Carta de Paulo de Moraes Barros, 1903, 01-0000938
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Piracicaba - SP, 1903
Código do documento
01-0000938
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Texto do documento
[01-0938-Página 01]
Piracicaba, 29 de Abril de 1903
Nhônhô
Confirmo meu telegramma de hoje. Esta-
va eu tão satisfeito com as noticias de tua carta
de hontem, quando fui informado terem os joga-
dores recomeçado a construção das barracas, com
autorização do delegado João Pedreira. Verifiquei por
uma testemunha ocular que hoje as 8 horas da
manhã elle declarava aos jogadores no largo de
Santa Cruz - podem jogar á vontade; se a Camara
tiver direito de impedir a construção das barracas,
então joguem dentro das casas, que a policia garanti-
rá o jogo; o D[outo]r delegado auxilliar, accrescentou, disse-me
que precisa ir á S[ão] Paulo no dia 4, mas quer ver fun-
cionar a primeira [rolêta - palavra ilegível - original danificado] -. Não me contentando com
a noticia d'esta testemunha, que é o José Mendes,
tratei de indagar em outras fontes e verifiquei a
veracidade do facto. Hontem chegou de S[ão] Paulo o
escrivão do Zé Roberto, e dizem que foi elle quem
trouxe a autorização. Se assim fôr, bem vês que
haverá comnivencia das autoridades superiores, custan-
do-me, entretanto, á crer na do Firmiano Pinto,
a quem sempre considerei como um caracter puro.
Ainda não nos demos por vencidos. Hoje, por duas
vezes, procurei o Zé, para entender-me com elle
á respeito do pagamento dos impostos municipaes
(de licença), e saber se a condescendencia irá ao
ponto de permittir a jogatina, mesmo sem o paga-
mento d'esses impostos; não o encontrei, ficando eu
certo de repetir as visitas amanhã. Depois que ini-
[Na lateral esquerda, escrito na vertical]
Os jogadores pretendem fazer a festa de 1º até 13 de Maio!
[01-0938-Página 02]
iniciar-se a jogatina, estamos certos de, em
cumprimento da lei municipal respectiva,
requerer mandado judicial de busca e apprehen-
são dos instrumentos de jogo, ainda que com
quasi certeza de vel-o desrespeitado. Tentados
todos estes meios pacificos e legaes, verificada
a intenção criminosa do governo, nenhuma outra
providencia nos restará tomar em beneficio da
moralidade d'esta terra, e nada mais teremos a
fazer do que levar o facto á imprensa, protestar
energicamente contra elle, e, como ultimo recurso,
- aconselhar a toda a população d'esta cidade
que, para se defender da polícia e política de
jogadores e ladrões, cada um só poderá con-
tar com os proprios recursos exclusivamente.
Eu lavo as mãos d'esta aceitação[?] republicana,
e ao benemerito governo que caiba a gloria
de derrocar a obra de moralidade e de trabalho
republicano, que nos custou 13 anos de esforços.
- Da festa de Santa Cruz os governistas passarão
á deposição da Camara e d'esta, muito natu-
ralmente, ao saque do cofre municipal e do
Banco. De deposição já fallam sem rebuços.
- Sentimo-nos tão sem garantias, que dois membros
do directorio nosso e muitos correligionários vieram sugge-
rir-me a necessidade de adherirmos ao governo
para se poder viver n'esta terra.....!!!!!!!!!!!!!!!
Quanta miseria! Declarei-lhes que eu era um
voto no directorio e em desaccôrdo absoluto com essa
[01-0938-Página 03]
proposta de capitulação da dignidade, e que, se
a maioria do directorio se manifestasse favora-
vel a ella, eu me afastaria do directorio, para
facilitar o arranjo e mudarei de Piracicaba, para
não viver no meio de um povo deshaurado. O
Torquato, portador da proposta, declarou-me então
que a proposta era só no caso de eu acceital-a,
porque tinha a certeza de que o grosso do partido
me acompanhará em qualquer emergência.
E dizer que isto tudo é obra de um Lacerda, um
ladrão vulgar, um candidato ás galés........!
- Voltei hoje do Pau d'Alho, onde deixei Nhanhã
aboletada. Mamãe ficou para ir no domingo.
Communique-me por telegramma qualquer
novidade do Firmiano e Piza á respeito da
jogatina aqui, porque a ansiedade é muita
em toda a cidade e geral o receio de sermos
atacados pela gente da policia.
Saudades e abraços do
mano
Paulo
O Zé Roberto foi hontem á Capivary, onde
estão festando Santa Cruz, com jogatina franca,
e veio de lá muito influido, constando que
sua resolução de permittir a jogatina em
Piracicaba foi motivada pelo que lá observou.
Pois se em toda parte se joga, porque não
ha de jogar-se em Piracicaba? disse elle, segundo
constou-me.
Piracicaba, 29 de Abril de 1903
Nhônhô
Confirmo meu telegramma de hoje. Esta-
va eu tão satisfeito com as noticias de tua carta
de hontem, quando fui informado terem os joga-
dores recomeçado a construção das barracas, com
autorização do delegado João Pedreira. Verifiquei por
uma testemunha ocular que hoje as 8 horas da
manhã elle declarava aos jogadores no largo de
Santa Cruz - podem jogar á vontade; se a Camara
tiver direito de impedir a construção das barracas,
então joguem dentro das casas, que a policia garanti-
rá o jogo; o D[outo]r delegado auxilliar, accrescentou, disse-me
que precisa ir á S[ão] Paulo no dia 4, mas quer ver fun-
cionar a primeira [rolêta - palavra ilegível - original danificado] -. Não me contentando com
a noticia d'esta testemunha, que é o José Mendes,
tratei de indagar em outras fontes e verifiquei a
veracidade do facto. Hontem chegou de S[ão] Paulo o
escrivão do Zé Roberto, e dizem que foi elle quem
trouxe a autorização. Se assim fôr, bem vês que
haverá comnivencia das autoridades superiores, custan-
do-me, entretanto, á crer na do Firmiano Pinto,
a quem sempre considerei como um caracter puro.
Ainda não nos demos por vencidos. Hoje, por duas
vezes, procurei o Zé, para entender-me com elle
á respeito do pagamento dos impostos municipaes
(de licença), e saber se a condescendencia irá ao
ponto de permittir a jogatina, mesmo sem o paga-
mento d'esses impostos; não o encontrei, ficando eu
certo de repetir as visitas amanhã. Depois que ini-
[Na lateral esquerda, escrito na vertical]
Os jogadores pretendem fazer a festa de 1º até 13 de Maio!
[01-0938-Página 02]
iniciar-se a jogatina, estamos certos de, em
cumprimento da lei municipal respectiva,
requerer mandado judicial de busca e apprehen-
são dos instrumentos de jogo, ainda que com
quasi certeza de vel-o desrespeitado. Tentados
todos estes meios pacificos e legaes, verificada
a intenção criminosa do governo, nenhuma outra
providencia nos restará tomar em beneficio da
moralidade d'esta terra, e nada mais teremos a
fazer do que levar o facto á imprensa, protestar
energicamente contra elle, e, como ultimo recurso,
- aconselhar a toda a população d'esta cidade
que, para se defender da polícia e política de
jogadores e ladrões, cada um só poderá con-
tar com os proprios recursos exclusivamente.
Eu lavo as mãos d'esta aceitação[?] republicana,
e ao benemerito governo que caiba a gloria
de derrocar a obra de moralidade e de trabalho
republicano, que nos custou 13 anos de esforços.
- Da festa de Santa Cruz os governistas passarão
á deposição da Camara e d'esta, muito natu-
ralmente, ao saque do cofre municipal e do
Banco. De deposição já fallam sem rebuços.
- Sentimo-nos tão sem garantias, que dois membros
do directorio nosso e muitos correligionários vieram sugge-
rir-me a necessidade de adherirmos ao governo
para se poder viver n'esta terra.....!!!!!!!!!!!!!!!
Quanta miseria! Declarei-lhes que eu era um
voto no directorio e em desaccôrdo absoluto com essa
[01-0938-Página 03]
proposta de capitulação da dignidade, e que, se
a maioria do directorio se manifestasse favora-
vel a ella, eu me afastaria do directorio, para
facilitar o arranjo e mudarei de Piracicaba, para
não viver no meio de um povo deshaurado. O
Torquato, portador da proposta, declarou-me então
que a proposta era só no caso de eu acceital-a,
porque tinha a certeza de que o grosso do partido
me acompanhará em qualquer emergência.
E dizer que isto tudo é obra de um Lacerda, um
ladrão vulgar, um candidato ás galés........!
- Voltei hoje do Pau d'Alho, onde deixei Nhanhã
aboletada. Mamãe ficou para ir no domingo.
Communique-me por telegramma qualquer
novidade do Firmiano e Piza á respeito da
jogatina aqui, porque a ansiedade é muita
em toda a cidade e geral o receio de sermos
atacados pela gente da policia.
Saudades e abraços do
mano
Paulo
O Zé Roberto foi hontem á Capivary, onde
estão festando Santa Cruz, com jogatina franca,
e veio de lá muito influido, constando que
sua resolução de permittir a jogatina em
Piracicaba foi motivada pelo que lá observou.
Pois se em toda parte se joga, porque não
ha de jogar-se em Piracicaba? disse elle, segundo
constou-me.