Carta de Juquinha, s.d., 05-0000229
Metadados
Descrição
Carta de Juquinha para Antonio de Moraes Barros, Piracicaba - SP, s.d.
Código do documento
05-0000229
Remetente / Autor
Juquinha
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Joaquim Silveira | Rodolpho Miranda | João de Britto | Otaviano Pinto
Texto do documento
[05-0229-Página 01]
Piracicaba, 17 de Julho (ás 11½ da noite).
Nhonhô.
Recebi tua carta e fiz o que nella me pediste.
Com esta deve chegar ahi, hoje, a carta em que
o Vitaliano conta ao D[outo]r R[odolpho] Miranda o pro-
cedimento correctíssimo do D[outo]r J[oaqui]m Silveira.
Estou hoje, mais do que hontem, con-
vencido de que o d[outo]r J[oaqui]m Silveira Mello
é refinadissimo tratante. A tal reu-
nião — annunciada para a fasenda del-
le — fez-ce, não sei por que motivo, na
casa do João de Brito. Não sei o que re-
solveram: boa coisa não foi, decerto.
O Octaviano Pinto, o Guilherme e al-
guns outros chegaram a ir á estação, com
destino á fazenda Palmeiras; voltaram,
porém, dahi (da estação) dizendo que
[05-0229-Página 02 - esquerda]
já não precisavam ir a Rio das Pedras,
pois tudo tinha sido arranjado…
O que é certo é que elles não cabem
em si de contentes… O Orlando
foi a Rio das Pedras e voltou dizen-
do: “Vocês hão de ver quem tem
prestigio perante a commissão
central. O J[oaqui]m Silveira manda
no Lacerda…”
Ainda ha pouco ouvi de pessoa
que me merece todo o conceito
que o J[oaqui]m Silveira, solemne
como um defunto, declarára
que havia de ver quem tem
voz activa na Commissao
Central, si elle, si o S[enho]r
Rodolpho Miranda.
[05-0229-Página 02 - direita]
O Coriolano está de luto: mor-
reu-lhe hoje a sogra, a mulher do
João Morato, que deve ser enterrada
amanhan. Não pude, pois, falar-
lhe. Fui, porem, á casa do Mo-
rato – embora imprudentem[en]te –
e elle prometteu falar-lhe a-
manhan, ou depois, sobre o
assumpto da tua carta.
– Não vi a carta do Vitaliano,
que prometteu trazer-me o rascu-
nho della amanhan. Ella deve-
rá, porém, ser escripta por um
summario que eu lhe dei.
Mostrou-me elle uma carta
do Glycerio em que lhe diz – “pro-
cure chegar-se ao pessoal do Paulo,
[05-0229-Página 03]
que é um moço muito distincto.”
Nós estamos sendo vigiados. Os canalhas têm espiões no
telegrapho e no Correio. Hoje, por exemplo, apesar
de toda a minha reserva, elles souberam que eu re-
cebi duas cartas tuas e um telegramma… E os
boatos começam a ferver…
Para que elles não desconfiassem da minha
entrevista com o Vitaliano foi preciso que Papáe
fosse entender-se com elle, marcando o rendez-vous
para a noite. Sabe quem são os espiões del-
les? O Claro e o Chico Braga. Hontem á
noite fiz o Claro caminhar um quarteirão
batendo o calcanhar na bunda. Ah! que si eu
o pego…
Falas no Plinio de Godoy. Pois elles apregoam
aqui que é um dos que quebram lanças pelo
directorio – Affonso Coelho.
————————
Sôa meia noite, e eu ainda vou ao Cor-
reio. Qualquer coisa que haja, communi-
car-te-ei. O Maneco ficou de escrever-te hoje,
mas é possível que o não faça, por preguiça…
– Quanto á recommendação do teu cartão,
era escusada: eu não sou nem creança,
nem idiota. Podes ficar descansado.
Abraça o teu am[ig]o de sempre —
Juquinha
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonhô
Piracicaba, 17 de Julho (ás 11½ da noite).
Nhonhô.
Recebi tua carta e fiz o que nella me pediste.
Com esta deve chegar ahi, hoje, a carta em que
o Vitaliano conta ao D[outo]r R[odolpho] Miranda o pro-
cedimento correctíssimo do D[outo]r J[oaqui]m Silveira.
Estou hoje, mais do que hontem, con-
vencido de que o d[outo]r J[oaqui]m Silveira Mello
é refinadissimo tratante. A tal reu-
nião — annunciada para a fasenda del-
le — fez-ce, não sei por que motivo, na
casa do João de Brito. Não sei o que re-
solveram: boa coisa não foi, decerto.
O Octaviano Pinto, o Guilherme e al-
guns outros chegaram a ir á estação, com
destino á fazenda Palmeiras; voltaram,
porém, dahi (da estação) dizendo que
[05-0229-Página 02 - esquerda]
já não precisavam ir a Rio das Pedras,
pois tudo tinha sido arranjado…
O que é certo é que elles não cabem
em si de contentes… O Orlando
foi a Rio das Pedras e voltou dizen-
do: “Vocês hão de ver quem tem
prestigio perante a commissão
central. O J[oaqui]m Silveira manda
no Lacerda…”
Ainda ha pouco ouvi de pessoa
que me merece todo o conceito
que o J[oaqui]m Silveira, solemne
como um defunto, declarára
que havia de ver quem tem
voz activa na Commissao
Central, si elle, si o S[enho]r
Rodolpho Miranda.
[05-0229-Página 02 - direita]
O Coriolano está de luto: mor-
reu-lhe hoje a sogra, a mulher do
João Morato, que deve ser enterrada
amanhan. Não pude, pois, falar-
lhe. Fui, porem, á casa do Mo-
rato – embora imprudentem[en]te –
e elle prometteu falar-lhe a-
manhan, ou depois, sobre o
assumpto da tua carta.
– Não vi a carta do Vitaliano,
que prometteu trazer-me o rascu-
nho della amanhan. Ella deve-
rá, porém, ser escripta por um
summario que eu lhe dei.
Mostrou-me elle uma carta
do Glycerio em que lhe diz – “pro-
cure chegar-se ao pessoal do Paulo,
[05-0229-Página 03]
que é um moço muito distincto.”
Nós estamos sendo vigiados. Os canalhas têm espiões no
telegrapho e no Correio. Hoje, por exemplo, apesar
de toda a minha reserva, elles souberam que eu re-
cebi duas cartas tuas e um telegramma… E os
boatos começam a ferver…
Para que elles não desconfiassem da minha
entrevista com o Vitaliano foi preciso que Papáe
fosse entender-se com elle, marcando o rendez-vous
para a noite. Sabe quem são os espiões del-
les? O Claro e o Chico Braga. Hontem á
noite fiz o Claro caminhar um quarteirão
batendo o calcanhar na bunda. Ah! que si eu
o pego…
Falas no Plinio de Godoy. Pois elles apregoam
aqui que é um dos que quebram lanças pelo
directorio – Affonso Coelho.
————————
Sôa meia noite, e eu ainda vou ao Cor-
reio. Qualquer coisa que haja, communi-
car-te-ei. O Maneco ficou de escrever-te hoje,
mas é possível que o não faça, por preguiça…
– Quanto á recommendação do teu cartão,
era escusada: eu não sou nem creança,
nem idiota. Podes ficar descansado.
Abraça o teu am[ig]o de sempre —
Juquinha
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonhô