Carta de Paulo de Moraes Barros, 1907, 01-0000349
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Piracicaba - SP, 1907
Código do documento
01-0000349
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Fazenda Pau d'alho | Zé Diogo | Dr. Epaminondas | Pedro Paulo
Texto do documento
[01-0349-Página 01]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
Piracicaba, 4 de Agosto de 1907
Nhonhô
Não me conformei com a classificação
de nossos cafés miudos, feita pelo Cordeiro,
e n’esse sentido escrevi-lhe, demonstrando que
ainda não remettemos uma só sacca de café
inferior a – chato miudo regular – que em
justa classificação não deve descer alem de
7-8. Os cafés propriamente miudo, bem como
as escolhas e quebradinho ainda estão in=
tactos no Pau d’Alho e attingem a 1404 arro=
bas, excluidas 200 e tantas reservadas para
o gasto e p[ar]a vender a colonos. Do Ibicatú
ainda não verifiquei, o que farei ao terminar
a remessa brevemente, mas a ordem era
só remeter cafés bons até miudo, inclusive.
Em qualquer hypothese não foi uma só sacca
de escolhas. Estranho o caso tanto mais, pela
confiança que tenho no Cordeiro, que nem
amostras guardei.
Incluo carta do Fraga, actual director da
Agencia de Colonisação etc, etc, sobre recla=
mação minha a respeito da restituição de
passagens do colono Zeferino Colinas. Requei=
ra a Secretaria da Agricultura despacho;
são 15 libras, e o requerimento de restituição
foi feito em Setembro, se não me engano.
[Na lateral esquerda, escrito na vertical:]
Recebi hoje conta do Cordeiro, das 4$000[?] arrobas dos cafés
abaixo de typo 6, que foram classificadas até 8 o chato
miudo ordinario baixo. Com esta classificação eu não
reclamaria, apezar de julgal-a severa de mais.
[01-0349-Página 02]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
O Côrte Brilho deve aparecer-te ahi por
estes dias, pois, seguio hoje tomar posse
do cargo. Diga a elle que antes de pedir
demissão da escola isolada, permutte-a
com o Aquilino Pacheco Filho.
Vou escrever hoje ao Chico Botelho recla=
mando mobilia para uma porção de
escolas estadoaes; o Godoy expontaneamen=
te offereceu a mobilia que faltasse
e o Chico promptificou-se a remettel-a;
até hoje, apezar de diversas reclamações
da Intendencia, nada foi remettido.
– Em que ficamos sobre caçada? Eu estou
certo de partir d’aqui no di 11, de accôr=
do com a combinação feita com o Passa
Quatro; quem vae d’ahi, alem de Jorge, V[ocê] ou
Octavio? É preciso não deixar a resolução para
a ultima hora, porquanto o Passa Quatro já
se metteu em algumas despezas de aprompta=
ção por nossa causa, e já deve ter providen=
ciado conducção, que tudo importa em
quantia de certa monta.
De saude todos bons. Lolota teve colicas
ainda ante-hontem, mas, disse-me o Pen=
tagua, que vae bem agora.
Abraços a todos do mano
Paulo
[01-0349-Página 03]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
1
Piracicaba, 2 4 de Agosto de 1907
Nhônhô
Abri esta para dar noticia sobre o assassinato
do Zé Diogo, de que jornaes d’ahi devem ter tido
telegramma. A causa é conhecida na cidade
toda – deshonra de uma filha do Pedro Paulo pelo
Zé Diogo. Hoje desde cêdo constava que Pedro Paulo
e filho(3) andavam a procura do Zé Diogo, que
afinal, ao meio dia, encontraram, levando-o
o primeiro em um carro á casa do D[outo]r Epaminondas,
delegado em exercicio, sendo acompanhado pelos filhos
em outro carro. Entraram todos no escriptorio do
delegado, cuja casa fica, em seguida a do Juca Bravo,
nos fundos do Grupo M[oraes] Barros. Diante do delegado
fez o Pedro Paulo a accusação terminando pedindo
a reparação pelo casamento, affirmando o Zé Diogo
que não fora elle o autor do defloramento. Azedando
a discussão, dizem que o Pedro Paulo ameaçou a este,
que sem esperar a aggressão deu o primeiro tiro. No
escriptorio que é um cubiculozinho houve mais
outro tiro. O delegado, sozinho, em meio da lucta
saltou pela janella da rua e o Zé Diogo, acco=
metido pelo Pedro Paulo e filhos a punhal e re=
volver refugiou-se na varandinha, onde mais
alguns tiros foram trocados, aproveitando dois
ao Zé Diogo, um no braço e outro nas costas
proximo a axila esquerda, um ao Pedro Paulo,
na barriga [sobrescrito: nadega] e outro ao Jose [sobrescrito Leopoldo] Lagrecca, não sei onde (na casa)
[Na lateral esquerda, escrito na vertical:]
Verifiquei bem, o delegado não saltou pela janella, assistio quasi
toda a lucta; um momento que ausentou-se foi para fazer com que a moça
que estava na varanda, sahisse p[ar]a a rua, para evitar a zanha[?] do Pedro Paulo
que queria matal-a tambem.
[01-0349-Página 04]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
2
Estes tiros foram disparados - pelos aggressores de
cima para baixo, e pelo Zé Diogo, de baixo para
cima, achando-se este debaixo da meza de
jantar, onde os vestigios da lucta são maiores
e sangrentos. Creio que deixaram-n’o por morto
e voltando os agressores ao escriptorio, encontra=
ram com o Epaminondas que os prendeu sem
resistencia. Quem primeiro acudio foi o Mane=
quinho Ferraz, que encontrou o Zé Diogo sen=
tado na rêde, muito agitado, mas, contando
como se dera a occurrencia. Manequinho le-
vou-o para uma cama, onde o fez deitar-se,
começando elle a agonizar logo depois. Eu e
mais alguns companheiros que estavamos
no Club, chegamos depois encontrando-o nos ultimos
extertores. Autoridade presente estava o Certain,
estando o Epaminondas na cadeia p[ar]a onde con=
duzira presos o Pedro Paulo e filhos. São as
notas que pude colher no logar do crime;
mais tarde conversei com o Epaminondas,
que deve ser a melhor testemunha. Alem
dos ferimentos de bala, o Zé Diogo recebeu mais
12 ou 13 de faca, ou punhal, sem gravidade,
a maior parte nas mãos, segurando as armas
dos adversarios pelo gume. O facto propalou-se
logo pela cidade, não ouvi, porem, um só
[Na lateral esquerda, escrito na vertical:]
Disseram-me que o Pedro Paulo está ferido por bala, tambem
no peito e considerado grave o seu estado. Elle e filho estão
na Misericordia.
[01-0349-Página 05]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
3
commentario favoravel ao Zé Diogo, ouvindo
pelo contrario, muitos desfavoraveis, muito
duros até. – Pedro Paulo, sabes como toda gente,
é um tronca, muito ordinario como com=
merciante, mas amigo da familia.
– Incluo tambem carta de Mamãe recebida agora. O
que ha a respeito da venda da casa de Nha
Ritinha? Será possivel que tio Antoninho pense
seriamente em vendel-a, agora, depois dos ne=
gocios arranjados? Verifique isso com toda reser=
va e telegraphe-me, se entenderes que minha ida
pode ser de alguma utilidade. Quem sabe se alguem
contou a tio Antoninho do preço real da venda
da fazenda e elle quer vender a casa p[ar]a pagar-me?
É a unica explicação que me occorre; mas, se
fôr essa, é preciso, é indispensavel impedir a venda.
– Não encontrei o Epaminondas, mas, a tragedia deu-se
mais ou menos como relatei. Pedro Paulo foi chamar o Zé
Diogo em nome do delegado, sem sciencia d’este; no escripto=
rio interromperam um pouco a discussão, p[ar]a o Zé Diogo
conferenciar com a moça. Terminada a conversa elle
voltou e declarou peremptoriamente: “não fui eu o primei=
ro, não me caso com uma mulher perdida, vocês façam
o que entenderem”, ao que o Chico Lagrecco retarquio “eu
tinha o meu juizo feito”. Então o Pedro Paulo saccou do
revolver e deu dois tiros que não attingiram o Zé Diogo.
Abraços do mano Paulo
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
Piracicaba, 4 de Agosto de 1907
Nhonhô
Não me conformei com a classificação
de nossos cafés miudos, feita pelo Cordeiro,
e n’esse sentido escrevi-lhe, demonstrando que
ainda não remettemos uma só sacca de café
inferior a – chato miudo regular – que em
justa classificação não deve descer alem de
7-8. Os cafés propriamente miudo, bem como
as escolhas e quebradinho ainda estão in=
tactos no Pau d’Alho e attingem a 1404 arro=
bas, excluidas 200 e tantas reservadas para
o gasto e p[ar]a vender a colonos. Do Ibicatú
ainda não verifiquei, o que farei ao terminar
a remessa brevemente, mas a ordem era
só remeter cafés bons até miudo, inclusive.
Em qualquer hypothese não foi uma só sacca
de escolhas. Estranho o caso tanto mais, pela
confiança que tenho no Cordeiro, que nem
amostras guardei.
Incluo carta do Fraga, actual director da
Agencia de Colonisação etc, etc, sobre recla=
mação minha a respeito da restituição de
passagens do colono Zeferino Colinas. Requei=
ra a Secretaria da Agricultura despacho;
são 15 libras, e o requerimento de restituição
foi feito em Setembro, se não me engano.
[Na lateral esquerda, escrito na vertical:]
Recebi hoje conta do Cordeiro, das 4$000[?] arrobas dos cafés
abaixo de typo 6, que foram classificadas até 8 o chato
miudo ordinario baixo. Com esta classificação eu não
reclamaria, apezar de julgal-a severa de mais.
[01-0349-Página 02]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
O Côrte Brilho deve aparecer-te ahi por
estes dias, pois, seguio hoje tomar posse
do cargo. Diga a elle que antes de pedir
demissão da escola isolada, permutte-a
com o Aquilino Pacheco Filho.
Vou escrever hoje ao Chico Botelho recla=
mando mobilia para uma porção de
escolas estadoaes; o Godoy expontaneamen=
te offereceu a mobilia que faltasse
e o Chico promptificou-se a remettel-a;
até hoje, apezar de diversas reclamações
da Intendencia, nada foi remettido.
– Em que ficamos sobre caçada? Eu estou
certo de partir d’aqui no di 11, de accôr=
do com a combinação feita com o Passa
Quatro; quem vae d’ahi, alem de Jorge, V[ocê] ou
Octavio? É preciso não deixar a resolução para
a ultima hora, porquanto o Passa Quatro já
se metteu em algumas despezas de aprompta=
ção por nossa causa, e já deve ter providen=
ciado conducção, que tudo importa em
quantia de certa monta.
De saude todos bons. Lolota teve colicas
ainda ante-hontem, mas, disse-me o Pen=
tagua, que vae bem agora.
Abraços a todos do mano
Paulo
[01-0349-Página 03]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
1
Piracicaba, 2 4 de Agosto de 1907
Nhônhô
Abri esta para dar noticia sobre o assassinato
do Zé Diogo, de que jornaes d’ahi devem ter tido
telegramma. A causa é conhecida na cidade
toda – deshonra de uma filha do Pedro Paulo pelo
Zé Diogo. Hoje desde cêdo constava que Pedro Paulo
e filho(3) andavam a procura do Zé Diogo, que
afinal, ao meio dia, encontraram, levando-o
o primeiro em um carro á casa do D[outo]r Epaminondas,
delegado em exercicio, sendo acompanhado pelos filhos
em outro carro. Entraram todos no escriptorio do
delegado, cuja casa fica, em seguida a do Juca Bravo,
nos fundos do Grupo M[oraes] Barros. Diante do delegado
fez o Pedro Paulo a accusação terminando pedindo
a reparação pelo casamento, affirmando o Zé Diogo
que não fora elle o autor do defloramento. Azedando
a discussão, dizem que o Pedro Paulo ameaçou a este,
que sem esperar a aggressão deu o primeiro tiro. No
escriptorio que é um cubiculozinho houve mais
outro tiro. O delegado, sozinho, em meio da lucta
saltou pela janella da rua e o Zé Diogo, acco=
metido pelo Pedro Paulo e filhos a punhal e re=
volver refugiou-se na varandinha, onde mais
alguns tiros foram trocados, aproveitando dois
ao Zé Diogo, um no braço e outro nas costas
proximo a axila esquerda, um ao Pedro Paulo,
na barriga [sobrescrito: nadega] e outro ao Jose [sobrescrito Leopoldo] Lagrecca, não sei onde (na casa)
[Na lateral esquerda, escrito na vertical:]
Verifiquei bem, o delegado não saltou pela janella, assistio quasi
toda a lucta; um momento que ausentou-se foi para fazer com que a moça
que estava na varanda, sahisse p[ar]a a rua, para evitar a zanha[?] do Pedro Paulo
que queria matal-a tambem.
[01-0349-Página 04]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
2
Estes tiros foram disparados - pelos aggressores de
cima para baixo, e pelo Zé Diogo, de baixo para
cima, achando-se este debaixo da meza de
jantar, onde os vestigios da lucta são maiores
e sangrentos. Creio que deixaram-n’o por morto
e voltando os agressores ao escriptorio, encontra=
ram com o Epaminondas que os prendeu sem
resistencia. Quem primeiro acudio foi o Mane=
quinho Ferraz, que encontrou o Zé Diogo sen=
tado na rêde, muito agitado, mas, contando
como se dera a occurrencia. Manequinho le-
vou-o para uma cama, onde o fez deitar-se,
começando elle a agonizar logo depois. Eu e
mais alguns companheiros que estavamos
no Club, chegamos depois encontrando-o nos ultimos
extertores. Autoridade presente estava o Certain,
estando o Epaminondas na cadeia p[ar]a onde con=
duzira presos o Pedro Paulo e filhos. São as
notas que pude colher no logar do crime;
mais tarde conversei com o Epaminondas,
que deve ser a melhor testemunha. Alem
dos ferimentos de bala, o Zé Diogo recebeu mais
12 ou 13 de faca, ou punhal, sem gravidade,
a maior parte nas mãos, segurando as armas
dos adversarios pelo gume. O facto propalou-se
logo pela cidade, não ouvi, porem, um só
[Na lateral esquerda, escrito na vertical:]
Disseram-me que o Pedro Paulo está ferido por bala, tambem
no peito e considerado grave o seu estado. Elle e filho estão
na Misericordia.
[01-0349-Página 05]
[Papel timbrado: D[outo]r Paulo de Moraes Barros / Médico / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
3
commentario favoravel ao Zé Diogo, ouvindo
pelo contrario, muitos desfavoraveis, muito
duros até. – Pedro Paulo, sabes como toda gente,
é um tronca, muito ordinario como com=
merciante, mas amigo da familia.
– Incluo tambem carta de Mamãe recebida agora. O
que ha a respeito da venda da casa de Nha
Ritinha? Será possivel que tio Antoninho pense
seriamente em vendel-a, agora, depois dos ne=
gocios arranjados? Verifique isso com toda reser=
va e telegraphe-me, se entenderes que minha ida
pode ser de alguma utilidade. Quem sabe se alguem
contou a tio Antoninho do preço real da venda
da fazenda e elle quer vender a casa p[ar]a pagar-me?
É a unica explicação que me occorre; mas, se
fôr essa, é preciso, é indispensavel impedir a venda.
– Não encontrei o Epaminondas, mas, a tragedia deu-se
mais ou menos como relatei. Pedro Paulo foi chamar o Zé
Diogo em nome do delegado, sem sciencia d’este; no escripto=
rio interromperam um pouco a discussão, p[ar]a o Zé Diogo
conferenciar com a moça. Terminada a conversa elle
voltou e declarou peremptoriamente: “não fui eu o primei=
ro, não me caso com uma mulher perdida, vocês façam
o que entenderem”, ao que o Chico Lagrecco retarquio “eu
tinha o meu juizo feito”. Então o Pedro Paulo saccou do
revolver e deu dois tiros que não attingiram o Zé Diogo.
Abraços do mano Paulo
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô