Carta de Paulo de Moraes Barros, 1907, 01-0000498
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Piracicaba - SP, 1907
Código do documento
01-0000498
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Barboza & Cia
Texto do documento
[01-0498- Página 01]
[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
Piracicaba, 6 de Abril de 1907
Nhonho
Respondo a tua de hontem, que esque=
ceste de assignar.
Estou de accordo que a parte de Lucilla seja
transferida para o terreno do meu pasto aqui,
ou arrematada por mim em praça, se com o
Cincinato achares furo para contornar a diffi=
culdade da consideração de ordem moral, na
transacção que exige essa providencia. Barboza
& Cia. não poderão ter contemplação com cre=
dor que, tirando-lhes dinheiro para construir casa
de morada para si, aliena-a para o credor hy=
pothecario, deixando-as in aliis. Essa consi=
deração desapparecerá entretanto, si Barboza
& Cia. quizerem obrigar-se pelo fornecimento de
custeio durante duas safras, com garantia mi=
nha, menos para a divida de 31:000$ a vencer
em Junho. Acredito que a safra pendente e a de
1908 serão suficientes para liquidar essa divida
e o custeio de 2 annos, á começar em Janeiro
passado, o que quer dizer, incluidos os 3 contos
que já adiantaste. Para esta solução será neces=
sario que o Cerquinho autorise o devedor a
fazer o penhor agricola por dois annos, con=
tentando-se em receber as sobras, se houver.
Até lá tio Antoninho, vendendo partes de terra,
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[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
2
ou mesmo vendendo o sitio de Chico, liquidará
os outros credores chirographarios. Si esta
solução fôr viavel, é para mim a mais
sympathica, pois, me collocará na possi-
bilidade de repôr á minhas cunhadas o
dote de Nênê, que meu sogro não está
em condicções de dar a ellas, que precisam
mais do que os outros filhos actualmente.
– A solução que alvitras, de entrar eu para
o Cerquinho com o valor da casa, parece-
me apenas protelatoria. Daria este resul=
tado: eu entraria com 30 contos p[ar]a o Cerqui=
nho e com mais 9 ou 10 para o custeio. Mas,
como isto seria insufficiente até o fim da
colheita, meu sogro iria fazer penhor agrico-
la com algum novo commissario para arran=
jar o dinheiro que ha de faltar-lhe até remetter
café. Ao cabo de quatro annos a divida
Cerquinho estará de novo em 120 contos, o
debito chirographario em cerca de 150 com
os juros accumulados, eu no desembolso
dos 40, meu sobro mais insolvavel do que agora
e de novo angustiado. Para que tio Antoninho
não alargue de novo os cordões da bolsa e
não abuse do credito é indispensavel que
[01-0498- Página 03]
[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
3
se sinta apertado de um lado pela hypotheca
e anti-chrese, de outro pelo penhor agricola,
e isso mesmo com Chico longe de si.
– Outra solução que me occorre, ampliando a
que sugeres: tio Antoninho entrega a fazenda
ao Cerquinho, reservado o sitio em que está o
Chico, e recebe 40 contos com que tratará
de liquidar o debito chirographario, e fica=
rá com o sitio do Chico para principiar vida
nova e com a casa em S[ão] Paulo. Isto não
é desarrazoado, porque mais de 70 contos do
passivo do tio Antoninho são provenientes de
encampação de dividas do Chico. Este que
vá administrar, como faz o Leonardo Bote=
lho, mesmo porque está insolvavel de qual=
quer forma e n’um becco sem sahida.
Mas, mesmo sem o sitio de Chico a solução servi=
rá, porque estou prompto a ajudar meu sogro
a começar vida nova com 20, 30, 40 ou 50 contos.
N’este caso minhas cunhadas é que serão as pre=
judicadas.
Ficar eu credor unico, pagando os credores hy=
pothecario e chirographarios ainda que com gran=
de rebate, será para mim um pesado sacrifico,
com a pecha de haver expoliado meus cunhados.
[01-0498- Página 04]
[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
As soluções intermedias, de pagar eu com 50% os
chirographarios, ou de comprar a divida hy=
pothecaria, tem para mim os mesmos in=
convenientes, me envolveriam no embrulho e
tirar-me-iam a possibilidade de ser util
no futuro. Precisamos cogitar n’este que ainda
pode ser mais sombrio que o presente. Não
é com Chico, nem com o Sylvio, que está
seguindo a mesma vereda, que poderemos contar
Já fallei com o João Sampaio sobre a
procuração de Mimi, que seguirá depois de
amanhã.
Nênê, por imprudencia, está de novo de môlho,
e, felizmente, de môlho, porque assim não
commette mais asneiras.
– Cançado de pedir local, p[ar]a posto de tracho=
ma em S[ão] Pedro, á Camara Municipal, arran=
jei-o com o J[oaqui]m Norberto e na 5ª feira proxi=
ma será inaugurado. Os cafagestes de lá que se
ralem. Sexta feira irei inspeccionar o posto
da Boa Esperança.
Abraços a Isaura e filhos, do
mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Elisa Ferraz de Sales Moraes Barros – Nenê / Nênê
Gastão de Sousa Mesquita Filho – Mimi
[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
Piracicaba, 6 de Abril de 1907
Nhonho
Respondo a tua de hontem, que esque=
ceste de assignar.
Estou de accordo que a parte de Lucilla seja
transferida para o terreno do meu pasto aqui,
ou arrematada por mim em praça, se com o
Cincinato achares furo para contornar a diffi=
culdade da consideração de ordem moral, na
transacção que exige essa providencia. Barboza
& Cia. não poderão ter contemplação com cre=
dor que, tirando-lhes dinheiro para construir casa
de morada para si, aliena-a para o credor hy=
pothecario, deixando-as in aliis. Essa consi=
deração desapparecerá entretanto, si Barboza
& Cia. quizerem obrigar-se pelo fornecimento de
custeio durante duas safras, com garantia mi=
nha, menos para a divida de 31:000$ a vencer
em Junho. Acredito que a safra pendente e a de
1908 serão suficientes para liquidar essa divida
e o custeio de 2 annos, á começar em Janeiro
passado, o que quer dizer, incluidos os 3 contos
que já adiantaste. Para esta solução será neces=
sario que o Cerquinho autorise o devedor a
fazer o penhor agricola por dois annos, con=
tentando-se em receber as sobras, se houver.
Até lá tio Antoninho, vendendo partes de terra,
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[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
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ou mesmo vendendo o sitio de Chico, liquidará
os outros credores chirographarios. Si esta
solução fôr viavel, é para mim a mais
sympathica, pois, me collocará na possi-
bilidade de repôr á minhas cunhadas o
dote de Nênê, que meu sogro não está
em condicções de dar a ellas, que precisam
mais do que os outros filhos actualmente.
– A solução que alvitras, de entrar eu para
o Cerquinho com o valor da casa, parece-
me apenas protelatoria. Daria este resul=
tado: eu entraria com 30 contos p[ar]a o Cerqui=
nho e com mais 9 ou 10 para o custeio. Mas,
como isto seria insufficiente até o fim da
colheita, meu sogro iria fazer penhor agrico-
la com algum novo commissario para arran=
jar o dinheiro que ha de faltar-lhe até remetter
café. Ao cabo de quatro annos a divida
Cerquinho estará de novo em 120 contos, o
debito chirographario em cerca de 150 com
os juros accumulados, eu no desembolso
dos 40, meu sobro mais insolvavel do que agora
e de novo angustiado. Para que tio Antoninho
não alargue de novo os cordões da bolsa e
não abuse do credito é indispensavel que
[01-0498- Página 03]
[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
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se sinta apertado de um lado pela hypotheca
e anti-chrese, de outro pelo penhor agricola,
e isso mesmo com Chico longe de si.
– Outra solução que me occorre, ampliando a
que sugeres: tio Antoninho entrega a fazenda
ao Cerquinho, reservado o sitio em que está o
Chico, e recebe 40 contos com que tratará
de liquidar o debito chirographario, e fica=
rá com o sitio do Chico para principiar vida
nova e com a casa em S[ão] Paulo. Isto não
é desarrazoado, porque mais de 70 contos do
passivo do tio Antoninho são provenientes de
encampação de dividas do Chico. Este que
vá administrar, como faz o Leonardo Bote=
lho, mesmo porque está insolvavel de qual=
quer forma e n’um becco sem sahida.
Mas, mesmo sem o sitio de Chico a solução servi=
rá, porque estou prompto a ajudar meu sogro
a começar vida nova com 20, 30, 40 ou 50 contos.
N’este caso minhas cunhadas é que serão as pre=
judicadas.
Ficar eu credor unico, pagando os credores hy=
pothecario e chirographarios ainda que com gran=
de rebate, será para mim um pesado sacrifico,
com a pecha de haver expoliado meus cunhados.
[01-0498- Página 04]
[Papel timbrado: D[outo]r PAULO DE MORAES BARROS / MÉDICO / Rua do Commercio, 141 / Piracicaba]
As soluções intermedias, de pagar eu com 50% os
chirographarios, ou de comprar a divida hy=
pothecaria, tem para mim os mesmos in=
convenientes, me envolveriam no embrulho e
tirar-me-iam a possibilidade de ser util
no futuro. Precisamos cogitar n’este que ainda
pode ser mais sombrio que o presente. Não
é com Chico, nem com o Sylvio, que está
seguindo a mesma vereda, que poderemos contar
Já fallei com o João Sampaio sobre a
procuração de Mimi, que seguirá depois de
amanhã.
Nênê, por imprudencia, está de novo de môlho,
e, felizmente, de môlho, porque assim não
commette mais asneiras.
– Cançado de pedir local, p[ar]a posto de tracho=
ma em S[ão] Pedro, á Camara Municipal, arran=
jei-o com o J[oaqui]m Norberto e na 5ª feira proxi=
ma será inaugurado. Os cafagestes de lá que se
ralem. Sexta feira irei inspeccionar o posto
da Boa Esperança.
Abraços a Isaura e filhos, do
mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Elisa Ferraz de Sales Moraes Barros – Nenê / Nênê
Gastão de Sousa Mesquita Filho – Mimi