Carta de Paulo de Moraes Barros, 1905, 05-0000067
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Piracicaba - SP, 1905
Código do documento
05-0000067
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Mario Bulcão | Fazenda Pau d'alho
Texto do documento
[05-0067-Página 01]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / MEDICO]
Piracicaba, 2 de Julho de 1903
Nhônhô
Conversei hoje reservadamente com
o Mario Bulcão, que veio inspeccionar os
estabelecimentos de ensino, e que confiden=
cialmente contou-me que o Lacerda dissera-
lhe para tirar o Côrte Brilho d’aqui, custasse
o que custasse, porque isso era questão resol=
vida e que ouvira tambem do Bento Bueno
que não podia brigar com os chefes do parti=
do – por causa do Côrte, e mais ouvira do
Lacerda – que o Ribas estava creando-lhe embara=
ços á minha demissão, mas, quem tem de
organisar (sic) Piracicaba sou eu, e veremos
se elle (Paulo) pode comigo (textual). Como
vês, entregue Piracicaba á perversidade do
Lacerda, que quer organizal-a por meio
de Moreira, Pedreiras, Juvenal, Amador, Gas=
par do Rego et reliqua, que, se ainda não nos
assaltou para roubar, é porque são covardes,
o que poderemos esperar?........ Está, pois, Pira=
cicaba condemnada tambem á sanha do Lacer=
da, com o consentimento tacito ou não de
todo o pessoal dirigente do Estado!! …… E have=
mos de ver o esforço continuado de 13 annos
se esboroar diante do capricho bestial de um
[05-0067-Página 02 - esquerda]
perverso, alliado a insaciedade de cinco ou seis
candidatos ás galés ….! E havemos de ver
a nossa instrucção publica anarchisada e a
nossa administração municipal na lama,
saqueado o respectivo cófre, que é a méta
dos esforços d’estes bandidos d’aqui, como elles
proprios apregoam………! E tudo isto em regi=
mem republicano, tudo isto no Estado de S[ão] Paulo,
tudo isto porque o S[e]n[ho]r Lacerda quer organizar
Piracicaba, …… como organizou o B[anco] União!...
E mais tarde, desapparecida que seja esta horda
de novos vandalos, teremos nós de emprehender
de novo a crusada da rehabilitação do nosso
municipio, se alguma cousa ainda tiver
escapado á razzia. Não ha outro remedio
senão ter paciencia e aguentarmos com a
situação como, ella se nos oferece, porque
isto que se observa aqui é apenas sympto=
ma do grande mal que affectou o paiz
inteiro – a podridão social e politica.
Por mais de uma vez tenho fallado com o
João Sampaio para se abater de criticar o
Governo e sua gente, porque bem sei que
isso só serve para aggravar a nossa autua=
ção, mas, de vez em quando elle reincide
na falta.
[05-0067-Página 02 - direita]
Eu desejava saber o que pensa a Com[iss]ão Executiva
do Partido Dissidente á respeito da vossa
attitude, e o que nos aconselha, mas, parece
que a Com[iss]ão não existe mais, ou se existe
não se preoccuppa com a sorte dos seus
correligionarios. O Guimarães está em S[ão] Paulo?
– Insista com o Mesquita para dar-me resposta
á respeito da subscripção aberta pelo Juvenal
do Amaral p[ar]a o mausoléo do Prudente.
– Não encontrei as cautellas da Mogyana, nem
na escrevaninha de Papae, nem em minha borsa[?]
– É preciso providenciar o cobre para as
despesas das fazendas, porque o meu está
esgotado no Banco, e no fim d’esta semana
tenho que fazer pagamentos ao pessoal das fa-
zendas. – Pergunte na C[ompanh]ia Lupton o preço
de dois arados de 8 discos cada um e se cus=
tarem de 200$ para menos (cada) faça
com que os remettam ao José Albano, no
Porto João Alfredo, com urgencia; é preciso
que tenham alavanca e engrenagem para mu=
dar a direcção dos discos.
– Logo que V[ocê] foi o João Sampaio reclamou
e eu paguei os 700$ da – Gazeta –.
Estou com o espirito muito atribulado com a
nossa actual situação politica e com mui=
[05-0067-Página 03]
to medo que qualquer dos cafajestes governistas
faça-me alguma aggressão pessoal, que me
obrigue a esquecer-me da calma e prudencia
tão necessarias agora. Foram nomeados sub-
delegado o cavallo do Zé Diogo e 2º supp[lent]e
do delegado o chuva do Juvenal, e por ahi
imagine o perigo em que estamos.
– Tenho um resto de café miudo quebrado bom,
menos[?] 70 saccas, no Páu D’Alho; pelo 1º portador
ao Guilherme P. da Silva – rua Direita, esquina
da S[ão] José, quanto paga por elle, afim de
ver se convem ou não remettel-as.
Abraços do
mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / MEDICO]
Piracicaba, 2 de Julho de 1903
Nhônhô
Conversei hoje reservadamente com
o Mario Bulcão, que veio inspeccionar os
estabelecimentos de ensino, e que confiden=
cialmente contou-me que o Lacerda dissera-
lhe para tirar o Côrte Brilho d’aqui, custasse
o que custasse, porque isso era questão resol=
vida e que ouvira tambem do Bento Bueno
que não podia brigar com os chefes do parti=
do – por causa do Côrte, e mais ouvira do
Lacerda – que o Ribas estava creando-lhe embara=
ços á minha demissão, mas, quem tem de
organisar (sic) Piracicaba sou eu, e veremos
se elle (Paulo) pode comigo (textual). Como
vês, entregue Piracicaba á perversidade do
Lacerda, que quer organizal-a por meio
de Moreira, Pedreiras, Juvenal, Amador, Gas=
par do Rego et reliqua, que, se ainda não nos
assaltou para roubar, é porque são covardes,
o que poderemos esperar?........ Está, pois, Pira=
cicaba condemnada tambem á sanha do Lacer=
da, com o consentimento tacito ou não de
todo o pessoal dirigente do Estado!! …… E have=
mos de ver o esforço continuado de 13 annos
se esboroar diante do capricho bestial de um
[05-0067-Página 02 - esquerda]
perverso, alliado a insaciedade de cinco ou seis
candidatos ás galés ….! E havemos de ver
a nossa instrucção publica anarchisada e a
nossa administração municipal na lama,
saqueado o respectivo cófre, que é a méta
dos esforços d’estes bandidos d’aqui, como elles
proprios apregoam………! E tudo isto em regi=
mem republicano, tudo isto no Estado de S[ão] Paulo,
tudo isto porque o S[e]n[ho]r Lacerda quer organizar
Piracicaba, …… como organizou o B[anco] União!...
E mais tarde, desapparecida que seja esta horda
de novos vandalos, teremos nós de emprehender
de novo a crusada da rehabilitação do nosso
municipio, se alguma cousa ainda tiver
escapado á razzia. Não ha outro remedio
senão ter paciencia e aguentarmos com a
situação como, ella se nos oferece, porque
isto que se observa aqui é apenas sympto=
ma do grande mal que affectou o paiz
inteiro – a podridão social e politica.
Por mais de uma vez tenho fallado com o
João Sampaio para se abater de criticar o
Governo e sua gente, porque bem sei que
isso só serve para aggravar a nossa autua=
ção, mas, de vez em quando elle reincide
na falta.
[05-0067-Página 02 - direita]
Eu desejava saber o que pensa a Com[iss]ão Executiva
do Partido Dissidente á respeito da vossa
attitude, e o que nos aconselha, mas, parece
que a Com[iss]ão não existe mais, ou se existe
não se preoccuppa com a sorte dos seus
correligionarios. O Guimarães está em S[ão] Paulo?
– Insista com o Mesquita para dar-me resposta
á respeito da subscripção aberta pelo Juvenal
do Amaral p[ar]a o mausoléo do Prudente.
– Não encontrei as cautellas da Mogyana, nem
na escrevaninha de Papae, nem em minha borsa[?]
– É preciso providenciar o cobre para as
despesas das fazendas, porque o meu está
esgotado no Banco, e no fim d’esta semana
tenho que fazer pagamentos ao pessoal das fa-
zendas. – Pergunte na C[ompanh]ia Lupton o preço
de dois arados de 8 discos cada um e se cus=
tarem de 200$ para menos (cada) faça
com que os remettam ao José Albano, no
Porto João Alfredo, com urgencia; é preciso
que tenham alavanca e engrenagem para mu=
dar a direcção dos discos.
– Logo que V[ocê] foi o João Sampaio reclamou
e eu paguei os 700$ da – Gazeta –.
Estou com o espirito muito atribulado com a
nossa actual situação politica e com mui=
[05-0067-Página 03]
to medo que qualquer dos cafajestes governistas
faça-me alguma aggressão pessoal, que me
obrigue a esquecer-me da calma e prudencia
tão necessarias agora. Foram nomeados sub-
delegado o cavallo do Zé Diogo e 2º supp[lent]e
do delegado o chuva do Juvenal, e por ahi
imagine o perigo em que estamos.
– Tenho um resto de café miudo quebrado bom,
menos[?] 70 saccas, no Páu D’Alho; pelo 1º portador
ao Guilherme P. da Silva – rua Direita, esquina
da S[ão] José, quanto paga por elle, afim de
ver se convem ou não remettel-as.
Abraços do
mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô