Carta de Manoel Coelho Rodrigues, 1918, 05-0000243
Metadados
Descrição
Carta de Manoel Coelho Rodrigues para Antonio de Moraes Barros, Rio de Janeiro - RJ, 1918
Código do documento
05-0000243
Remetente / Autor
Manoel Coelho Rodrigues
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Texto do documento
[05-0243-Página 01]
[Papel timbrado: Gabinete do Ministro / das / Relações Exteriores - com um X sobre o timbre.]
Rio, 4 de fevereiro de 1918.
Nhônhô.
Acabo de saber que você pediu noticias
minhas a Peró. Agradeço-lhe o interesse e
quebro o mutismo que me tinha imposto
para não aborrecer os outros com o que se
passa commigo.
Vim de S[ão] Paulo com o proposito, muito
antes deliberadamente formulado, de deixar
Leonor com a mais ampla liberdade de resol=
ver por si a vida della, e de não dar um
passo para o reatamento de uma vida em
commum bem desgraçada.
Esse é o unico procedimento que posso
ter para com quem não se digna de dar
[05-0243-Página 02 - esquerda]
noticias suas ao marido, que lhe ignora
a vida, onde anda e o que faz; do que se
deduz que, ao menos nisso, combinamos
e estamos de accordo.
Somos infelizes ambos, e sendo essa a
dura verdade, é doloroso, porém mister
reconhecer que será renovar a chaga
fazendo qualquer tentativa de reconciliação
por meio de uma submissão da minha
parte. Digo-o com o maior dos pezares,
porque a estimo muito, e é essa estima
que me obriga a ser inflexivel nessa reso-
lução, porque, dada a sua irascibilidade
de genio e a vida de caprichos que sempre
[05-0243-Página 02 - direita]
levou, si eu cedesse, seriamos ainda
mais infelizes, ao passo que si ella se
dispusesse a cumprir o seu dever, que
qualquer cego enxerga, talvez pudesse
vir a ser, pelo menos, mais feliz do que eu.
Você sabe que sempre affaguei a idéa
de morar em S[ão] Paulo e ahi fazer a minha
vida; si não era illusão, sempre encon=
trei entre os cunhados e demais parentes
da minha mulher uma athmosphera de
amizade e carinho que daca vez mais me
prendia a todos. Mas, quantas vezes não
se me constrangia a alma com a consciencia
do triste espetaculo, que vocês assistiam,
[05-0243-Página 03]
da vida do nosso casal… Nônô no
Rio, em minha casa, nunca foi maltratada
nem me maltratou, como ahi o fazia con=
instantemente, na casa da Mãe Della, onde
eu era hospede.
Reconheço ter muito genio, porque não
sei sorrir quando contrariado ou offendido, e
si não sou melhor é porque não me cabem
vencer com o carinho, porque á força nin=
guem me governa.
Perdôe, meu caro Nhônhô, a franqueza
rude com que lhe abro o coração revoltado e
dolorido. Abrace por mim Isaura e todos os
seus e creia-me seu sempre
cunhado m[ui]to dedicado reconhecido e amigo
Manoel Coelho Rodrigues
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Pedro de Moraes Barros – Peró
[Papel timbrado: Gabinete do Ministro / das / Relações Exteriores - com um X sobre o timbre.]
Rio, 4 de fevereiro de 1918.
Nhônhô.
Acabo de saber que você pediu noticias
minhas a Peró. Agradeço-lhe o interesse e
quebro o mutismo que me tinha imposto
para não aborrecer os outros com o que se
passa commigo.
Vim de S[ão] Paulo com o proposito, muito
antes deliberadamente formulado, de deixar
Leonor com a mais ampla liberdade de resol=
ver por si a vida della, e de não dar um
passo para o reatamento de uma vida em
commum bem desgraçada.
Esse é o unico procedimento que posso
ter para com quem não se digna de dar
[05-0243-Página 02 - esquerda]
noticias suas ao marido, que lhe ignora
a vida, onde anda e o que faz; do que se
deduz que, ao menos nisso, combinamos
e estamos de accordo.
Somos infelizes ambos, e sendo essa a
dura verdade, é doloroso, porém mister
reconhecer que será renovar a chaga
fazendo qualquer tentativa de reconciliação
por meio de uma submissão da minha
parte. Digo-o com o maior dos pezares,
porque a estimo muito, e é essa estima
que me obriga a ser inflexivel nessa reso-
lução, porque, dada a sua irascibilidade
de genio e a vida de caprichos que sempre
[05-0243-Página 02 - direita]
levou, si eu cedesse, seriamos ainda
mais infelizes, ao passo que si ella se
dispusesse a cumprir o seu dever, que
qualquer cego enxerga, talvez pudesse
vir a ser, pelo menos, mais feliz do que eu.
Você sabe que sempre affaguei a idéa
de morar em S[ão] Paulo e ahi fazer a minha
vida; si não era illusão, sempre encon=
trei entre os cunhados e demais parentes
da minha mulher uma athmosphera de
amizade e carinho que daca vez mais me
prendia a todos. Mas, quantas vezes não
se me constrangia a alma com a consciencia
do triste espetaculo, que vocês assistiam,
[05-0243-Página 03]
da vida do nosso casal… Nônô no
Rio, em minha casa, nunca foi maltratada
nem me maltratou, como ahi o fazia con=
instantemente, na casa da Mãe Della, onde
eu era hospede.
Reconheço ter muito genio, porque não
sei sorrir quando contrariado ou offendido, e
si não sou melhor é porque não me cabem
vencer com o carinho, porque á força nin=
guem me governa.
Perdôe, meu caro Nhônhô, a franqueza
rude com que lhe abro o coração revoltado e
dolorido. Abrace por mim Isaura e todos os
seus e creia-me seu sempre
cunhado m[ui]to dedicado reconhecido e amigo
Manoel Coelho Rodrigues
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Pedro de Moraes Barros – Peró