Carta de Anna Maria de Moraes Burchard, 1923, 01-0000129
Metadados
Descrição
Carta de Anna Maria de Moraes Burchard para Antonio de Moraes Barros, Frankfurt - Alemanha, 1923
Código do documento
01-0000129
Remetente / Autor
Anna Maria de Moraes Burchard
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Leonor de Moraes Barros | Cora Godoy | Isaura | Roterdam | Berlim | Paris
Texto do documento
[01-0129-Página 01]
Frankfurt, 5 - 7 1923.
Nhonhô
Vae esta em reforço ao telegramma de
parabens pelo seu anniversario, que enviei
hontem.
A você, desejo tudo o que a vida pode offerecer
de bom - a saúde, o conforto, a prosperi-
dade. E ainda uma cousa mais, e a me-
lhor - a sua felicidade e a de todos os
seus.
Que Maria Isaura seja sempre a mais lin-
da, o Zé Pedro o mais espirituoso e engraça-
dinho, o Ruy se pareça (no physico, Deus nos
livre) ao grande homem cujo nome traz, a
Beatriz que cumpra a promessa de ser tão
bella como o foi a xará e a Marina de
Isa que procure pôr os outros todos no chinel-
lo. Se tudo isto se realizar, como desejo e espe-
ro, o seu orgulho de avô tem do que ficar satis-
feito e você deve considerar-se um homem fe-
liz. Feliz sim, porque a ventura que vai ter
com os netos, será o prolongamento do que
tem tido com a mais dedicada das mulhe-
res e os melhores dos filhos.
De saúde, não vou mal, porque, de assucar só
ha o estrictamente necessário para o gasto. Tenho,
no sangue, 0,120, que é o normal. A engorda
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é que vae um tanto lenta, mas tenho esperança que -
d’aqui em deante ande mais depressa. E a minha
demora na clinica depende d’isso, de poder eu le-
var alguns kilos (não muitos, que não convem)
mais do que trouxe. Com Elisa dá-se o mes-
mo. Porem, ella, talvez por ser mais moça na
edade e na diabete, já adquirio uns kilos mais
que eu.
Por falar em kilos…. O Oliveira Lima esteve 6
mezes na clinica, para desengordar. Ignoro se
tambem é diabetico, creio que não. Sei so-
mente que deixou aqui 40 kilos da sua respei-
tavel corpulencia e acha-se hoje em Lisboa donde
manda correspondencias para “O Estado”.
Não sei se as minhas finanças ahi vão bem;
de conformidade com os seus e meus desejos.
Aqui vão menos mal. Emquanto o marco pre-
cipita-se nas profundezas do abysmo, o dollar
vae para pincaros mais altos. Assim é que
as minhas despesas, amparadas pelo valor do dol-
lar, não me preoccupam.
Esta baixa phenomenal e continua do marco
é uma calamidade e significa a miseria a penu-
ria, a fome para uma grande parte, a maior, da
população.
E dizer-se na terra dos poincarés e acreditar-se
na nossa que a Allemanha, propositalmente, ar-
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ruinou as suas finanças, reduzio o povo á miseria
das miserias, pura e simplesmente para ter o gostinho
de não pagar a sua divida! Serve-lhe de argumento
o dinheiro gasto em obras feitas no interior do paiz,
e fingem ignorar que essas obras (e foram muito
poucas) só foram determinadas pela exigencia das
circumstancias, com o unico intuito de dar ser-
viço e mitigar a fome aos sem trabalho.
A apparencia não diz, é verdade, do que vae nos bas-
tidores. Nas ruas, muito movimentadas, transita
gente das diversas classes sociais, todos confortavel
e decentemente vestidos. As confeitarias, os cafés, os
restaurantes regorgitam. Os locaes de divertimen-
tos - theatros, cinemas, cabarets etc, todos sempre
repletos. Mas isto não significa prosperidade.
É simplesmente a febre dos novos ricos que, se-
dentos de prazeres, procuram assim se in-
demnisar das privações do passado.
Não fosse a falta de aceio da cidade, antes tão
bem cuidada, e o encontro, aqui, de uns
sem pés andando sobre supportes de aço; ali, de
um cego; acola, de outro em interminaveis
contorsões convulsas; alem, de um outro, mise-
ro tronco sem pernas, jogado p[ar]a dentro de um carri-
nho; e de tantos outros ainda - tão ou mais des-
graçados, todos, victimas da guerra, a esmolar
pela cidade, quer esta seja Berlin ou Frankfurt;
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4
Não fossem os clamores dos jornaes que relatam
as scenas pungentes da miseria e as tragedias
intimas de familias inteiras que para se subtra-
hir ao pavoroso soffrimento se suicidam com
o gaz, e não fosse ainda o que se ouve contar
das torturas indizíveis d’aquelles, que, outrora
abastados, hoje, inaptos ao trabalho pela edade
ou pela doença, não sabem como prover á sua
subsistencia; E não se suspeitaria que um can-
cro monstruoso está carcomendo o juiz que,
como a Russia, em breve, não será mais que rui-
nas.
As cousas aqui estão por preços inacreditaveis.
Comprei, outro dia, 1 kilo de café torrado por 88,000
marcos, hoje a libra está custando mais que isso.
Um ovo custa 3.000 m[arcos]; 1 kilo de assucar, 8.000; 1 k[ilo]
de batatas, 10.000; 1 litro de leite, 12.000; 1 k[ilo] de carne
96.000. E isto não quer dizer que dentro de alguns
dias não esteja tudo custando duas, trez
não sei quantas vezes mais caro.
Dinheiro, marcos, ninguem pode guardar.
Ha dias uma creada da clinica pedio-me, com
muita insistência, como especial favor,que
lhe desse um dollar em troca de 160000 marcos,
como estava o cambio, porque, dizia ella, que
ria juntar dinheiro para comprar uma qual-
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5
quer cousa de que muito necessitava. Tinha
guardado o dinheiro, digo, o ordenado de um mez
para, junto com o de outro, perfazer a importan
cia da compra, mas qual não foi a sua de-
cepção e tristeza quando verificou que os
seus marcos valiam pouco mais que nada,
porque o que queria comprar custava 5, 6
ou 10 vezes mais. Assim teve a coitada de
desistir d’aquillo de que tanto precisava. Tão con-
tente ficou quando recebeu o dollar que me
deu um vigoroso abraço.
Para ingleses, norte americanos e argentinos a
vida na Allemanha custa uma bagatella,
pouco mais que nada. A libra esterlina está
valendo quasi um milhão de marcos! Mes-
mo para nós, brasileiros, que adquirimos a
libra ou o dollar por muito dinheiro, a vida
não está cara.
Nonô e Cora continuam em Berlin. Esta,
satisfeitissima com o proveito que tem tira-
do do tratamento. Parece que voltará para casa
radicalmente curada das suas macacôas.
Em boa hora entreguei-a aos cuidados do
Kosttance. Nonô não foi tão feliz, por ter vis-
to o seu tratamento interrompido, durante mais
de 20 dias, por uma importuna “grippe” que
muito a enfraqueceu. No entanto já recome-
[01-0129-Página 06]
6
çou o tratamento do estomago e já tem obtido
algumas melhoras.
O Pinheiro e Ignezinha, que já em Maio foram
para Paris a chamado do irmão que estava a
morte, ainda lá se acham. Não sei se,
como pretendiam, vão para a Suissa ou vol-
tam para a companhia de Elisa.
Esta ja anda em diligencia de arranjar pas-
sagem no “Cap Polonio” que parte de Rotterdam,
onde pretende embarcar, a 14 de Setembro.
Entendo que ella não devia voltar antes de Ou-
tubro, para evitar a estadia em Paris no
mez de Agosto, que é horrorosamente quente.
A trabalheira que vou ter com a apromptação
da viagem e com as compras em tempo de
tanto calor, ha de prejudical-a muito na
saúde e fazel-a perder o que ganhou na cli-
nica. Mas, o Pinheiro precisa voltar ao tra-
balho e Ignezinha está morta de saudades dos filhos.
Garanto a minha volta, ainda não sei bem
quando será. Provavelmente em Abril do anno proxi-
mo. O noivo de Marina está em Vienna seguindo al-
guns cursos de especialidade e creio que antes de Março
não ficará prompto. E nós, só voltaremos com elle.
O casamento poderá se effectuar-se em S[ão] Paulo
logo depois da nossa chegada.
Para você, Isaura, filhos e netos mil saudades
e abraços da irmã muito grata e amiga
Nhanhâ
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Frankfurt, 5 - 7 1923.
Nhonhô
Vae esta em reforço ao telegramma de
parabens pelo seu anniversario, que enviei
hontem.
A você, desejo tudo o que a vida pode offerecer
de bom - a saúde, o conforto, a prosperi-
dade. E ainda uma cousa mais, e a me-
lhor - a sua felicidade e a de todos os
seus.
Que Maria Isaura seja sempre a mais lin-
da, o Zé Pedro o mais espirituoso e engraça-
dinho, o Ruy se pareça (no physico, Deus nos
livre) ao grande homem cujo nome traz, a
Beatriz que cumpra a promessa de ser tão
bella como o foi a xará e a Marina de
Isa que procure pôr os outros todos no chinel-
lo. Se tudo isto se realizar, como desejo e espe-
ro, o seu orgulho de avô tem do que ficar satis-
feito e você deve considerar-se um homem fe-
liz. Feliz sim, porque a ventura que vai ter
com os netos, será o prolongamento do que
tem tido com a mais dedicada das mulhe-
res e os melhores dos filhos.
De saúde, não vou mal, porque, de assucar só
ha o estrictamente necessário para o gasto. Tenho,
no sangue, 0,120, que é o normal. A engorda
[01-0129-Página 02]
2
é que vae um tanto lenta, mas tenho esperança que -
d’aqui em deante ande mais depressa. E a minha
demora na clinica depende d’isso, de poder eu le-
var alguns kilos (não muitos, que não convem)
mais do que trouxe. Com Elisa dá-se o mes-
mo. Porem, ella, talvez por ser mais moça na
edade e na diabete, já adquirio uns kilos mais
que eu.
Por falar em kilos…. O Oliveira Lima esteve 6
mezes na clinica, para desengordar. Ignoro se
tambem é diabetico, creio que não. Sei so-
mente que deixou aqui 40 kilos da sua respei-
tavel corpulencia e acha-se hoje em Lisboa donde
manda correspondencias para “O Estado”.
Não sei se as minhas finanças ahi vão bem;
de conformidade com os seus e meus desejos.
Aqui vão menos mal. Emquanto o marco pre-
cipita-se nas profundezas do abysmo, o dollar
vae para pincaros mais altos. Assim é que
as minhas despesas, amparadas pelo valor do dol-
lar, não me preoccupam.
Esta baixa phenomenal e continua do marco
é uma calamidade e significa a miseria a penu-
ria, a fome para uma grande parte, a maior, da
população.
E dizer-se na terra dos poincarés e acreditar-se
na nossa que a Allemanha, propositalmente, ar-
[01-0129-Página 03]
3
ruinou as suas finanças, reduzio o povo á miseria
das miserias, pura e simplesmente para ter o gostinho
de não pagar a sua divida! Serve-lhe de argumento
o dinheiro gasto em obras feitas no interior do paiz,
e fingem ignorar que essas obras (e foram muito
poucas) só foram determinadas pela exigencia das
circumstancias, com o unico intuito de dar ser-
viço e mitigar a fome aos sem trabalho.
A apparencia não diz, é verdade, do que vae nos bas-
tidores. Nas ruas, muito movimentadas, transita
gente das diversas classes sociais, todos confortavel
e decentemente vestidos. As confeitarias, os cafés, os
restaurantes regorgitam. Os locaes de divertimen-
tos - theatros, cinemas, cabarets etc, todos sempre
repletos. Mas isto não significa prosperidade.
É simplesmente a febre dos novos ricos que, se-
dentos de prazeres, procuram assim se in-
demnisar das privações do passado.
Não fosse a falta de aceio da cidade, antes tão
bem cuidada, e o encontro, aqui, de uns
sem pés andando sobre supportes de aço; ali, de
um cego; acola, de outro em interminaveis
contorsões convulsas; alem, de um outro, mise-
ro tronco sem pernas, jogado p[ar]a dentro de um carri-
nho; e de tantos outros ainda - tão ou mais des-
graçados, todos, victimas da guerra, a esmolar
pela cidade, quer esta seja Berlin ou Frankfurt;
[01-0129-Página 04]
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Não fossem os clamores dos jornaes que relatam
as scenas pungentes da miseria e as tragedias
intimas de familias inteiras que para se subtra-
hir ao pavoroso soffrimento se suicidam com
o gaz, e não fosse ainda o que se ouve contar
das torturas indizíveis d’aquelles, que, outrora
abastados, hoje, inaptos ao trabalho pela edade
ou pela doença, não sabem como prover á sua
subsistencia; E não se suspeitaria que um can-
cro monstruoso está carcomendo o juiz que,
como a Russia, em breve, não será mais que rui-
nas.
As cousas aqui estão por preços inacreditaveis.
Comprei, outro dia, 1 kilo de café torrado por 88,000
marcos, hoje a libra está custando mais que isso.
Um ovo custa 3.000 m[arcos]; 1 kilo de assucar, 8.000; 1 k[ilo]
de batatas, 10.000; 1 litro de leite, 12.000; 1 k[ilo] de carne
96.000. E isto não quer dizer que dentro de alguns
dias não esteja tudo custando duas, trez
não sei quantas vezes mais caro.
Dinheiro, marcos, ninguem pode guardar.
Ha dias uma creada da clinica pedio-me, com
muita insistência, como especial favor,que
lhe desse um dollar em troca de 160000 marcos,
como estava o cambio, porque, dizia ella, que
ria juntar dinheiro para comprar uma qual-
[01-0129-Página 05]
5
quer cousa de que muito necessitava. Tinha
guardado o dinheiro, digo, o ordenado de um mez
para, junto com o de outro, perfazer a importan
cia da compra, mas qual não foi a sua de-
cepção e tristeza quando verificou que os
seus marcos valiam pouco mais que nada,
porque o que queria comprar custava 5, 6
ou 10 vezes mais. Assim teve a coitada de
desistir d’aquillo de que tanto precisava. Tão con-
tente ficou quando recebeu o dollar que me
deu um vigoroso abraço.
Para ingleses, norte americanos e argentinos a
vida na Allemanha custa uma bagatella,
pouco mais que nada. A libra esterlina está
valendo quasi um milhão de marcos! Mes-
mo para nós, brasileiros, que adquirimos a
libra ou o dollar por muito dinheiro, a vida
não está cara.
Nonô e Cora continuam em Berlin. Esta,
satisfeitissima com o proveito que tem tira-
do do tratamento. Parece que voltará para casa
radicalmente curada das suas macacôas.
Em boa hora entreguei-a aos cuidados do
Kosttance. Nonô não foi tão feliz, por ter vis-
to o seu tratamento interrompido, durante mais
de 20 dias, por uma importuna “grippe” que
muito a enfraqueceu. No entanto já recome-
[01-0129-Página 06]
6
çou o tratamento do estomago e já tem obtido
algumas melhoras.
O Pinheiro e Ignezinha, que já em Maio foram
para Paris a chamado do irmão que estava a
morte, ainda lá se acham. Não sei se,
como pretendiam, vão para a Suissa ou vol-
tam para a companhia de Elisa.
Esta ja anda em diligencia de arranjar pas-
sagem no “Cap Polonio” que parte de Rotterdam,
onde pretende embarcar, a 14 de Setembro.
Entendo que ella não devia voltar antes de Ou-
tubro, para evitar a estadia em Paris no
mez de Agosto, que é horrorosamente quente.
A trabalheira que vou ter com a apromptação
da viagem e com as compras em tempo de
tanto calor, ha de prejudical-a muito na
saúde e fazel-a perder o que ganhou na cli-
nica. Mas, o Pinheiro precisa voltar ao tra-
balho e Ignezinha está morta de saudades dos filhos.
Garanto a minha volta, ainda não sei bem
quando será. Provavelmente em Abril do anno proxi-
mo. O noivo de Marina está em Vienna seguindo al-
guns cursos de especialidade e creio que antes de Março
não ficará prompto. E nós, só voltaremos com elle.
O casamento poderá se effectuar-se em S[ão] Paulo
logo depois da nossa chegada.
Para você, Isaura, filhos e netos mil saudades
e abraços da irmã muito grata e amiga
Nhanhâ
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô