem
voltava. Éra certo não encontrar Leninha
em casa. Perguntava ás criadas pela pa-
trôa, respondiam – sahiu. As criadas
pouco entendiam dos serviços; apenas uma
vinda do Pau d’Alho estava mais ao par das
suas obrigações. Porem ésta éra uma criança
[05-0173-Página 43]
Quitinho começou a peiorar dos intestinos.
Quando eu chegava da rua, não encontrava
Leninha, as crianças tinham que jantar,
ella não havia designado jantar para elles
e mesmo as vezes falta o que se lhes
fizesse. Após muito esperar, lá pelas 7½
vinha chegando para jantar. Fazia ser a el-
la, que tinha o dia todo para sahir, porem
que a hóra d’eu chegar em casa, queria en-
contral-a. Era peior, no dia seguinte capri-
chara em chegar mais tarde, dizendo que
precisava fazer exercicio, não nasera para es-
tar preza dentro de casa que durante o dia
fazia calor e que só ao escurecer podia
passear. Perguntava-lhe eu, naturalmen-
te por onde tinha andado, respondia: “que
te importa, por ahi”. No dia 29 justa-
mente, tendo eu uma empregada para
encerar o consultorio sahi cêdo de casa.
Quando fui almoçar, Leninha a pretesto
de qualquer cousa, fez uma das suas scenas
habituaes, porem que muito me aborreceu.
Pelas 4½ da tarde appareceu-me no
consultorio. Ao entrar foi dizendo: pen-
sei que isto aqui tivesse gentes. Óra vo-
ce pode avaliar como deve ser doído quan-
[05-0173-Página 44]
do em difficuldades no começo da vida,
justamente de quem deviamos esperar ani-
mo, encorajamento, ouvir-se ao contrario
essas cousas. Pediu-me dinheiro pra fazer
mais comprar para a criadinha. Fiz ver a el-
la que já tinha gasto muito em compras pa-
ra a Maria Eliza, que por enquanto bastava e que
esperasse para o outro mez. Se quizesse de
todo fazer compras que gastasse do que eu ja
lhe havia dado. Foi o bastante para que
fizesse uma d’essas scenas tão proprias d’ella
– o dinheiro que eu tinha éra della, dizia;
eu éra um simples miseravel, bandido, que
se casára com ella por causa da fortuna d’ella,
que eu era um vadio e cousas mais dis-
se desse paez. E sahiu dizendo que iria a
Casa Moraes Burchard, tirar dinheiro, di-
nheiro que éra d’ella. Cheguei em casa,
e tal qual como ella vinha fazendo, tam-
bem nesse dia não estava lá. Chegou fi-
nalmente quando eu a estava esperando
para jantar, passadas as 7½ horas. Depois da sce-
na que foi a do consultorio, esperei que ao
menos nesse dia nada mais houvesse.
Pois bem, foi se sentando a meza e me
dizendo – passeei, fiz isto e aquillo, e es-
[05-0173-Página 45]
tive com o Penteado na cidade…
Se quando noivo eu me mostrei ciumen-
to, depois de casado, porem, nunca tive ciu-
mes. Ao contrario. V[oce] chegou uma ocasião a
me advertir, que eu não devia deixar Le-
ninha andar só pela cidade. Pois bem,
essa historia do Penteado éra uma das mais
ao sabor d’ella. Atirava-me com o nome d’el-
le, para em comparações me deprimir, mal-
dizendo a sua deliberação de impedir esse ca-
samento d’ella. – o Penteado sim, esse teria
sabido comprehendel-a, com esse ella viviria
etc… É excusado dizer, que nunca dei
importancia a essas maluquices. Nesse
dia, ella não satisfeita com o que me ha-
via feito por occasião do almoço, de ter ido
ao meu consultorio so para brigar, de ter vol-
tado para a casa a hora que voltou, por um
requinte de malvadez – pois pensara me
fazer ciumes e soffrer, – vem me fallar no
Penteado. Não dei porem, como das vezes
anteriores importancia ao que ella dizia.
Após o jantar fui até o portão do jardim.
Estava lá, quando me lembrei que o seu
amigo da S. P. R., me havia dicto, que
de quando em vez apparecesse, pois que
[05-0173-Página 46]
de um momento para outro elle poderia
ter opportunidade de me attender. Como
largo do Paysandu fosse ali perto, tomei
o chapeu e fui. Não encontrando quem eu
procurava, estive sentado um pouco no jar-
dim do largo. Pelas 8 2/4 horas resolvi vol-
tar para casa. Não encontrei Leninha. A
cozinheira me disse que a patrôa tinha
sahido. Pelas dez horas vieram as criadas
me pedir roupas de cama para ellas, de que
precisavam e as chaves para feichar os portões
e a porta da rua. Estive medi-
tando a que eu estava reduzido depois
de tres annos de casado – a ter uma
mulher que tornara a minha existencia em
um verdadeiro inferno em vida. Mas ti-
nha supportado muito e, sempre na illu-
são de que ella um dia pudesse endireitar,
continuaria na mesma resignação.
O ultimo facto porem éra inedito – sahir
de casa a noite, se, deixar dicto para
onde ia e carregando as chaves, a indi-
car que eu não devia ir procural-a.
Eu teria amargado mais este travo[?],
se ella ao menos, ao se recolher á casa,
fosse direita para o seu quarto e houvesse
[05-0173-Página 47]
me deixado em paz. Procuraria, como
sempre fiz, fazer ver a ella, que não esta-
va procedendo direito. Não fez assim
infelizmente. Eram ja quasi onze ho-
ras. Eu estava no meu escriptorio espe-
rando que Leninha voltasse. Nisto ouço
um barulho na porta da rua. – éra Leninha
que entrava. Em vez de seguir para o seu
quarto, foi ao meu escriptorio. Abriu a por-
ta e sem ao menos me dizer boa noite, foi
gritando insolenemente “porque não me
foi buscar?” Espera, respondi-lhe, não grite.
Ella disse-me mais qualquer cousa e ia vol-
tando-me as costas. Foi então que, dizen-
do-lhe, “perdão, se ha quem mereça sensura
é você e uma vez que veiu até aqui, es-
pere por que tens que ouvir”, tomei-a pelo
braço e fiz entrar para o escriptorio. – Éra
demais o que ella havia feito nesse dia e
uma vez que ainda veiu provocar-me no
meu escriptorio, que ouvisse o que tinha de
ouvir. Porem ao se sentir tomada pelo
braço, investiu furiosamente contra mim.
Ella vinha envenenando a minha e-
xistencia pondo a prova a maior das pa-
ciencias e eu vinha supportando tudo
[05-0173-Página 48]
ja havia 3 ½ annos. Eu não suspeitava
absolutamente nada d’ella, como creio
que as suas ameaças por occasião do
jantar, éram apenas uma perversidade
a mais. Mas o seu intento, com as a-
meaças e o seu acto de sahir a noite,
éra, suppondo-me occultar um ciume
terrivel, excitar-me, fazer mal. – E em-
bóra a animasse as mais puras in-
tensões, não está no meu feitio, ser
um marido, cuja mulher sahe a noi-
te só carregando as chaves da casa, para
voltar as deshóras. Não sou um covar-
de, nada ha na minha vida que
prove o contrario, não sou nenhum fe-
róz espancador de mulheres, mas tambem
não sou um santo que resignadamen-
te, mansamente se deixe bater pela mu-
lher. Sahiu após pela rua
a fóra, não sei até onde foi. Passa-
dos uns cinco minutos voltou,
apanhou o chapeo e a bolsa que ficaram
no meu escriptorio e disse que se
ia embóra – por meio de palavroes –, atirou
me ainda um socco que eu apenas
desviei. Ja sahindo, voltou e se di-
[05-0173-Página 49]
rigiu ao quarta das crianças. Percebi
que ella descia com alguma d’ellas.
De facto trazia o pobre do Quitinho, ape-
nas com uma camisinha de dormir e
queria leval-o. Interceptei-lhe a sahida
porcausa do menino, que entregou sem
relutar. Disse que se ia. Tive a i-
deia de feichar-lhe a porta e fazer que
subisse para o seu quarto. Porem,
dizendo-me ella que se ia embóra, tive a
visão de haver chegado o termo d’aquella
vida infernal. Se a felicidade, para o res-
to da minha vida embora, fosse uma u-
topia, ao menos uma paz physica, ma-
terial, eu poderia desfructar. A vida co-
mo Leninha m-a fazia, ninguem po-
de desejar. Ia-se embóra, pois que fosse.
Reflectindo porem, vi que ella poderia
ter se dirigido para a casa de algum
parente sensato, que ao menos, antes
de retel-a, tratasse de se informar do
ocorrido, e estive esperando com a
casa aberta até 1½ da madrugada.
No outro dia soube que ella estava
em casa de Eliza… Por occasião
do almoço o C[oron]el Salles esteve lá em casa
[05-0173-Página 50]
Conversamos muito. Contei a elle então,
que no Rio ella ja havia feito a mesma
cousa, apenas não encontrando em nin-
guem apoio ao seu procedimento em me-
nos de doze horas estava em casa, como
se nada de anormal houvesse havido.
O C[oron]el Salles disse-me ao nos apartarmos,
que ia diligenciar, para que a netta voltas-
se para a minha casa. As cinco horas,
chegando em casa, não encontrei as crian-
ças; Leninha, depois de se informar pelo
telephone que eu havia sahido, tinha
mandado buscal-as. Não suspeitando
de tal, eu havia sahido sem tomar
precauções. Desesperado tomei um
auto e fui buscar as crianças. Em
casa de Eliza, fui ter logo com Leni-
nha, dizendo-lhe que os meus filhos
deviam ficar comigo, em minha
casa e, que se ella quizesse ficar
com elles, que fosse tambem para
lá. Mandei a criadinha por tu-
do que éra das crianças no auto-
movel o que ella fez e, tomando
o Quitinho, levou-o também para o
auto. Leninha assistia a tudo
[05-0173-Página 30] Imagem na sequência errada
sem a nada se oppôr. Quando porem lhe
pedi a filha, se oppoz, agarrou-se a criança
e defendeu - para que eu nem ao menos a
tocasse. Só este facto, se toda a vida
de Leninha não fosse a mais acabado obser-
vação de uma criatura cuja moral não
se desenvolveu normalmente, éra o bas-
tante para provar esta affirmativa. Á
menina, que é uma criaturinha sa
dia, engraçadinha, bonita como um
bibellot, ella se agarrou e reteve. O po-
bre do Quitinho feiozinho, doentio, retar-
dado, ella deixou partir, sem siquer
uma unica palavra ou gesto de opposição.
Uma verdadeira mãi teria se agarra-
do ás duas crianças e talvez mais
ao Quitinho, que éra o doente e que
ella devia suppôr precisar mais dos
seus cuidados. A sua irman Nhanhan,
que jamais se mettera na nossa vida quan-
do teria podido nos servir, lá estava em
casa de Eliza – “expressamente para evitar
que eu levasse as crianças”; agradeça a ella
e Eliza, a solicitude com que se mos-
traram n’essa occasião, e a parte que
a ellas deve caber, no resultado final
[05-0173-Página 31]
d’esta questão. Que differença do pro-
ceder de Julia e Nhozinho, no Rio, que
solicitadas aos gritos exagerados de Leninha
pelo telephone, disseram que iam lá
etc, mas, deixaram-se ficar em casa,
no outro dia Leninha estava as bôas
com o marido. E eu não posso jamais
deixar de querer bem a estes dois.
No dia seguinte Nhônhô foi
me procurar, afim de que eu entregas-
se o menino á mãi. Fiz ver a elle co-
mo me seria doído me separar de uma
só vez dos meus dois filhinhos. Passa-
dos dois dias, voltou com o C[oron]el Salles. Dis-
se-me elle que eu entregasse o Quitinho
e que elle se incumbiria, de fazer Leni-
nha partir para o Pau d’Alho com as crian-
ças. Cedi e no dia immediato fui
com o C[oron]el Salles levar o menino para a
casa do Octavio Mendes e logo soube
que Leninha não mais iria para o
Pau d’Alho, porque tia Isaura partira de
lá etc. Soube posteriormente,
que V[ocê] vindo do Pau d’Alho, Leninha
estava em sua companhia e que
se tratára de arranjar uma casa.
[05-0173-Página 39]
Estes pobres zinhos, ao que me pare-
ce, apenas reflectem como espelhos, o
estado de animo que por ahi vae
contra mim e mostram-me, como
não devo esperar qualquer inicia-
tiva que me seja favoravel.
Que fazer finalmente? Ir por exem-
plo a Voce pedir que me desse por
qualquer modo uma das crian-
ças, o Quitinho, naturalmente,
porque este seria o unico meio
que eu via, de privando Leni-
nha de um filho corrigil-a e
fazel-a vir a mim? Deante
da sua attitude, me pareseu pou-
co viavel esta hypotheze. Cruzar
os braços deante dos factos e mos-
trar-me conformado, tambem não
é possível. Chegado a este ponto,
deseperançado em absoluto, lan
cei mão do ultimo recurso.
Procurando divorciar-me, disse
ao meu advogado, que fizes-
se o possivel por obter o desquite
amigavel e que nestas condic-
ções eu apenas desejo que me
[05-0173-Página 51]
seja entregue o filho mais velho,
que tem agora tres annos. Sobre
o restante eu não faria questão
alguma. E é o que eu venho
dizer agora.
Quito
São Paulo, 5 de Julho de 1918
(rua Libero Badaró nº 140)
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Francisco Vieira de Moraes – Quito
Helena de Moraes Barros – Leninha
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Manuel Elpidio de Queiroz – Maneco
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
Paulo de Moraes Barros Filho – Hominho
Prudente de Moraes Filho – Nhosinho
[Envelope com selos e informações datilografadas. No centro do envelope, em vermelho, manuscrito posterior: “Quito”]
Ill[ustríssi]mo S[e]n[ho]r
D[outo]r Paulo Moraes Barros
Avenida Bartholomeu de Gusmão nº 54
SANTOS
[05-0173-Página 02 - envelope]
[Carimbo do correio de Santos, com a data de 6 de julho.]
[05-0173-Página 03]
São Paulo, 5 de Julho de 1919.
Paulo.
Cumprimentos.
Depois dos ultimos factos relativos á sua filha
e a minha pessôa, parece que seria ridiculo,
ao iniciar o meu divorcio, escrever-lhe uma car-
ta, onde justificasse esse meu proceder. Atten-
dendo porem ao trato que Voce sempre me dis-
pensou quando foram boas as nossas relações,
julgo ainda cabivel uma explicação. Mesmo
porque, creio não estar Voce bem ao corrente dos fac-
tos. Apezar de Pae e de lhe assistir toda auto-
ridade, Voce jamais procurou intervir nem
no que discessi ao bem estar do casal, nem
ao que respeitasse ao nosso intimo viver. No
entanto, não posso admittir, que no tocante a
esta ultima parte voce fosse completamente ig-
norante, pois o contrario diz, uma carta que voce
escreveu ao meu Pae. Não me lastimo muito
déssa sua attitude, pois a mim me dava a intuição
de que voce me julgava capaz de por mim só me
haver na vida. Mas no desenlace que teve o meu
malfadado casamento, é bom que se apure as cul-
pas. Ainda mais, eu encontrei a minha
[05-0173-Página 04]
mulher na sua casa e Voce foi encontrar a sua
filha separado de mim e na casa de uma tia.
É forçoso portanto que se ponha tudo as claras e ca-
da um assuma a responsabilidade que lhe ca-
be.
Viria tranquillamente no Rio, onde apezar de
longe da familia e parentes, ia encaminhando
a minha vida, modestamente, como podia.
Não lhe conhecia pessoalmente e ignorava que
tivesse filhas e – casadeiras. Ja havia mais de tres
annos que me formara. Neste interim recebi
um pedido de Mimi, meu irmão, para que lhe
mandasse o certificado da minha nomeação
para professor livre da F[aculdade] de Medicina do Rio de
Janeiro, trabalhos etc, que serviriam de ba-
ze com que elle e Nhônhô iam tentar
me transferir – e com vantagem – para S[ão] Pau
lo. Mandei alguns escriptos meus, a cer-
tidão pedida, um parecer da congregação
a meu respeito etc, sem de leve suspei-
tar do verdadeiro intuito do tal pedido.
Tendo vindo a S[ão] Paulo trazer uma das mi-
nhas irmans, que eu tinha levado ao Rio
afim de tratar da saude, fui sorprehendido com
a noticia, de que Você me convidara para
um jantar em sua casa. Foi então que
[05-0173-Página 05]
meu pae disse-me qual as intensões delle e
os que animaram á familia Moraes Barros.
Não tendo compromisso de especie alguma, em-
bóra extranhasse o que me propunham, achei
um certo sabor exquisito nesse modo a antiga,
dos paes promoverem o casamento dos filhos. Por
infelicidade, agradou-me a pretendida noiva.
E levado por uma serie de sensações novas para
mim, deixei-me conduzir. A medida
porem que ia conhecendo a sua filha, fui no-
tando nella excentricidades. – Um dia pergun-
tando-me ella mesma, que pensava eu de festas
e bailes, respondi-lhe, que gostava e muito. Mas
um tanto ciumento, disse a ella que, uma vez
compromettido com alguem, não poderia achar pra-
zer em festas, onde esse alguem faltasse. Expon-
taneamente ella me disse, que tambem não mais
iria a festas onde eu não estivesse. Passados dias,
ainda não éramos officialmente noivos, ja o eramos
porem pelo mutuo compromisso, recebi d’ella uma
carta, contando-me que tinha ido a um grande
baile e que se divertira muito. Vendo a contra-
dicção entre o que ella mesmo me dissera e o que
acabara de contar, extranhei sobremodo e, si pa
qui não seria ella a mulher que se offises-
se ao meu modo de ver as cousas. Éra
[05-0173-Página 06]
tempo para voltar atraz e continuar a viver tranquillo
como antes vivia. Escrevi a ella uma dessas car-
tas difficeis de se escrever (pelo qual voce me
classificou de ciumento feroz etc) pedindo
devolvessemos as nossas correspondencias, pois a
minha tentativa, outróra baseada na mais pura
das intensões, não éra viavel. Não obtive respos-
ta, o que me admirou, pois a menor dose de a-
mor proprio, indicava uma devolução immedia-
ta das cartas pedidas. Passados oito dias, escrevi
novamente um cartão insistindo no meu pedido
e fazendo ver os inconvenientes de retermos, um
correspondencia do outro. Ainda não obtive res-
posta. Escrevi novamente; agóra apenas um car-
tão, onde até o meu nome riscara!.. Isto foi
por fins de Novembro, começos de Dezembro de 1914.
No dia de Natal desse anno, quando não mais
pensava nessa minha tentativa de casamento, rece-
bi de Leninha uma carta repassada de queixumes
e um pedido que não insistisse em romper com
ella. Extranhei os termos da carta e a achei de
uma humildade sem por… (Posteriormente
Leninha contou-me, que essa carta lhe fôra
dictada). Não respondi. No dia 5 de Janei-
ro de 1915, de passagem para Pirassununga, do
“Hotel do Oeste”, telephonei a ella, dizendo, me achar
[05-0173-Página 07]
em S[ão] Paulo, trazer comigo cartas e retratos que d’ella
possuia e que éra ocassião de cada um ficar com
o que éra seu. Disse-me ella, que só eu indo
pessoalmente levar as cartas d’ella e buscar as mi-
nhas. Não suspeitando de nada fui. Ella rece-
beu-me, atirando-se nos meus braços. Verdadei-
ramente transtornado só admitti como solução
pedil-a em casamento no mais breve tempo possi-
vel. Estavamos noivos. Em sete
de Maio vim a S[ão] Paulo, a pretexto de passar
com o Paulo II o anniversario d’elle. A oito
realisou-se em casa do S[enho]r José Paulino um
grande baile e no Rio casara-se um meu
companheiro de trabalho. Não podendo ficar
em S[ão] Paulo, parti no dia 7 mesmo para o
Rio. No dia 10 de Maio, recebi uma car-
ta de Leninha, dizendo que tinha se rea-
lizado o grande baile e que ella a elle com-
parecera. Não queria ir, porem V[ocê] a tinha
obrigado, allegando ser um Secretario, não
podendo porisso se furtar à Sociedade e
que devido a sua condicção de viuvo,
ella como filha mais velha, devia acom-
panhal-o. Foi obrigada a ir, dizia, e dera al-
guns pormenores da festa. Deante dessa
carta escrevi a V[ocê] como a situação indi-
[05-0173-Página 08]
cava, lembrando o que de desagradavel ja se
tinha passado entre nos por causa de bailes etc,
e pedindo, que não mais a obrigasse a ir
a festas. Respondeu-me V[ocê] que apezar da
sua filha ser minha noiva, não tinha
abdicado os seus direitos de pae. Repon-
di e então em termos incisivos, deploran-
do o incidente e dando por disfeito o meu
compromisso de casamento com a sua filha.
(Disse-me posteriormente ella, que esta mi-
nha carta, chegando á sua casa quando Você
se achava ausente, ella a interceptara).
Qual não é a minha sorpreza quando pas-
sados dias, recebo nova carta de Leninha,
dizendo que não fôra a baile nem a cou-
sa alguma e, que havia escripto aquella
carta, para me submetter a uma prosa (?)
e que antes de nos casarmos, eu teria que
passar por outras ainda!.. Não respondi,
quedei-me certo porem, que o meu casa-
mento estava definitivamente desfeito e
communiquei o facto aos meus paes.
Nova sorpreza me reservava o mez de Ju-
nho, quando recebi de Você uma car-
ta dizendo que tinha lido parte da corres-
pondencia trocada entre eu e Leninha
[05-0173-Página 09]
e que pela rudeza d’ella, receiava sobre o
nosso futuro. Com toda a lealdade es-
crevi a Você, dizendo que ja ha muito es-
tava conformado com a solução que me sug-
geria, que estava de pleno accordo em desman-
char esse casamento, acreditando que essa sug-
gestão éra calcada na sua intelligencia,
conhecimento pleno da filha, experiencia e
consciencia enfim. Se fosse me dado um
alvitre porem, lembrava, que não deviamos
tomar resoluções tão radicaes, sem um en-
tendimento a viva voz. Passados dias
recebi outra carta sua, dizendo que o meu
casamento não podia se realizar a 21 de Ju-
nho de 1915 como estava marcado, que
ficara porem para mais tarde!... Não sou-
be como julgar factos tão disparatados co-
mo os que vinha presenciando. Apenas
resolvi feichar os olhos e sem medir con-
sequencias nem ajuizar sobre cousa al-
guma e casar-me. Tinha um in-
timo prezagio que para o futuro ainda
siria o desfructar uma vida tranquilla.
– Casei-me finalmente tendo conhe-
cido minha mulher menos de um
anno antes, após ter me encontrado
[05-0173-Página 10]
com ella ella 10 vezes apenas e de ter pro-
curado romper o contracto de casamen-
to duas vezes. Só então fui
verificando, com a amarga experiencia
de cada dia o grande passo em falso
que havia dado. Durante tres annos
e meio de casado jamais vi Leninha con-
tente. Sempre revoltada contra tudo e
contra todos, sempre tendendo a seguir
em direcção opposta á aquella que a me-
nor parcella de bom senso indicaria. Sob
aquella mascara de meiguice e tom cho-
roso, occultava de facto uma indole má.
Oppunha difficuldades na realisação das
mais insignificantes cousas, tinha o hu-
mor constantemente irritado e – porque
não dizer – um certo prazer em contra-
riar o marido. O que foram as diffi-
culdades para se escolher uma casinha
e mobilial-a, não se descreve. Tudo ella
achava ruim, tudo éra caipira; para
ajuizar sobre um objecto e para por elle
propender, só tinha um criterio – o
custo caro. Mas nunca cheguei
ter casa organisada. Não podendo
dispender como um nababo, mui-
[05-0173-Página 11]
ta cousa não se chegou a comprar, por
ella só querer o que custasse caro.
Descontente com a casa não cuidava d’esta,
e, éra preciso que nas minimas cousas,
eu estivesse a cada passo intervindo.
De casinha nada entendendo, cheguei
eu mais de uma vez – parece caçôada –
até nisso a intervir e comemos do que
eu ensinava uma criadinha a fazer!.....
Não tendo o menor espirito de economia,
não sabendo cozer, aos poucos nas suas ves-
tes ia-se notando um certo desmanzelo e,
para que na sua propria roupa fosse pre-
gado um botão éra preciso que alguem
o fizesse, que se pagasse. A vida assim
tornara-se indiscutivelmente carissima.
Desculpava-lhe eu isto. Foi criada em
hoteis e pensões, jamais viveu a vida das
familias brazileiras. A educação que
teve foram uns europeis, porem jamais
vizou fazer d’ella uma futura dona de
casa. Ella se apresentava portanto com-
pletamente incapaz para dirigir o seu
lar, consoante o casamento que fizéra;
fosse millionaria, pudesse jogar tudo,
assim estaria bem. Veiu-lhe a gravi-
[05-0173-Página 12]
dez. O seu descontentamento e mau hu-
mor augmentaram; o descaso pelo seu lar
ainda tornou-se maior. Consigo então
tocaram as suas irregularidades ao ex-
tremo. Em via de regra não se despia
a noite para se deitar, estivesse com o
vestido que estivesse, assim se atirava ao
divam do meu escriptorio ou na cama
e assim ficava. E só ao cabo de muito
pedir, de ouvir muita grosseria, conseguia
que se despisse. Isto éra todo dia. A gra-
videz naturalmente, a quem ainda soltei-
ra mal se aprumava, viera transtornar
mais. Assim eu pensava, esperando pelo
parto d’ella como pela redempção. Os fac-
tos nesse periodo são inenarraveis. Bas-
ta citar o seguinte, para se ajuizar da tor-
menta em que se vivia: Tendo ella
recebido a mobilia que encommendara
para a sala de jantar, durante a arru-
mação, collocou um faqueiro em meio
d’uma das portas que davam para a sa-
la. Vendo eu, que nesse lugar o movel
difficultara a passarem, perguntei a ella
onde queria que o collocasse. Disse-me
que o deixasse; ella sabia onde devia col-
[05-0173-Página 13]
local-o. Insisti e obtive a mesma resposta.
Apesar disso desviei o faqueiro da porta e
o colloquei contra a parede do quarto con-
tiguo a sala. A noite, estando no meu
escriptorio, ouvi barulho e percebi, que des-
ciam a escada com alguma cousa mui-
to pesada. Era Leninha, que gravida de
oito mezes, descia com uma criadinha
o faqueiro pela escada abaixo! Ralhei
com ella por essa extravagancia e, com a
criada, conduzi o faqueiro para o meu
escriptorio, para onde ella o destinara.
Voltei a estudar e ouço então um ba-
rulho de quem quebra louças, no an-
dar superior. Subi ás pressas e vou encon-
trar Leninha no meio dos destroços de
um apparelho de toillet, cujas peças ella
ia quebrando arremessando tudo con-
tra as paredes e o assoalho! Conduzi-a
ao quarto, procurei acalmal-a e fiz dei-
tar-se. Estava fazendo aquillo porque
eu a deixara gravida estar carregando
moveis…. Temi com essa crize um abor-
to e tambem pela sanidade mental
d’ella. Approximava-se o parto.
O pae d’ella partia em viagem de recreio.
[05-0173-Página 14]
Das tias, essas mesmas dentre as quaes
houve agóra que se mostrassem mui
alviçoreiras em amparal-a contra a furia
do marido, não houve uma siquer que
se offerecesse, que fizesse o menor acêno,
para assitir a sobrinha, que ellas bem
sabiam incapaz de se haver por si só
em tal emergencia, que precisava de
qualquer modo ser assistida por uma
pessôa pratica, que a auxilliasse, que
lhe desse o conforto moral que ella ca-
receria. Houve no entanto uma pes-
sôa por bem idosa, doentia e que tinha
na sua casa, quasi moribundo no lei-
to um filho, que attendendo ao meu
pedido, partiu sozinha e foi ter de Pi-
rassununga ao Rio, para assistir Leni-
nha. Essa pessôa bem se vê foi minha
Mãi. Agravando-se sobremodo o esta-
do do meu irmão doente, minha Mãi
foi obrigada a deixar-nos antes do dia 12
de Maio, quando Quitinho nasceu.
No dia 20 desse mesmo mez morria
o meu querido irmão. Nascido o
filho, em Junho do mesmo anno
os meus paes foram até o Rio, afim de
[05-0173-Página 15]
baptisal-o. Como éra natural se hospe-
daram em casa, onde passaram 15 dias.
Afóra mais uma temporada que Sylvia, mi-
nha irman, foi passar comnosco no Rio,
a meu convite e para fazer um pouco de
companhia a Leninha, não existe mais
contacto algum da minha familia
e minha mulher. Pois bem, essa gen-
te, a quem ella só devia attenções, éra o
objecto predilecto das suas imprecações: se
minha Mãi fôra ao Rio, para assistil-a,
porque eu pagara as despezas com o
dinheiro d’ella Leninha; que minha
Mãi havia levado com objectos seus uma
mala que não restituira… sempre
pequeninos causos, mesquinhezes.
Ainda agóra, ao partir para o Pau d’Alho,
tanto fallou na tal mala – uma velha
mala de mão, quasi imprestavel – que
para continental-a comprei outra, sem a-
lilás precisar. Costumava dizer, que, se
o que tinhamos não chegava para viver-
mos, era porque eu desviava dinheiro
para a minha familia; sempre estas mi-
zerias a atormentar-me. De uma fei-
ta, em vesperas de nos separarmos, em
[05-0173-Página 16]
casa do C[oron]el Salles, dizia a este e em minha
presença, que elle bem sabia porque eu
éra tão sovina: precisava de dinheiro
para a minha familia e para as amantes.
Esta linguagem, estes modos ella os
tinha com grande desembaraço, modos
e palavras tão improprios para uma mo-
ça, sobretudo para quem, como ella, fazia
gosto dos seus oito annos de educação
na Europa.
Prosseguindo na narrativa que vi-
nha fazendo, logo nos primeiros me-
zes após o parto, Leninha não teve mais
leite com que amamentar o filho. Re-
solvi o pretesto de assistir a um Congres-
so Medico, vir até S[ão] Paulo em fins de 1916.
Aqui, visto o menino pelo Galeno, este
aconselhou que lhe dessemos ama de lei-
te. Arranjou-se uma regular como
ama, porem boa pessôa. Partimos após
para o Rio. Lá continuou o mesmo
viver irregular, as mesmas queixas, as
mesmas malcreações, as mesmas ques-
tões de dinheiro sempre etc. Se as
criadas nunca a puderam aturar, a
ama tambem não poderia. Logo come
[05-0173-Página 17] Imagem de cabeça para baixo
çou a se emplicar com a ama. Éra pre-
ciso que a todo momento eu estivesse har-
monisando, fazendo ver a uma e outra o
que éra justo, afim de não privar o meni-
no do leite que carecia. Mas Leninha ca-
da dia se tornou peior. Uma noite, pela
1 hora, o menino acordou. A ama depois
de ter trocado os paninhos deu de mamar
a elle e o estava acalentando no berço. Eu
estava acordado. Nisto Leninha se levan-
ta de subito, corre para o quarto do meni-
no aos gritos com a ama a quem agride
a bofetadas… Corri a separar Leninha da
pobre mulher que chorava desesperada-
mente. Não sei se foi uma manifesta-
ção epileptica, o que foi enfim. Só sei
que a custo consegui Leninha voltasse pa-
ra a cama e que a ama não deixasse a
nossa casa aquella hóra da noite, o que
aliás fez no dia seguinte. – Depois
de tentarmos arranjar ama no Rio mesmo,
pedimos para S[ão] Paulo outra ama. Foi des-
ta vez uma rapariga forte, examinada –
sangue e leite pelo Braz – que nos pres-
tou bons serviços. Lá chegada, a mesma
cousa se dava com ésta. Leninha em
[05-0173-Página 18]
poucos dias começou a se implicar com a
mulher, que pouco depois de um mez voltava
a S[ão] Paulo. Tendo se empregado em casa de u-
ma filha do Firmiano Pinto, esparramou aqui
em S[ão] Paulo, que a moça com que estivera
no Rio éra louca… Quando Sylvia
minha mana esteve no Rio, um bello dia ao
nos levantarmos como Leninha ficasse na
cama e ja fosse quasi oito horas, estando me
apromptando para ir para o trabalho, dei-lhe
uma leve palmada, dizendo: “acorda dormi-
nhoca”. Não sei como ella interpretou o meu
brinquedo. O facto é que num verdadei-
ro impulso levantou-se da cama d’um
salto e se atirou sobre mim furiosamen-
te. Fiz ver a ella o desarrazoado da zanga
e a desproporção da reacção d’ella, quiz acal-
mal-a, disse que estava brincando; mas
não houve meios de acalmal-a. Passados
momentos quiz me agredir outra vez;
evitei, sempre procurando acalmal-a.
Ao entrar porem, passado mais ou menos
uma hóra, no quarto de toillet, ella
que estava de dentro, desferiu-me um
golpe com um grampo que tinha na
mão. Então, sendo que não era mais
[05-0173-Página 19]
possivel estar com meias medidas, tomei-a e-
nergicamente pelos braços, tirei-lhe o grampo,
fil-a sentar-se numa cadeira e ralhei
como devia com ella. Desandou então a
chorar, fez barulho e disse que viria para S[ão]
Paulo. Vestiu-se e não quiz almoçar. Recom-
mendei a Sylvia que não dissesse uma unica
palavra e o mesmo fiz eu. Após o almoço Sylvia
foi para a casa de uma amiguinha e eu
desci para o meu escriptorio onde passei o
dia. Leninha com grande escandalo fez
as malas espalhando tudo que lhe não
interessava pela casa e após tomou um
automovel e partiu com o filho. Por on-
de andou não sei. Ao escurecer chegou
á casa, mandou abrir largamente o
portão, collocar junto d’elle as malas e
tudo isto, debaixo de imprecações terriveis, com gran-
de espanto dos vizinhos, que não comprehen-
diam aquillo. Não jantou em casa.
Eu e Sylvia assistiamos a essas scenas
como dois mudos, como se nada tives-
semos com o que se estava passando.
Lá pelas oito horas da noite, um outro
automovel estava parado na porta da nossa
casa. Eu estava escrevendo no meu
[05-0173-Página 20]
escriptorio. Nisto Leninha completamente
paramentada para viagem, approximou-se
de mim e disse que vinha se dispedir.
Disse-lhe então eu, que deixando ella a
casa como deixava, não tinha que se dis-
pedir e que podia ir. Ficou a principio
muito desconcertada e, após, num repente
atirou-se a mim aos abraços, pedindo que
a desculpasse. Aproveitamos o automovel
para ir até a “Central”, nos desfazer da pas-
sagem que ella tinha comprado. Após fez
questão que fossemos a um cinema.
Passamos alguns dias de relativa cal-
ma; logo porem começou outra vez com
as suas irregularidades. Depois que
batera na pobre da ama ficou valente. A
todo momento dizia que não estava mais
para tolerar ninguem: “se a tia Nhanhan
ja ameaçara de bater uma vez e ao Tio Nho-
nhô ja havia dado um tapa, as outras não
eram mais que estes”. E assim um
certo dia quasi foi as vias de facto com
uma costureira, tendo chegado em casa
num assomo de cólera, contando o succe-
dido.
Em Maio de 1917 estando me preparando
[05-0173-Página 21] Imagem deitada.
para um concurso adoeci de grippe e a conselho
do P[rofe]ssor Austregesibo, resolvi passar no Pau d’Alho
uma temporada. Como não quizesse perder
tempo e estivessemos em vesperas de nos mu-
dar para o Leme, parti antes, deixando Leni-
nha em companhia de Sylvia, esperando que
os retoques na nossa casa terminassem e
pudessem fazer a mudança. Éra questão de
dez dias no maximo. Leninha contudo dei-
xou-se ficar no Rio 18 dias e partiu pra São
Paulo sem mudar cousa alguma, tendo lá
se demorado o tempo necessario para fazer ves-
tidos e nada mais. – Uma vez em S[ão] Pau-
lo deixou-se ficar em casa do Octavio Men-
des e só foi para o Pau d’Alho quando ja
fazia um mez que eu lá estava e após
eu ter escripto a ella em termos mui-
to energicos. É verdade que eu não es-
tava propriamente doente e apenas en-
fraquecido por uma grippe, excesso de preo-
cupações e um pouco de estudos. Mas não
era o conceito que ella fazia da mi-
nha saude, pois ao irmão e parentes
dizia-me tuberculoso e escarrando
sangue. Era qualquer outra mu-
lher que fizesse tal juizo da saude do
[05-0173-Página 22]
marido seria a primeira a acompanha-
lo e o cercar dos cuidados que precisasse.
De volta a S[ão] Paulo não quiz seguir
comigo para o Rio, queria ficar mais al-
gum tempo. Apezar do inconveniente
de ter ella de fazer viagem só cedi e
parti. La estava eu, quando uma bel-
la manhan, pelas dez horas e meia, en-
trou Leninha pela casa adentro blas-
phemando dizendo-me palavrões, que
eu bem sabia que ella devia chegar e
não fui esperal-a na Estação etc; d’ahi
ter chegado só naquella hóra, pois o
choffeur andou dando voltas com ella.
Fiz ver que ella não me havia escrip-
to nem telegraphado como fôra sensato.
Dizia ella que o Hominho havia tele-
graphado que eu bem sabia que ella
chegara e que fizera de proposito. – Pelas
onze horas chegou um telegramma,
era o de Hominho e foi ella mesma
que o abriu. Não se dando por ven-
cida, disse que Hominho devia ter
passado dois telegrammas…. – Homi-
nho, quando o vi pela primeira vez a-
pós esse facto, disse que Leninha não
[05-0173-Página 23]
queria que me avisasse por forma algu-
ma, pois queria chegar de sorpreza para
ver o que eu estava fazendo! Elle havia
telegraphado depois que Leninha embar-
cou. Dois mezes após, quando Córa foi
passar connosco uns dias no Rio, as
malas da mudança e as que Leninha
trouxera de S[ão] Paulo, ainda estavam jun-
to a escada, perto da porta de entrada da
casa. E por ahi Você pode avaliar como
ella se interessava pela casa.
Agóra a queixa não éra mais contra
a casa. Dizia que no Rio ella seria
sempre assim e “cada vez peior” (sic.), que
me mudasse para S[ão] Paulo. Este passou
a ser o thema de todos os dias, o estribil-
lo de todo momento. Leninha es-
tava gravida e a espera do nascimen-
to do segundo filho. A vida em casa
continuava a ser o mesmo martyrio.
Havia ja uns oito dias, que se ella me
fallava éra apenas uma ou outra cou-
sa, para se queixar ou se mostrar
zangada. Certa manhan, ao
me levantar, ella disse que não fizes-
se barulho, que não acordasse o me-
[05-0173-Página 24]
nino, que não éra hóra, uma cousa incri-
vel, enfim. Nisto a creada entrou no nos-
so quarto com o menino ja prompto para
descer para o café… Desci mais cedo que el-
la; fui chamado ao telephone: éra o P[rofe]ssor
T. Brandão que me chamava a casa d’elle
e eu disse que iria logo. Voltei a me ves-
tir, quando ouço, isto pelas oito e meia,
uma choradeira no andar terreo. Desci
a ver o que éra. Éra Leninha. Tinham
chegado D[on]a Bellinha Godoy e Judith, chama-
das pelo telephone por Leninha, que sen-
tira approximar-se o parto. A mim no
entanto não havia dicto uma unica
palavra. Avisou-se a parteira e medi-
co, pedi a D[on]a Bellinha, tudo em casa es-
tando prevenido, que ficasse lá um pouco
enquanto eu corria a casa do P[rofe]ssor T. Bran-
dão, de quem eu estava tratando uma
das filhas, que, posteriormente, veiu
a fallecer. Em menos de uma ho-
ra eu estava de volta, a parteira ja lá
estava e o parto parecia só vir lá pelo
meio dia. Tivemos tempo de almo-
çar; ás 12½ chegou o medico e pou-
co antes de 1 hora nasceu Elizinha
[05-0173-Página 25]
Ella tinha sido tão injusta e perversa
com a minha mãi, que não quiz a-
buzar da paciencia d’esta, da sua extrema
bondade, fazendo-a novamente vir ao
Rio para assistir á nóra. Aos demais
parentes eu não me animaria pedir
que viessem. Eis o que ella invoca
para accusar-me de a ter abandonado
no dia de nascer a filha.
Passado este periodo começou ella ou-
tra vez com as suas historias. Que se
casara porque Você promettera que ella só
ficaria no Rio um anno, que após tra-
taria de me fazer mudar para aqui,
que fôra enganada, que se soubesse que é-
ra para viver no Rio, jamais se casaria
comigo e que se eu a quizesse ver diffe-
rente do que era, que me mudasse para
S[ão] Paulo. É verdade, que ja em sol-
teiro eu havia manifestado desejo de
me mudar para S[ão] Paulo; mas n’a-
quella épocha, pesando bem as cousas, eu
estava firme em permanecer no Rio
pelas razões que adiante exponho.
Porem na vaga esperança de que
ella aqui em S[ão] Paulo mudasse de
[05-0173-Página 26]
indole e procedimento, de que pelo exemplo
e conselho dos parentes ella pudesse me-
lhorar, depois de muito reflectir, escrevi
ao D[outo]r Franco da Rocha. Eu ia dei-
xar o Rio e um começo de vida de al-
guns annos. Ia transportar-me para
um meio completamente diverso d’aquel-
le em que estava vivendo, ferindo direc-
tamente os meus interesses, porque ia dei-
xar dois lugares que me rendiam 800$
por mez, por um de 350$ aqui em S[ão] Paulo.
Ambos os lugares que eu lá occupava,
um dos quaes hoje victalicio e outro
em vesperas de o ser tambem, rendem
actualmente 900$ ao meu substituto.
Novas relações, novos conhecimentos,
despesas de mudança, nada obstou
que eu tomasse éssa resolução, uma
vez que eu via nisso, uma vaga es-
perança de endireitar Leninha, por
ter feito a vontade d’ella. Você mes-
mo, eu sei não éra de opinião que
eu me mudasse. Depois de algu-
mas difficuldades, Leninha partiu.
Não quiz viajar pela Central, quiz
vir por mar e veiu. Terminados os
[05-0173-Página 27]
ultimos affazeres que me prendiam ao
Rio, parti tambem. Pareceu-me que
Leninha tinha vindo contente. Che-
gando a S[ão] Paulo, a sua casa e ines-
peradamente, Leninha recebeu – com ef-
fusão, muito satisfeita. SInhá então,
deante da scena da minha chegada,
teve para Leninha, mais ou menos es-
tas expressões: “não acredito no que
estou vendo, pois neste momento
você estava fallando tanto mal
de Quito”. E contou-me após, que
Leninha tinha durante os todo o
tempo se queixado, fallado dos maus
tratos que eu lhe dava e, até que
batia nella…. E, assim sempre fez.
Quando eu pensava que tudo ia
muito bem, Leninha, sem motivo
algum, ia fallar mal do marido
aos parentes. O que foram os dias
que passei em sua casa você deve
saber. V[ocê] viu no principio, quan-
do a minha nomeação periga-
va, como ella procedeu, só fallava
em nos separarmos e uma vez,
aé na sua prezença á meza, fal
[05-0173-Página 29 - imagem na sequência errada]
lou nisso. Depois foram as diffi-
culdades para se arranjar uma casa.
Arranjada esta, Leninha não ia lá,
para ver o que se fazia e precisava fazer.
Afinal em fins de Julho, estando
prompta a casa, não havia mais
razão para não nos mudarmos. Como
Leninha oppuzesse difficuldades, resol-
vi a 28 de Julho mudar-me, indo a-
penas tomar as refeições em sua casa.
E lá fiquei até 22 de Setembro, quan-
do finalmente Leninha appareceu de
mudança, queixando-se de Sinhá,
a quem naturalmente fizera algu-
ma das suas. Faltava ainda algu-
ma cousa para a casa, porem ia-se
comprar éra impossivel, pois Leninha tu-
do queria em desaccordo com as suas
posses; assim tapetes etc. Os passadores
para a escada e corredores, que não
se comprou porque ella escolheu um
de 20 e tantos mil reis o metro, quan-
do desde 5$ o metro existe. Não encon-
trava criados que servissem e de 22
de setembro a tres de dezembro, quan-
do partiu para o Pau d’Alho teve vin-
[05-0173-Página 28]
te e uma criadas entre cozinheiras,
copeiras e amas seccas.
Por occasião da grippe o que se pas-
sou em casa, não destoou do commum.
Deste tempo podem informar Córa e
Nônô que lá estiveram, attendendo
ésta a um meu pedido e, Córa, tendo
vindo expontaneamente. Porem não
devo deixar de me referir a alguns
factos. Tendo a irman e a tia vindo
nos soccorrer, pois que tambem eu es-
tive doente, Leninha foi para ellas de
uma ingratidão e malvadez sem par:
“Não tinha pedido a ninguem que se-
fosse metter em casa d’ella, que não
precisava de intrusas que só serviam
para por tudo em desordem e aborrecel-
a e, que se fossem embóra, que éra o
melhor que tinham a fazer”. Desobe-
decia a todos e as prescripções do me-
dico – o Galeno e de tal modo se tor-
nara malcriada, que um dia Córa
resolveu chamar Jorge, que viesse acu-
dil-as, porque não podiam mais com
Leninha. Jorge veiu e reprehendeu-a
asperamente, dizendo mesmo que o
[05-0173-Página 32] Imagem na sequência errada
para ella. Ja se passam déstes ul-
timos factos cinco mezes. Tive por
essa occasião a opportunidade de
ouvir a opinião, o juizo que sobre elles
faziam alguns dos mais sensatos
parentes de Leninha entre estes tios
paternos d’ella. A grande culpada é
ra Leninha. Houve d’entre esses a que
me referi, que se lembrasse, de uns
tres mezes que Juquery para corrigil-a.
Reconhecendo como eu, que ella não
tinha a sua esphera moral desen-
volvida a ponto de poder avaliar a
situação que se creára, de ser inca-
paz de sentir a tristeza da sua con-
dicção social futura e dos seus filhos,
só uma privação de aspecto material,
de prazeres, de bem estar, pudesse co-
rigil-a. Foram unanimes em con-
cordar, que uns 6 mezes ou um anno
de fazenda, fosse bastante por dar a
ella um pouco de juizo. Prival-a ma-
terialmente, castigal-a emfim, em
beneficio d’ella. Privações d’outra es-
pecie ella éra incapaz de sentir.
Estavam de accordo com esta
[05-0173-Página 33]
resolução, mas, quem seria capaz
de ir dizer a Você? Julgaram V[ocê] bas-
tante abatido por desgostos e doenças.
E ficaram, creio, como os ratos da
fabula, que descoberta a grande ideia
do guizo, não encontraram quem o
amarrasse ao pescoço do gato.
Vocé é foi além do mais desconhe-
cedor dos pormenores da triste historia
que lhe acabo de contar e portanto ja
esperava que desse razão a filha.
Porem sempre esperei do seu crite-
rio, que tendo de servir de juiz, como
fatalmente está servindo nesta ques-
tão, não chegasse a julgar, ouvido ape-
nas uma das partes; que não quizesse
me julgar um malvado commum,
que espanca a mulher, só porque isto
diz a sua filha, quando o facto não
foi presenciado por ninguem e eu
tenho sempre affirmado, que não
se passou como ella conta. Procu-
rei viver num verdadeiro isolamen-
to como tenho vivido e, vi decorrerem
cinco mezes, que se para a sua fi-
lha devem ter sido muito breves,
[05-0173-Página 34]
que, se para V[ocê] que não pode sentir
como eu hão de ter passado, mais
ou menos como os outros, para
mim representam uma eterni-
dade. Esperava a todo momen-
to como um vizionário por al-
guem, por voce, por quem mes-
mo – não sabia, que interviesse
no meu caso, pela sorte de u-
ma desajuizada e das duas
crianças. Porem nada. Ao
contrario d’aquellas medidas
lembradas, seja a principio a sua
filha passear aqui em S[ão] Paulo;
depois partir para Santos, para uma
estação cheia de banhos. Mesmo
assim esperei e pensava: o Paulo
não pode julgar sem me ouvir;
não pode desejar ver crescerem as
crianças, tendo os paes separados, sem
tentar corrigir essa situação. talvez
chegue a reconhecer que a filha
não pode ter as regalias, de uma
pessôa de identicas condicções,
porque ella é mentalmente
defficiente, uma incapaz de se
[05-0173-Página 35]
haver por si mesma na vida.
Sei perfeitamente que V[ocê] não a quer
na sua companhia, como reconhece
que ella devido á sua indole má
não pode viver na companhia de nenhum
parente, que muito menos que voce
teriam obrigação de atural-a; porem,
que vida lhe dar, senão na compa-
nhia do marido? Leninha men-
talmente é uma doente, não tem
capacidade para se manter só na
vida, é preciso que alguem a am-
pare e de perto, porque d’outra ma-
neira não vencerá á primeira dif-
ficuldade, cederá ao primeiro em-
bate que a má sorte lhe offere-
cer. Como pois admittir a sua re-
solução, de deixal-a vivendo só em
uma casinha e partir para a Euro-
pa, para longe d’estes aborrecimen-
tos de familia? Não éra da mi-
nha pessôa que se tratava e sim
de acudir o interesse e bom
nome de duas familias, de se-
lar pelo futuro de sua filha
e minha mulher, que voce
[05-0173-Página 36]
não pode deixar de reconhecer como
eu a venho apontando, incapaz
e irresponsavel e, pelo futuro de
duas crianças, por infelicidade
uma d’ellas menina. Voce po-
de bem avaliar como não era
pela minha propria sorte que
eu temia, pela hypothese de viver
separado dos meus filhos, por-
que, desgraçadamente conhe-
ço bem Leninha e – ella en-
tregue a si mesma, não tar-
dará a entregar nas minhas
mãos, não uma mas as duas
crianças. Como pois consen-
tio, deante um futuro tão
arriscado, que as cousas tomas-
sem a direcção acommoda-
ticia que pareciam tomar, só
porque um dia o casal brigou,
tomando essa briga maior vul-
to porque Leninha abandonan-
do a casa, foi ter com quem
insensatamente lhe desse razão!
Sempre tenho pensado assim.
Mas, no isolamento a que me
[05-0173-Página 37]
notei[?] jamais chegou o menor in-
dicio, que do lado da minha mu-
lher, do seu pae do seu pae natu-
ralmente, a menor iniciativa hou-
vesse. Se não percebi nada
que pudesse interpretar como fa-
voravel á minha situação futu-
ra, algumas hostilidades peque-
nas eu vinha sofrendo e cabis-
baixo. Se da parte da familia
Salles, de todos sem excepção,
eu continuei a receber o mesmo
tratamento, se da parte dos Mo-
raes Barros homens, todos intel-
ligentes, me parecia serem na
minha situação factos apenas
a se lamentar, o mesmo não
se dava com alguns dos elemen-
tos femininos e com aquelles
que embora masculos no porte,
teem um caracter afeminado; re-
firome aos dois genros do Octavio,
aqui residentes. Estes dois, sem
personalidade propria, assimilla-
ram naturalmente as ideias da
sogra, que eu sei ser muito
[05-0173-Página 38]
contra mim. tem toma[?] infecções
para o seu asoriado[?] corpo, aqui no
meu consultorio durante mezes; o
outro, quando em viagem de nup-
cias, no Rio, precisou de medico,
e, fui eu quem foi ver a sua jo-
vem esposa no H. Moderne. E, o que
é mais interessante, no dia da par-
tida, uma vez com a mulher a bor-
do de um navio do Loyd, verificou
que a partida só se realizaria no
dia seguinte. Estavam na es-
pectativa de passarem um dia num
pequeno navio, atracado num caes
immundo, pois a mulher disséra
a Leninha, que o marido só possuia
o estrictamente necessario para a via-
gem de Santos a S[ão] Paulo e que, por-
tanto, não poderiam voltar para o hotel.
Foram para a nossa casa, janta-
ram, dormiram, almoçaram no
dia seguinte e finalmente par-
tiram. E é tudo quanto devo a
esses dois typos, que agora se ne-
gam ao meu comprimento e pa-
sam por mim de cabeça teza.
[05-0173-Página 40]
procedimento d’ella justificou a vin-
da do D[outo]r Franco da Rocha e enfermei-
ros do Juquery. Emfim o que ella fez
nessa occasião, podem informar todos
os parentes que lá estiveram e nos visi-
taram. Não queria ir com os
filhos e marido se convallecer no Pau
d’Alho. Com muito custo afinal partiu.
Lá com os outros procedia normal-
mente mas comigo éra a mesma
de sempre, talvez peior, foi se julgar
amparada e eu temer escandalos.
Estando eu completamente resta-
bellecido, e precisando vir a S[ão] Paulo para
ir cuidando da minha vida como Vo-
ce bem sabe, parti, deixando-a lá, de-
pois de pedir muito que se demorasse
o mais possivel, pois que com isso, as
crianças, sobretudo Quitinho só tinham
que approveitar. Tendo eu partido no
dia 7 de Janeiro, no dia 12 tive carta d’ella.
contando que estava disposta a vir tam-
bem para S[ão] Paulo, porque a fazenda es-
tava cacetissima e, que talvez viesse no
dia 14. Não sem nesse dia e a 15 re-
cebi uma carta d’ella dizendo que
[05-0173-Página 41]
de facto desejava vir, porem a seu pedido,
resolvera ficar por mais algum tempo e
pedindo-me, que mandasse uns sapatos
fortes para ella, que não podia passar sem
exercicios e uma porção de cousas para si
e para as crianças. Deante d’esta carta
fiquei mais satisfeito, pois Leninha re-
solvera se demorar na fazenda, o que
seria muito conveniente para as crian-
ças. Domingo 19, porem, chegando após
o almoço, em casa, as 2 horas, attendo ao
telephone o Maneco, que me conta estar
Leninha na casa dos avós e fazendo gran-
de barulho, porque eu não fui esperal-a
na Estação. Dizia ter me avisado por
telegramma. Admirado disse ao Mane-
co, que não havia recebido cousa alguma.
Foi Maneco que me disse então, que procu-
rasse aviso, que talvez o telegramma esti-
vesse retido na Estação da Sorocabana.
De facto, estando eu em casa sem em-
pregados, o estafeta não me encontran-
do, deixou atravez a grade do jardim um
papelucho que lá estava junto ao portão,
no meio de reclames de cinemas etc.
Apezar d’ella ja ter soffrido no Rio as
[05-0173-Página 42]
consequencias de chegar sem me avisar,
não se corrigiu, (como não espero que ella
se corrija de cousa alguma) e partiu sem
me avisar com tempo, por carta como éra
natural. Não se rendeu deante a evi-
dencia dos factos, deante do aviso que el-
la teve na mão e escreveu a V[ocê] que eu
propositalmente não tinha ido esperal-a.
Veiu do Pau d’Alho fazendo taes
intrigas de V[ocê] comigo, que resolvi, lá pelo
quarto dia após a vinda della, escrever uma
seria carta a V[ocê]. Tendo porem mostrado a car-
ta a ella, compreendendo o mal que fi-
zera e intimidada começou me agradar,
para que eu não deitasse a carta no correio.
– Esta carta eu li para o avô d’ella e Nhô-
nhô, quando estiveram em casa. – Todas
as noites iamos á casa de D[on]a Ritinha, en-
tão doente. Durante o dia, eu estava
no meu consultorio; as 5, 5½ horas porem
voltava. Éra certo não encontrar Leninha
em casa. Perguntava ás criadas pela pa-
trôa, respondiam – sahiu. As criadas
pouco entendiam dos serviços; apenas uma
vinda do Pau d’Alho estava mais ao par das
suas obrigações. Porem ésta éra uma criança
[05-0173-Página 43]
Quitinho começou a peiorar dos intestinos.
Quando eu chegava da rua, não encontrava
Leninha, as crianças tinham que jantar,
ella não havia designado jantar para elles
e mesmo as vezes falta o que se lhes
fizesse. Após muito esperar, lá pelas 7½
vinha chegando para jantar. Fazia ser a el-
la, que tinha o dia todo para sahir, porem
que a hóra d’eu chegar em casa, queria en-
contral-a. Era peior, no dia seguinte capri-
chara em chegar mais tarde, dizendo que
precisava fazer exercicio, não nasera para es-
tar preza dentro de casa que durante o dia
fazia calor e que só ao escurecer podia
passear. Perguntava-lhe eu, naturalmen-
te por onde tinha andado, respondia: “que
te importa, por ahi”. No dia 29 justa-
mente, tendo eu uma empregada para
encerar o consultorio sahi cêdo de casa.
Quando fui almoçar, Leninha a pretesto
de qualquer cousa, fez uma das suas scenas
habituaes, porem que muito me aborreceu.
Pelas 4½ da tarde appareceu-me no
consultorio. Ao entrar foi dizendo: pen-
sei que isto aqui tivesse gentes. Óra vo-
ce pode avaliar como deve ser doído quan-
[05-0173-Página 44]
do em difficuldades no começo da vida,
justamente de quem deviamos esperar ani-
mo, encorajamento, ouvir-se ao contrario
essas cousas. Pediu-me dinheiro pra fazer
mais comprar para a criadinha. Fiz ver a el-
la que já tinha gasto muito em compras pa-
ra a Maria Eliza, que por enquanto bastava e que
esperasse para o outro mez. Se quizesse de
todo fazer compras que gastasse do que eu ja
lhe havia dado. Foi o bastante para que
fizesse uma d’essas scenas tão proprias d’ella
– o dinheiro que eu tinha éra della, dizia;
eu éra um simples miseravel, bandido, que
se casára com ella por causa da fortuna d’ella,
que eu era um vadio e cousas mais dis-
se desse paez. E sahiu dizendo que iria a
Casa Moraes Burchard, tirar dinheiro, di-
nheiro que éra d’ella. Cheguei em casa,
e tal qual como ella vinha fazendo, tam-
bem nesse dia não estava lá. Chegou fi-
nalmente quando eu a estava esperando
para jantar, passadas as 7½ horas. Depois da sce-
na que foi a do consultorio, esperei que ao
menos nesse dia nada mais houvesse.
Pois bem, foi se sentando a meza e me
dizendo – passeei, fiz isto e aquillo, e es-
[05-0173-Página 45]
tive com o Penteado na cidade…
Se quando noivo eu me mostrei ciumen-
to, depois de casado, porem, nunca tive ciu-
mes. Ao contrario. V[oce] chegou uma ocasião a
me advertir, que eu não devia deixar Le-
ninha andar só pela cidade. Pois bem,
essa historia do Penteado éra uma das mais
ao sabor d’ella. Atirava-me com o nome d’el-
le, para em comparações me deprimir, mal-
dizendo a sua deliberação de impedir esse ca-
samento d’ella. – o Penteado sim, esse teria
sabido comprehendel-a, com esse ella viviria
etc… É excusado dizer, que nunca dei
importancia a essas maluquices. Nesse
dia, ella não satisfeita com o que me ha-
via feito por occasião do almoço, de ter ido
ao meu consultorio so para brigar, de ter vol-
tado para a casa a hora que voltou, por um
requinte de malvadez – pois pensara me
fazer ciumes e soffrer, – vem me fallar no
Penteado. Não dei porem, como das vezes
anteriores importancia ao que ella dizia.
Após o jantar fui até o portão do jardim.
Estava lá, quando me lembrei que o seu
amigo da S. P. R., me havia dicto, que
de quando em vez apparecesse, pois que
[05-0173-Página 46]
de um momento para outro elle poderia
ter opportunidade de me attender. Como
largo do Paysandu fosse ali perto, tomei
o chapeu e fui. Não encontrando quem eu
procurava, estive sentado um pouco no jar-
dim do largo. Pelas 8 2/4 horas resolvi vol-
tar para casa. Não encontrei Leninha. A
cozinheira me disse que a patrôa tinha
sahido. Pelas dez horas vieram as criadas
me pedir roupas de cama para ellas, de que
precisavam e as chaves para feichar os portões
e a porta da rua. Estive medi-
tando a que eu estava reduzido depois
de tres annos de casado – a ter uma
mulher que tornara a minha existencia em
um verdadeiro inferno em vida. Mas ti-
nha supportado muito e, sempre na illu-
são de que ella um dia pudesse endireitar,
continuaria na mesma resignação.
O ultimo facto porem éra inedito – sahir
de casa a noite, se, deixar dicto para
onde ia e carregando as chaves, a indi-
car que eu não devia ir procural-a.
Eu teria amargado mais este travo[?],
se ella ao menos, ao se recolher á casa,
fosse direita para o seu quarto e houvesse
[05-0173-Página 47]
me deixado em paz. Procuraria, como
sempre fiz, fazer ver a ella, que não esta-
va procedendo direito. Não fez assim
infelizmente. Eram ja quasi onze ho-
ras. Eu estava no meu escriptorio espe-
rando que Leninha voltasse. Nisto ouço
um barulho na porta da rua. – éra Leninha
que entrava. Em vez de seguir para o seu
quarto, foi ao meu escriptorio. Abriu a por-
ta e sem ao menos me dizer boa noite, foi
gritando insolenemente “porque não me
foi buscar?” Espera, respondi-lhe, não grite.
Ella disse-me mais qualquer cousa e ia vol-
tando-me as costas. Foi então que, dizen-
do-lhe, “perdão, se ha quem mereça sensura
é você e uma vez que veiu até aqui, es-
pere por que tens que ouvir”, tomei-a pelo
braço e fiz entrar para o escriptorio. – Éra
demais o que ella havia feito nesse dia e
uma vez que ainda veiu provocar-me no
meu escriptorio, que ouvisse o que tinha de
ouvir. Porem ao se sentir tomada pelo
braço, investiu furiosamente contra mim.
Ella vinha envenenando a minha e-
xistencia pondo a prova a maior das pa-
ciencias e eu vinha supportando tudo
[05-0173-Página 48]
ja havia 3 ½ annos. Eu não suspeitava
absolutamente nada d’ella, como creio
que as suas ameaças por occasião do
jantar, éram apenas uma perversidade
a mais. Mas o seu intento, com as a-
meaças e o seu acto de sahir a noite,
éra, suppondo-me occultar um ciume
terrivel, excitar-me, fazer mal. – E em-
bóra a animasse as mais puras in-
tensões, não está no meu feitio, ser
um marido, cuja mulher sahe a noi-
te só carregando as chaves da casa, para
voltar as deshóras. Não sou um covar-
de, nada ha na minha vida que
prove o contrario, não sou nenhum fe-
róz espancador de mulheres, mas tambem
não sou um santo que resignadamen-
te, mansamente se deixe bater pela mu-
lher. Sahiu após pela rua
a fóra, não sei até onde foi. Passa-
dos uns cinco minutos voltou,
apanhou o chapeo e a bolsa que ficaram
no meu escriptorio e disse que se
ia embóra – por meio de palavroes –, atirou
me ainda um socco que eu apenas
desviei. Ja sahindo, voltou e se di-
[05-0173-Página 49]
rigiu ao quarta das crianças. Percebi
que ella descia com alguma d’ellas.
De facto trazia o pobre do Quitinho, ape-
nas com uma camisinha de dormir e
queria leval-o. Interceptei-lhe a sahida
porcausa do menino, que entregou sem
relutar. Disse que se ia. Tive a i-
deia de feichar-lhe a porta e fazer que
subisse para o seu quarto. Porem,
dizendo-me ella que se ia embóra, tive a
visão de haver chegado o termo d’aquella
vida infernal. Se a felicidade, para o res-
to da minha vida embora, fosse uma u-
topia, ao menos uma paz physica, ma-
terial, eu poderia desfructar. A vida co-
mo Leninha m-a fazia, ninguem po-
de desejar. Ia-se embóra, pois que fosse.
Reflectindo porem, vi que ella poderia
ter se dirigido para a casa de algum
parente sensato, que ao menos, antes
de retel-a, tratasse de se informar do
ocorrido, e estive esperando com a
casa aberta até 1½ da madrugada.
No outro dia soube que ella estava
em casa de Eliza… Por occasião
do almoço o C[oron]el Salles esteve lá em casa
[05-0173-Página 50]
Conversamos muito. Contei a elle então,
que no Rio ella ja havia feito a mesma
cousa, apenas não encontrando em nin-
guem apoio ao seu procedimento em me-
nos de doze horas estava em casa, como
se nada de anormal houvesse havido.
O C[oron]el Salles disse-me ao nos apartarmos,
que ia diligenciar, para que a netta voltas-
se para a minha casa. As cinco horas,
chegando em casa, não encontrei as crian-
ças; Leninha, depois de se informar pelo
telephone que eu havia sahido, tinha
mandado buscal-as. Não suspeitando
de tal, eu havia sahido sem tomar
precauções. Desesperado tomei um
auto e fui buscar as crianças. Em
casa de Eliza, fui ter logo com Leni-
nha, dizendo-lhe que os meus filhos
deviam ficar comigo, em minha
casa e, que se ella quizesse ficar
com elles, que fosse tambem para
lá. Mandei a criadinha por tu-
do que éra das crianças no auto-
movel o que ella fez e, tomando
o Quitinho, levou-o também para o
auto. Leninha assistia a tudo
[05-0173-Página 30] Imagem na sequência errada
sem a nada se oppôr. Quando porem lhe
pedi a filha, se oppoz, agarrou-se a criança
e defendeu - para que eu nem ao menos a
tocasse. Só este facto, se toda a vida
de Leninha não fosse a mais acabado obser-
vação de uma criatura cuja moral não
se desenvolveu normalmente, éra o bas-
tante para provar esta affirmativa. Á
menina, que é uma criaturinha sa
dia, engraçadinha, bonita como um
bibellot, ella se agarrou e reteve. O po-
bre do Quitinho feiozinho, doentio, retar-
dado, ella deixou partir, sem siquer
uma unica palavra ou gesto de opposição.
Uma verdadeira mãi teria se agarra-
do ás duas crianças e talvez mais
ao Quitinho, que éra o doente e que
ella devia suppôr precisar mais dos
seus cuidados. A sua irman Nhanhan,
que jamais se mettera na nossa vida quan-
do teria podido nos servir, lá estava em
casa de Eliza – “expressamente para evitar
que eu levasse as crianças”; agradeça a ella
e Eliza, a solicitude com que se mos-
traram n’essa occasião, e a parte que
a ellas deve caber, no resultado final
[05-0173-Página 31]
d’esta questão. Que differença do pro-
ceder de Julia e Nhozinho, no Rio, que
solicitadas aos gritos exagerados de Leninha
pelo telephone, disseram que iam lá
etc, mas, deixaram-se ficar em casa,
no outro dia Leninha estava as bôas
com o marido. E eu não posso jamais
deixar de querer bem a estes dois.
No dia seguinte Nhônhô foi
me procurar, afim de que eu entregas-
se o menino á mãi. Fiz ver a elle co-
mo me seria doído me separar de uma
só vez dos meus dois filhinhos. Passa-
dos dois dias, voltou com o C[oron]el Salles. Dis-
se-me elle que eu entregasse o Quitinho
e que elle se incumbiria, de fazer Leni-
nha partir para o Pau d’Alho com as crian-
ças. Cedi e no dia immediato fui
com o C[oron]el Salles levar o menino para a
casa do Octavio Mendes e logo soube
que Leninha não mais iria para o
Pau d’Alho, porque tia Isaura partira de
lá etc. Soube posteriormente,
que V[ocê] vindo do Pau d’Alho, Leninha
estava em sua companhia e que
se tratára de arranjar uma casa.
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Estes pobres zinhos, ao que me pare-
ce, apenas reflectem como espelhos, o
estado de animo que por ahi vae
contra mim e mostram-me, como
não devo esperar qualquer inicia-
tiva que me seja favoravel.
Que fazer finalmente? Ir por exem-
plo a Voce pedir que me desse por
qualquer modo uma das crian-
ças, o Quitinho, naturalmente,
porque este seria o unico meio
que eu via, de privando Leni-
nha de um filho corrigil-a e
fazel-a vir a mim? Deante
da sua attitude, me pareseu pou-
co viavel esta hypotheze. Cruzar
os braços deante dos factos e mos-
trar-me conformado, tambem não
é possível. Chegado a este ponto,
deseperançado em absoluto, lan
cei mão do ultimo recurso.
Procurando divorciar-me, disse
ao meu advogado, que fizes-
se o possivel por obter o desquite
amigavel e que nestas condic-
ções eu apenas desejo que me
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seja entregue o filho mais velho,
que tem agora tres annos. Sobre
o restante eu não faria questão
alguma. E é o que eu venho
dizer agora.
Quito
São Paulo, 5 de Julho de 1918
(rua Libero Badaró nº 140)
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Francisco Vieira de Moraes – Quito
Helena de Moraes Barros – Leninha
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Manuel Elpidio de Queiroz – Maneco
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
Paulo de Moraes Barros Filho – Hominho
Prudente de Moraes Filho – Nhosinho