Carta de Paulo de Moraes Barros, 1909, 05-0000287
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Berlim - Alemanha, 1909
Código do documento
05-0000287
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Texto do documento
[05-0287-Página 01 - esquerda]
Berlin, 11 de Janeiro de 1909
Nhonhô
Acabo de receber as tuas duas
de 22, confirmando os telegrammas
sobre a inclusão do meu nome na chapa
e as más noticias sobre Tita. Como
tu és o principal responsavel pela mi=
nha candidatura, ainda uma vez envio-
te um bem fraternal abraço, dizendo en=
tretanto, a ti e aos que te ajudaram
n’essa campanha, como o Christo: “per=
doae-lhes, Senhor, porque elles não soube=
ram o que fizeram”. Emfim, procurarei
seguir o rosto dos deputados …….. bons.
Nhosinho, a quem escrevi contando que
provavelmente, pelo motivo acima eu seria
obrigado a voltar mais depressa a S[ão] Paulo,
respondeu-me em longa carta dando muitos
parabens e contando a historia da candi=
datura d’elle tal qual a sabiamos. Promessa
do Gordo. promessa do Tibiriçá; que sabia da
tua opposição, mas, que não julgava isso
obstando irremovivel, porque contava com
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a minha boa amizade para affastal-o,
não suppondo em caso algum que eu preten=
desse ou acceitasse o lugar. Rasgando-me
muita sêda conclue que o desejavam con=
siderar excluido da politica de Piracica=
ba. Retorqui-lhe com uma longa carta
contando-lhe ter sido nosso candidato, quer
dizer, de Piracicaba, o João Sampaio, e isso
muito antes que o Gordo aventasse a candida=
tura d’elle e que, portanto, desde que tra=
balhavas a favor de uma não podias dei=
car de ser contra a outra. Que o culpado
foi o Gordo, que quiz fazel-o candidato, apenas
de accôrdo com o Tibiriçá, por Piracicaba,
sem ouvir ou canalizar a candidatura pelo
respectivo directorio, e mais que, affastado
de Piracicaba, sem nunca ter demonstrado
o menor interesse local, digo, pelo partido
local, ou mesmo do Estado, sem nunca ter
manifestado a esse partido o desejo de ser
seu representante, não podiamos cogitar do
nome d’elle e effectivamente não cogitavamos,
sem que, entretanto, isso significasse dese=
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jo de exclusão. Ao passo que o João já suffi=
cientemente revelado e com boa bagagem
de serviços (isto deve tel-o machucado) er
a figura que se nos impunha como can=
didato de Piracicaba. Não sei onde está
a carta d’elle para remetter-te com esta.
– O péor é que já escrevi ao Juquinha
para tomar passagens em Southampton
para o vapor de 2 de Abril, creio que
o “Avare” que estará no Rio em 19 ou
20 do mesmo mez. Vou indagar da par=
tida de outros do meio p[ar]a o fim de Mar=
ço e se houver geito vamos n’um d’elles.
Qual a vantagem de assistir as sessões pre=
paratorias? Vou tratar de simplificar
as compras nossas e encomendas para
estar de promptidão.
Preciso que me mandes com urgencia,
isto é, pelo 1º vapor, oito contos (8:000$000),
alem dos 1685 marcos que forneci a
Peró em New York e que pedi-te em carta anterior.
Com esses quibus penso ficar habilita=
do para as ultimas despezas e deixar
[05-0287-Página 02 - direita]
uns 3000 francos p[ar]a despesas do Hominho.
Fico dependente d’elles para minha viagem e
conto recebel-as até 25 de Fevereiro.
Interrompi esta por algumas horas para
ir ao prof. Casper, com quem estou em tra=
tamento da velha affecção urethral e voltei
chiando por umas duas horas. Agora continuo.
– Em reserva. Não deixe tio Antonio fazer
despezas eleitoraes em Ribeirão Bonito e
dá um geito para, mesmo as que fizer
comsigo, em viajens para lá e circumvi=
zinhanças, corram por minha conta.
Escreve-me contando as localidades que
me tocaram por norte na eleição.
– Sobre café acho que fazes bem em
ir vendendo pelo menos uma parte da sa=
fra. Os mercados de Hamburgo e do Ha=
vre de alguns dias para cá estão bem
mais animados com alta sensivel e
boa procura. Isso, porem, é ainda bas=
tante instavel e só depois de uns dois
ou tres mezes é que poderemos ficar mais
confiantes. Junto inclúo artigo do
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“Herald”, que me foi enviado de New
York pelo Peró. Acho que ha muito perigo
do golpe que n’elle se pede contra o café
brasileiro, porque essa não é uma opinião
singular, tive occasião de ouvil-a da
bocca de mais de um e em diversas
cidades, argumentando todos que o gover=
no dos E[stados] Unidos não terá remedio senão
tarifar o nosso café, como uma boa
fonte de receita para cobrir os seus
deficits. Mostre-o ao Candido Rodrigues
e diga-lhe que não se descuide de acti=
var a propaganda lá, porque outros pro=
ductos máos ou falsificados, chamados
succedaneos, estão entrando victoriosamen=
te no mercado, com perigo real para
o consumo do café.
– Tive hoje carta de Peró de 31-12-[1]908;
vae bem de saude e de inglez. Já
lhe escrevi fazendo sentir a necessidade
de ir logo installar-se em Pittsburgh.
Esta semana vou providenciar a compra
e remessa do teu piano e das toalhas
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e guardanapos, que irão marcados apezar
de não encommendadas as marcas.
– Sobre o preenchimento do cargo de pro=
fessora de trabalhos da E[scola] Complementar,
acho que o mais acertado era acabar
com elle, n’essa e em todas, mas, se
deve ser provido a Maricota Faria
deve dar boas contas e merece-o.
Guardei tão bem para te enviar a carta
de Nhosinho, que não a encontro.
Tambem não ha necessidade, porque
a summula vae n’esta.
– Escrevi a tio Antonio, que por ultimo
tem me escripto contando por miudo o
que tem soffrido em materia de finanças,
dizendo que estavas autorizado a fornecer-lhe
o que elle precisasse, sem me referir ao pas=
sado, que desejo que elle ignore por completo.
No[?] proximo correiro escreverei a Jorge e Caláo.
Hominho volta esta semana p[ar]a o collegio.
Abraços a ti, Isaura e filhos, de Nênê,
do meu trio[?] e do mano
Paulo
E a pobre de Idalina!.. Coitada!
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Elisa Ferraz de Sales Moraes Barros – Nenê / Nênê
Nicolau de Moraes Barros – Calau / Caláo
Paulo de Moraes Barros Filho – Hominho
Pedro de Moraes Barros – Peró
Prudente de Moraes Filho – Nhosinho
Berlin, 11 de Janeiro de 1909
Nhonhô
Acabo de receber as tuas duas
de 22, confirmando os telegrammas
sobre a inclusão do meu nome na chapa
e as más noticias sobre Tita. Como
tu és o principal responsavel pela mi=
nha candidatura, ainda uma vez envio-
te um bem fraternal abraço, dizendo en=
tretanto, a ti e aos que te ajudaram
n’essa campanha, como o Christo: “per=
doae-lhes, Senhor, porque elles não soube=
ram o que fizeram”. Emfim, procurarei
seguir o rosto dos deputados …….. bons.
Nhosinho, a quem escrevi contando que
provavelmente, pelo motivo acima eu seria
obrigado a voltar mais depressa a S[ão] Paulo,
respondeu-me em longa carta dando muitos
parabens e contando a historia da candi=
datura d’elle tal qual a sabiamos. Promessa
do Gordo. promessa do Tibiriçá; que sabia da
tua opposição, mas, que não julgava isso
obstando irremovivel, porque contava com
[05-0287-Página 01 - direita]
a minha boa amizade para affastal-o,
não suppondo em caso algum que eu preten=
desse ou acceitasse o lugar. Rasgando-me
muita sêda conclue que o desejavam con=
siderar excluido da politica de Piracica=
ba. Retorqui-lhe com uma longa carta
contando-lhe ter sido nosso candidato, quer
dizer, de Piracicaba, o João Sampaio, e isso
muito antes que o Gordo aventasse a candida=
tura d’elle e que, portanto, desde que tra=
balhavas a favor de uma não podias dei=
car de ser contra a outra. Que o culpado
foi o Gordo, que quiz fazel-o candidato, apenas
de accôrdo com o Tibiriçá, por Piracicaba,
sem ouvir ou canalizar a candidatura pelo
respectivo directorio, e mais que, affastado
de Piracicaba, sem nunca ter demonstrado
o menor interesse local, digo, pelo partido
local, ou mesmo do Estado, sem nunca ter
manifestado a esse partido o desejo de ser
seu representante, não podiamos cogitar do
nome d’elle e effectivamente não cogitavamos,
sem que, entretanto, isso significasse dese=
[05-0287-Página 02 - esquerda]
jo de exclusão. Ao passo que o João já suffi=
cientemente revelado e com boa bagagem
de serviços (isto deve tel-o machucado) er
a figura que se nos impunha como can=
didato de Piracicaba. Não sei onde está
a carta d’elle para remetter-te com esta.
– O péor é que já escrevi ao Juquinha
para tomar passagens em Southampton
para o vapor de 2 de Abril, creio que
o “Avare” que estará no Rio em 19 ou
20 do mesmo mez. Vou indagar da par=
tida de outros do meio p[ar]a o fim de Mar=
ço e se houver geito vamos n’um d’elles.
Qual a vantagem de assistir as sessões pre=
paratorias? Vou tratar de simplificar
as compras nossas e encomendas para
estar de promptidão.
Preciso que me mandes com urgencia,
isto é, pelo 1º vapor, oito contos (8:000$000),
alem dos 1685 marcos que forneci a
Peró em New York e que pedi-te em carta anterior.
Com esses quibus penso ficar habilita=
do para as ultimas despezas e deixar
[05-0287-Página 02 - direita]
uns 3000 francos p[ar]a despesas do Hominho.
Fico dependente d’elles para minha viagem e
conto recebel-as até 25 de Fevereiro.
Interrompi esta por algumas horas para
ir ao prof. Casper, com quem estou em tra=
tamento da velha affecção urethral e voltei
chiando por umas duas horas. Agora continuo.
– Em reserva. Não deixe tio Antonio fazer
despezas eleitoraes em Ribeirão Bonito e
dá um geito para, mesmo as que fizer
comsigo, em viajens para lá e circumvi=
zinhanças, corram por minha conta.
Escreve-me contando as localidades que
me tocaram por norte na eleição.
– Sobre café acho que fazes bem em
ir vendendo pelo menos uma parte da sa=
fra. Os mercados de Hamburgo e do Ha=
vre de alguns dias para cá estão bem
mais animados com alta sensivel e
boa procura. Isso, porem, é ainda bas=
tante instavel e só depois de uns dois
ou tres mezes é que poderemos ficar mais
confiantes. Junto inclúo artigo do
[05-0287-Página 03]
“Herald”, que me foi enviado de New
York pelo Peró. Acho que ha muito perigo
do golpe que n’elle se pede contra o café
brasileiro, porque essa não é uma opinião
singular, tive occasião de ouvil-a da
bocca de mais de um e em diversas
cidades, argumentando todos que o gover=
no dos E[stados] Unidos não terá remedio senão
tarifar o nosso café, como uma boa
fonte de receita para cobrir os seus
deficits. Mostre-o ao Candido Rodrigues
e diga-lhe que não se descuide de acti=
var a propaganda lá, porque outros pro=
ductos máos ou falsificados, chamados
succedaneos, estão entrando victoriosamen=
te no mercado, com perigo real para
o consumo do café.
– Tive hoje carta de Peró de 31-12-[1]908;
vae bem de saude e de inglez. Já
lhe escrevi fazendo sentir a necessidade
de ir logo installar-se em Pittsburgh.
Esta semana vou providenciar a compra
e remessa do teu piano e das toalhas
[05-0287-Página 04]
e guardanapos, que irão marcados apezar
de não encommendadas as marcas.
– Sobre o preenchimento do cargo de pro=
fessora de trabalhos da E[scola] Complementar,
acho que o mais acertado era acabar
com elle, n’essa e em todas, mas, se
deve ser provido a Maricota Faria
deve dar boas contas e merece-o.
Guardei tão bem para te enviar a carta
de Nhosinho, que não a encontro.
Tambem não ha necessidade, porque
a summula vae n’esta.
– Escrevi a tio Antonio, que por ultimo
tem me escripto contando por miudo o
que tem soffrido em materia de finanças,
dizendo que estavas autorizado a fornecer-lhe
o que elle precisasse, sem me referir ao pas=
sado, que desejo que elle ignore por completo.
No[?] proximo correiro escreverei a Jorge e Caláo.
Hominho volta esta semana p[ar]a o collegio.
Abraços a ti, Isaura e filhos, de Nênê,
do meu trio[?] e do mano
Paulo
E a pobre de Idalina!.. Coitada!
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Elisa Ferraz de Sales Moraes Barros – Nenê / Nênê
Nicolau de Moraes Barros – Calau / Caláo
Paulo de Moraes Barros Filho – Hominho
Pedro de Moraes Barros – Peró
Prudente de Moraes Filho – Nhosinho