Carta de Anna Maria de Moraes Burchard, 1925, 01-0000130
Metadados
Descrição
Carta de Anna Maria de Moraes Burchard para Antonio de Moraes Barros, Viena - Áustria, 1925
Código do documento
01-0000130
Remetente / Autor
Anna Maria de Moraes Burchard
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
terreno da rua Senador Queiroz | Moraes, Burchard & Cia | Cottage Sanatorium
Texto do documento
[01-0130-Página 01]
Vienna, 17 de Maio de 1925
Nhonhô
Deixei passar o dia 20 de Maio sem
dar parabens a Isaura. Ella que me per-
doe d’esta vez, que de outra….. eu não
faço mais. E que creia que a quero bem
deveras e não faça caso do desleixo e fal-
ta de lembrança da irmã mais velha.
A ella como a você, pelo seu aniversário, que
está a chegar, desejo de coração, com todos os
bens do mundo o maior e mais precioso - a
saúde. Que a tenham para dar e ven-
der e a repartam com filhos e netos, são
votos que ardentemente faço.
Entao o numero dos seus netos está em vias
de accressimo? Que este com que Maria e
Manoel Elpidio o vão presentear seja digno
companheiro dos irmãos em saúde e belle-
za.
Recebi a sua carta de 30 de Março em que me
conta da venda do terreno da rua Senador
Queiroz por 640 contos.
Fiquei e não fiquei contente com esse negocio.
Não sei se, justamente, quando a depre-
ciação da nossa moeda mais se accentúa
fazendo temer um desfecho fatal, a occasião
foi boa para desfazer-se a gente de um im-
movel como esse que não periclita desvalo-
risar-se mormente se não havia pressão
da necessidade.
[01-0130-Página 02]
2)
Ao mesmo tempo, o augmento da minha ren-
da proveniente dessa venda veio trazer-me
socego e dar-me animo para as despesas
obrigatorias e mesmo as superfluas que,
as mais das vezes, são inevitaveis.
Em todo caso dê ca um abraço pelo nego-
cio. Desde que você e Jorge acharam que
era bom, é porque era bom mesmo.
Eu é que destas longinquas plagas não
posso ajuizar com discernimento sobre o
que vae por ahi.
Uma pergunta: Com o dinheiro que o com-
prador do terreno ficou a dever para pa-
gar em diversos prazos, sendo o ultimo
de 3 annos, e afim de prevenir a sua des-
valorização, no caso do nosso rico mil-reis
baixar a casa do um, cuja previsão já
ouvi, não se poderia fazer acquisição
de um immovel qualquer que désse
renda e p[ar]a o pagamento se obtivesse
as mesmas condições de prazo?
Prevejo as dificuldades, mesmo a impos-
sibilidade de uma tal operação, que mais
depende da felicidade de um acaso.
Vi na minha conta com Moraes Burchard
& C[ompanhia] entradas de dinheiro provenientes
de vendas de terras do Noroeste. Foi
vendido tudo quanto eu tinha lá?
Deixei o “Cottage Sanatorium” onde
estive me tratando, saindo satisfeita
[01-0130-Página 03]
3)
com o resultado. Ainda continúo com as
insecções de insulina sob as vistas do me-
dico, Prof. Falta, a cujo consultorio vou uma
vez por semana.
Imagine que estou a pesar mais de 71 ki-
los, o que a acho demais. Estou vendo que,
se continuar assim, tenho de fazer regi-
men p[ar]a emmagrecer. No anno passa-
do, quando Paulo e Sinhá chegara a Pa-
ris, eu estava pesando menos de 60 kilos.
Como em Vinna o calor é insuppor-
tavel no mez de Julho, tenciono, para fugir a
elle e tambem seguir as prescripções do me-
dico, ir para aguma montanha na Suis-
sa, porem onde possa encontrar-me com
Nonô, que obteve licença de ausentar-se
temporariamente de Leysin, sob a condi
ção de voltar todos os 15 dias fazer o pneu-
mo-thorax.
O Juca acha-se em BudaPest onde encontrou
trabalho pratico em tal quantidade como
não é possivel obter aqui. Em Vienna,
não consentem que estudantes ou medi-
cos considerados como taes, se mettam a
fazer certas operações, as mais difficeis,
porem, em BudaPest, o arame fala alto.
O Juca é consciencioso e tem sido sempre
muito feliz. Ainda não entortou o nariz
de ninguem, nem ensurdecer qualquer doente,
e muito menos mandou algum cliente
[01-0130-Página 04]
4)
morar no cemiterio.
Marina que não tem necessidade de se
applicar em fazer operações e nem de
deixar-se derreter em BudaPest, que ain-
da é mais quente que Vienna, pretende
acompanhar-me a Suissa, isto é, se
á ultima hora não mudar.
De Elisa recebi um cartão de Monte Catini,
onde estavam todos passando bem, inclu-
sive Octavio. Terminada a estação ahi pa-
rece que pretendem ir p[ar]a a Suissa.
É muito provavel que nos encontremos
por lá.
Que tristeza a morte de Judith! Por Elisa
soube d’essa desgraça. De mais a mais
a coitadinha ainda foi victima de
um desastre de automovel. Estou só
a pensar na desolação que vae pela Villa
Godoy. Pobres Paes! Infeliz Avó! Oxalá a
chegada de Peró, de Bellita e das crianças dê
animo a essa pobre gente e os distraia
um pouco de tão cruciante soffrimento.
Tenho achado muita falta no
“Estado de São Paulo” que desde Janeiro não
recebo mais. Escrevi a Jorge mais de
uma vez, pedindo que me puzesse em
ordem a remessa do jornal, que estava
vindo em duplicata e com interval-
los muito longos. Imagine que duran-
te 6 mezes recebi duas assignaturas.
[01-0130-Página 05]
Eram 4 pacotes que; juntos, chegavam
uma vez por mez. Aqui em Vienna
para carregar os taes pacotes o carteiro exi-
gia pagamento.
Com a minha reclamação peorou a his-
toria, e em vez da avalanche de jornais
que chegavam de vez em quanto, não veio
mais nenhum. E eu fiquei sem noti-
cias d’ahi e sem ter o que ler.
Você não quererá providenciar para
uma assignatura até o fim do ano?
Se eu for-me embora antes, ficam os
jornaes p[ar]a o Juca. Que sejam, como
antes, remettidos a Richard Magnus,
28, Rue d’Hauteville Paris.
Numa mala que Marina enviou d’aqui
a Sinhá e que o Gordo deve levar, vae u-
ma caneta tinteiro, cousa especial, que
mando p[ar]a o Nino.
Saudades e abraços para você e Isaura
repartirem com as creanças e com
os filhos d’estas da irmã sempre
muito amiga
Nhanhâ.
Lista de apelidos:
Adolfo Afonso da Silva Gordo – Gordo[?]
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Francisco de Moraes Barros – Nino
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Isabel de Godói - Bellita
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
Otto Itrauss - Juca
Pedro de Moraes Barros – Peró
Vienna, 17 de Maio de 1925
Nhonhô
Deixei passar o dia 20 de Maio sem
dar parabens a Isaura. Ella que me per-
doe d’esta vez, que de outra….. eu não
faço mais. E que creia que a quero bem
deveras e não faça caso do desleixo e fal-
ta de lembrança da irmã mais velha.
A ella como a você, pelo seu aniversário, que
está a chegar, desejo de coração, com todos os
bens do mundo o maior e mais precioso - a
saúde. Que a tenham para dar e ven-
der e a repartam com filhos e netos, são
votos que ardentemente faço.
Entao o numero dos seus netos está em vias
de accressimo? Que este com que Maria e
Manoel Elpidio o vão presentear seja digno
companheiro dos irmãos em saúde e belle-
za.
Recebi a sua carta de 30 de Março em que me
conta da venda do terreno da rua Senador
Queiroz por 640 contos.
Fiquei e não fiquei contente com esse negocio.
Não sei se, justamente, quando a depre-
ciação da nossa moeda mais se accentúa
fazendo temer um desfecho fatal, a occasião
foi boa para desfazer-se a gente de um im-
movel como esse que não periclita desvalo-
risar-se mormente se não havia pressão
da necessidade.
[01-0130-Página 02]
2)
Ao mesmo tempo, o augmento da minha ren-
da proveniente dessa venda veio trazer-me
socego e dar-me animo para as despesas
obrigatorias e mesmo as superfluas que,
as mais das vezes, são inevitaveis.
Em todo caso dê ca um abraço pelo nego-
cio. Desde que você e Jorge acharam que
era bom, é porque era bom mesmo.
Eu é que destas longinquas plagas não
posso ajuizar com discernimento sobre o
que vae por ahi.
Uma pergunta: Com o dinheiro que o com-
prador do terreno ficou a dever para pa-
gar em diversos prazos, sendo o ultimo
de 3 annos, e afim de prevenir a sua des-
valorização, no caso do nosso rico mil-reis
baixar a casa do um, cuja previsão já
ouvi, não se poderia fazer acquisição
de um immovel qualquer que désse
renda e p[ar]a o pagamento se obtivesse
as mesmas condições de prazo?
Prevejo as dificuldades, mesmo a impos-
sibilidade de uma tal operação, que mais
depende da felicidade de um acaso.
Vi na minha conta com Moraes Burchard
& C[ompanhia] entradas de dinheiro provenientes
de vendas de terras do Noroeste. Foi
vendido tudo quanto eu tinha lá?
Deixei o “Cottage Sanatorium” onde
estive me tratando, saindo satisfeita
[01-0130-Página 03]
3)
com o resultado. Ainda continúo com as
insecções de insulina sob as vistas do me-
dico, Prof. Falta, a cujo consultorio vou uma
vez por semana.
Imagine que estou a pesar mais de 71 ki-
los, o que a acho demais. Estou vendo que,
se continuar assim, tenho de fazer regi-
men p[ar]a emmagrecer. No anno passa-
do, quando Paulo e Sinhá chegara a Pa-
ris, eu estava pesando menos de 60 kilos.
Como em Vinna o calor é insuppor-
tavel no mez de Julho, tenciono, para fugir a
elle e tambem seguir as prescripções do me-
dico, ir para aguma montanha na Suis-
sa, porem onde possa encontrar-me com
Nonô, que obteve licença de ausentar-se
temporariamente de Leysin, sob a condi
ção de voltar todos os 15 dias fazer o pneu-
mo-thorax.
O Juca acha-se em BudaPest onde encontrou
trabalho pratico em tal quantidade como
não é possivel obter aqui. Em Vienna,
não consentem que estudantes ou medi-
cos considerados como taes, se mettam a
fazer certas operações, as mais difficeis,
porem, em BudaPest, o arame fala alto.
O Juca é consciencioso e tem sido sempre
muito feliz. Ainda não entortou o nariz
de ninguem, nem ensurdecer qualquer doente,
e muito menos mandou algum cliente
[01-0130-Página 04]
4)
morar no cemiterio.
Marina que não tem necessidade de se
applicar em fazer operações e nem de
deixar-se derreter em BudaPest, que ain-
da é mais quente que Vienna, pretende
acompanhar-me a Suissa, isto é, se
á ultima hora não mudar.
De Elisa recebi um cartão de Monte Catini,
onde estavam todos passando bem, inclu-
sive Octavio. Terminada a estação ahi pa-
rece que pretendem ir p[ar]a a Suissa.
É muito provavel que nos encontremos
por lá.
Que tristeza a morte de Judith! Por Elisa
soube d’essa desgraça. De mais a mais
a coitadinha ainda foi victima de
um desastre de automovel. Estou só
a pensar na desolação que vae pela Villa
Godoy. Pobres Paes! Infeliz Avó! Oxalá a
chegada de Peró, de Bellita e das crianças dê
animo a essa pobre gente e os distraia
um pouco de tão cruciante soffrimento.
Tenho achado muita falta no
“Estado de São Paulo” que desde Janeiro não
recebo mais. Escrevi a Jorge mais de
uma vez, pedindo que me puzesse em
ordem a remessa do jornal, que estava
vindo em duplicata e com interval-
los muito longos. Imagine que duran-
te 6 mezes recebi duas assignaturas.
[01-0130-Página 05]
Eram 4 pacotes que; juntos, chegavam
uma vez por mez. Aqui em Vienna
para carregar os taes pacotes o carteiro exi-
gia pagamento.
Com a minha reclamação peorou a his-
toria, e em vez da avalanche de jornais
que chegavam de vez em quanto, não veio
mais nenhum. E eu fiquei sem noti-
cias d’ahi e sem ter o que ler.
Você não quererá providenciar para
uma assignatura até o fim do ano?
Se eu for-me embora antes, ficam os
jornaes p[ar]a o Juca. Que sejam, como
antes, remettidos a Richard Magnus,
28, Rue d’Hauteville Paris.
Numa mala que Marina enviou d’aqui
a Sinhá e que o Gordo deve levar, vae u-
ma caneta tinteiro, cousa especial, que
mando p[ar]a o Nino.
Saudades e abraços para você e Isaura
repartirem com as creanças e com
os filhos d’estas da irmã sempre
muito amiga
Nhanhâ.
Lista de apelidos:
Adolfo Afonso da Silva Gordo – Gordo[?]
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Francisco de Moraes Barros – Nino
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Isabel de Godói - Bellita
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
Otto Itrauss - Juca
Pedro de Moraes Barros – Peró