Carta de Paulo de Moraes Barros, 1924, 01-0000093
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Vichy - França, 1924
Código do documento
01-0000093
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Cesário Motta | Heitor Penteado | Morato | Porchat | Steidel
Texto do documento
[01-0093-Página 01]
Vichy, 16 de Julho de 1924
Nhônhô
Até hoje, pode-se dizer, a unica carta
recebida de S[ão] Paulo foi a tua de 8 do passado;
alem della recebemos duas meias cartas de
Jorge e outras meias de Leninha e de Zelina.
Si já era grande nossa inquietação pelas noti-
cias resumidas, maior se tornou esta depois
do dia 6, com as noticias de revolução, revolta,
insurreição, ou que melhor nome tenha o mo-
vimento sanguinolento iniciado em S[ão] Paulo,
movimento cuja censura difficulta e, não sabe-
mos quando, permittirá a passagem da corres-
pondencia com as noticias verdadeiras. Por
enquanto as que nos chegam, via embaixadas,
Paris e Londres, são escassas, por demais discretas
e pouco verossimeis pelo excessivo optimismo, em
contradicção com a duração do movimento; e as
demais, via imprensa de Paris, Londres e New-
York, quasi todas forjadas em Buenos Aires, são
suspeitas pela origem e desenfreado pessimismo.
Á principio diziam que era uma insurreição de
parte da Força Publica e da federal aquartella-
da em S[an]ta Anna, com o Rondon á frente, que
conseguira tomar os dois palacios da presi-
dencia, em seguida libertados, tendo aprisionado
[01-0093-Página 02]
2
o general Noronha, comandante do districto. Depois,
que a sedição se alastrara ao Estado, ao Rio, e
ao Sul, obrigando, depois de mortifero combate em
S[ão] Bernardo, o Governo de S[ão] Paulo á se transferir
para Santos. Hontem os telegrammas noticiam um
bombardeio do quartel da Luz, com mais de
3000 mortos militares e civis. Hoje, que em S[ão] Paulo
está organisado um Governo provisorio com Mora-
to, Porchat e Steidel á frente. Pelo que conjecturo
como mais razoavel, o movimento de caracter ge-
ral, aproveitou a dissensão politica em S[ão] Paulo e os
descontentamentos da Força Publica encabeçadas pelos
T[enent]es C[oron]eis Lejeune e Afro Marcondes, para ahi irromper.
Parece fóra de duvida tambem que os rebeldes es-
tão senhores da Capital e que, para não impo-
pularisar os seus fins, recorreram aquele trium-
virato para impedir a anarchia, o que aconte-
ceria se estivessem á mostra Kakás, Altino e
Eloy Chaves. Por outro lado afigura-se-me que o
governo federal não dispõe de tropas fieis suffi-
cientes para circunscrever o movimento, nem es-
magal-o em sua séde, receiando desguarnecer os pon-
tos criticos. Uma das noticias affirma no principio
que os rebeldes são menos de 7000, e no fim, que
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3
excedem de 34000. O que é fóra de duvida é ser
muito grave a situação e que muito mais grave
se pode tornar. Suas consequencias, então, serão ca-
lamitosas; a £ já deve andar beirando 50$ e o dollar
14$. Si o emprestimo federal, apezar de todos os
córtes de despesas e augmentos de arrecadação, já es-
tava fracassado, ou quasi, agora será inteiramen-
te impossivel. Á quanto rolará nosso cambio? A
que ficarão reduzidos, o valôr da moeda papel e
os titulos brasileiros?! Não é impossivel que nos
espere a mesma sorte da Alemanha, apenas sem
a obrigação das reparações. Em principio sou contra
todas a reivindicações violentas, a não ser no ex-
tremo dos extremos, mas, o certo é que a olygarchia
aviltou por tal forma os fóros politico-administra-
tivos de S[ão] Paulo, que pergunto á mim proprio, si
não se teria chegado ahi ao extremo dos extremos!
Então, o Altino, com o seu talento, e o Washington,
com a sua apregoada honestidade, reduziram á
pó de traque a fama de nossa terra.
E os nossos e os meus, como estão se comportando nestes dias
de angustias? Leninha, tão difficil de ser conduzida, on-
de estará refugiada com os dois filhinhos? …… Se a
minha tranquillidade á respeito não pode ser completa,
[01-0093-Página 04]
4
conforta-me a certeza que ella encontrará junto a
vocês o mesmo agasalho solidario de sempre.
Vichy está cheio de brasileiros, entre elles o Frontin, o
Celidonio, o Adriano de Barros, todos à quo como eu
sobre noticias da terra. O que nos vale a todos é a
saude relativamente boa que gozamos. Nas horas das
fontes fazemos circulos aqui, ali e alem, no meio
do borborinho dos aquaticos, commentando as de-
sencontradas notícias sobre a revolução.
O nosso bando vae bem, com excepção de Nônô, cuja gri-
pe desandou em franca tuberculose, porenquanto diagnos-
ticada apenas clinicamente, sem exame bacteriologico.
Encontrei-a, por occasião do nosso regresso da Ingla-
terra, de novo com altas temperaturas, outros fócos pul-
monares congestivos, um dos quaes no apice do es-
querdo e descahindo dia á dia. Como o laudo se acha
em estado tão precario que não pode se desunir, e
a mais remitente ao tratamento em clima apropria-
do, no caso - o da Suissa - é a mesma Leonor, não tive-
mos outra solução senão a de virmos todos a
Vichy, onde a altitude é impropria e o calôr
tão opprimente como nos dias noroestados de S[ão] Paulo
Apezar de condicções tão desfavoraveis e da viagem
attribulada de Paris até aqui, a febre começou
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5
a declinar; hontem só teve 37º,7 e hoje (3 da tarde) não
passou de 37. Não é impossivel que o processo de tu-
berculisação activa se circunscreva ao estado pre-
sente e que ella se restabeleça, apezar dos pezares,
assim como é muito possivel que a remissão da
febre seja de pouca duração, reapparecendo logo
que, terminada a evacuação de um fóco, um outro
ao lado se forme. Seja como fôr, ou para atalhar a
molestia ainda atalhavel, ou para consolidar a
cura, ella precisa passar uns bons 6 mezes, inicial-
mente, em qualquer estação de montanha, de
preferencia na Suissa. Isso é tanto mais necessario
porque não sendo este hotel, nem a região, de trata-
mento de tuberculosos, estou a ver o momento em
que os prolongados accessos de tosse mais que sus-
peita que a affligem, seja motivos para uma
intimação para procurarmos outra freguezia, e
isso em prazo curtissimo. Enfim, são hypotheses, porem,
tanto mais desagradaveis, quando é certo que, para
se achar n’esta quadra um quarto vago em qualquer parte
é preciso prevenir com mais de 30 dias de antecedencia
e d’aqui á Suissa são dois dias em trens superlotados.
O principal é que a febre nos dê treguas e tempo
de vencer a resistencia teimosa da mana. Nas
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7
montanhas, com uma boa enfermeira governante ao
lado e nós á prompto alcance, ella ficará bem, em-
quanto eu cuido de dar arrumação a Nhanhâ. Esta,
ainda que muito melhor, não está capaz de se guiar
por si, em viagem até Vienna, para se acolher a
sombra da filha e do genro. Mesmo em sua fra-
queza e decrepitude ella é uma providencia para Nônô
e principalmente em seu beneficio precisa separar-
se della. — Córa aproveitou bastante as duas
semanas de Inglaterra e tenho esperança de leval-
a de regresso boa dos nervos, como boa está da colite;
apenas da obcessão do regimen alimentar é que não
se cura, mas, antes assim. Eu, suponho que estou
com a engenhóca parada, não só porque me sinto
bem, quasi esquecido das gastralgias, como porque
tambem vivo no duro do regimen. Estou á espera
de instrucções definitivas do Calmon para saber
se sigo ou não para o Egypto e agora com von-
tade de fazer essa viagem. A bagagem prepara-
toria de estudos e informações sobre cultura
de algodão foi de tal ordem e tão preciosa,
que aguçou-me o desejo de realizal-a, habilitan-
do-me com elementos de difficilima obtenção
e com a pretenção de proveitosos resultados para
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8
nossa terra. Imagine isto: um mez de licções sobre barra-
gens, irrigação, cultura, solo e sub-sólo no Egypto com
Audebean-Bey, a maior autoridade no assumpto, pois
lá viveu n’esses trabalhos e estudos 40 annos, dos
quaes mais de 20 como engenheiro chefe dos serviços,
sabio de verdade, cujo precioso archivo tive e tenho
á disposição; cartas d’elle e de outros para todos
os figurões politicos e profissionaes do algodão
e até uma do governador de Gibraltar p[ar]a Zaghloul
Pachá, primeiro ministro, arranjada pelo Edmundo
Huffen Baecher; plano completo de viagem a todas
as regiões e serviços interessantes, com cartas de
apresentação a cada um dos chefes. Não é mes-
mo de enguiçar? E por fallar em Audebean
Bey, o velho está tão meu amigo e tão enthu-
siasmado com as possibilidades de S[ão] Paulo,
que deseja ahi collocar, em terras á valorizar
ção ou em empreza de cultura de algodão
dirigida ou propiciada por mim, uns 300 a
400.000 fr[anco]s de suas reservas. Prometti-lhe fazer
o possivel para servil-o, mas, só desejo fazel-o
em qualquer bôlo bom da irmandade, corren-
do os mesmos riscos que nós. Não te esqueças, pois,
delle se qualquer boa opportunidade se apresentar.
[01-0093-Página 08]
9
E o Paulo 2 como vae? Já encontrou novo meio
de vida? Vontade de trabalhar e aptidão
profissional não lhe faltam. Elle precisa de
um pouco mais de constancia no esforço e
menor liberalidade nas despezas. A divergencia
com o Plinio eu já a observara esboçada ahi,
por causa de vencimentos e porcentagem de interes-
ses, combinados, mas, não escriptos. Parece que elle
pensa em trabalhar com o Saturnino de Brito, na Pa-
rahyba; melhor apoio não poderá ter, apenas com
o inconveniente de ficar empregado a ordenado fixo.
Como elle, o Paulo, naturalmente procurará ouvir
os tios, ajudem-n’o a achar o trilho para conti-
nuar a marchar para a frente.
E dem-nos notícias quanto antes da terra e
da gente, que estamos sobre brazas.
Ainda bem que Jorge não teve a visita dos - Ste-
phonoderes; agora com a revolta o bichinho in-
vadirá todos os recantos; aliás era só questão
de tempo, quando Jana com a sua excellente or-
ganização defensiva não conseguio evital-o, como
o conseguiriamos nós com o C. Motta e o H. Penteado?!
Reparta com todos de casa - abraços de Sinhá
Córa, Nhanhã, Nônô e do mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhã
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Helena de Moraes Barros – Leninha
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
Vichy, 16 de Julho de 1924
Nhônhô
Até hoje, pode-se dizer, a unica carta
recebida de S[ão] Paulo foi a tua de 8 do passado;
alem della recebemos duas meias cartas de
Jorge e outras meias de Leninha e de Zelina.
Si já era grande nossa inquietação pelas noti-
cias resumidas, maior se tornou esta depois
do dia 6, com as noticias de revolução, revolta,
insurreição, ou que melhor nome tenha o mo-
vimento sanguinolento iniciado em S[ão] Paulo,
movimento cuja censura difficulta e, não sabe-
mos quando, permittirá a passagem da corres-
pondencia com as noticias verdadeiras. Por
enquanto as que nos chegam, via embaixadas,
Paris e Londres, são escassas, por demais discretas
e pouco verossimeis pelo excessivo optimismo, em
contradicção com a duração do movimento; e as
demais, via imprensa de Paris, Londres e New-
York, quasi todas forjadas em Buenos Aires, são
suspeitas pela origem e desenfreado pessimismo.
Á principio diziam que era uma insurreição de
parte da Força Publica e da federal aquartella-
da em S[an]ta Anna, com o Rondon á frente, que
conseguira tomar os dois palacios da presi-
dencia, em seguida libertados, tendo aprisionado
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o general Noronha, comandante do districto. Depois,
que a sedição se alastrara ao Estado, ao Rio, e
ao Sul, obrigando, depois de mortifero combate em
S[ão] Bernardo, o Governo de S[ão] Paulo á se transferir
para Santos. Hontem os telegrammas noticiam um
bombardeio do quartel da Luz, com mais de
3000 mortos militares e civis. Hoje, que em S[ão] Paulo
está organisado um Governo provisorio com Mora-
to, Porchat e Steidel á frente. Pelo que conjecturo
como mais razoavel, o movimento de caracter ge-
ral, aproveitou a dissensão politica em S[ão] Paulo e os
descontentamentos da Força Publica encabeçadas pelos
T[enent]es C[oron]eis Lejeune e Afro Marcondes, para ahi irromper.
Parece fóra de duvida tambem que os rebeldes es-
tão senhores da Capital e que, para não impo-
pularisar os seus fins, recorreram aquele trium-
virato para impedir a anarchia, o que aconte-
ceria se estivessem á mostra Kakás, Altino e
Eloy Chaves. Por outro lado afigura-se-me que o
governo federal não dispõe de tropas fieis suffi-
cientes para circunscrever o movimento, nem es-
magal-o em sua séde, receiando desguarnecer os pon-
tos criticos. Uma das noticias affirma no principio
que os rebeldes são menos de 7000, e no fim, que
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excedem de 34000. O que é fóra de duvida é ser
muito grave a situação e que muito mais grave
se pode tornar. Suas consequencias, então, serão ca-
lamitosas; a £ já deve andar beirando 50$ e o dollar
14$. Si o emprestimo federal, apezar de todos os
córtes de despesas e augmentos de arrecadação, já es-
tava fracassado, ou quasi, agora será inteiramen-
te impossivel. Á quanto rolará nosso cambio? A
que ficarão reduzidos, o valôr da moeda papel e
os titulos brasileiros?! Não é impossivel que nos
espere a mesma sorte da Alemanha, apenas sem
a obrigação das reparações. Em principio sou contra
todas a reivindicações violentas, a não ser no ex-
tremo dos extremos, mas, o certo é que a olygarchia
aviltou por tal forma os fóros politico-administra-
tivos de S[ão] Paulo, que pergunto á mim proprio, si
não se teria chegado ahi ao extremo dos extremos!
Então, o Altino, com o seu talento, e o Washington,
com a sua apregoada honestidade, reduziram á
pó de traque a fama de nossa terra.
E os nossos e os meus, como estão se comportando nestes dias
de angustias? Leninha, tão difficil de ser conduzida, on-
de estará refugiada com os dois filhinhos? …… Se a
minha tranquillidade á respeito não pode ser completa,
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conforta-me a certeza que ella encontrará junto a
vocês o mesmo agasalho solidario de sempre.
Vichy está cheio de brasileiros, entre elles o Frontin, o
Celidonio, o Adriano de Barros, todos à quo como eu
sobre noticias da terra. O que nos vale a todos é a
saude relativamente boa que gozamos. Nas horas das
fontes fazemos circulos aqui, ali e alem, no meio
do borborinho dos aquaticos, commentando as de-
sencontradas notícias sobre a revolução.
O nosso bando vae bem, com excepção de Nônô, cuja gri-
pe desandou em franca tuberculose, porenquanto diagnos-
ticada apenas clinicamente, sem exame bacteriologico.
Encontrei-a, por occasião do nosso regresso da Ingla-
terra, de novo com altas temperaturas, outros fócos pul-
monares congestivos, um dos quaes no apice do es-
querdo e descahindo dia á dia. Como o laudo se acha
em estado tão precario que não pode se desunir, e
a mais remitente ao tratamento em clima apropria-
do, no caso - o da Suissa - é a mesma Leonor, não tive-
mos outra solução senão a de virmos todos a
Vichy, onde a altitude é impropria e o calôr
tão opprimente como nos dias noroestados de S[ão] Paulo
Apezar de condicções tão desfavoraveis e da viagem
attribulada de Paris até aqui, a febre começou
[01-0093-Página 05]
5
a declinar; hontem só teve 37º,7 e hoje (3 da tarde) não
passou de 37. Não é impossivel que o processo de tu-
berculisação activa se circunscreva ao estado pre-
sente e que ella se restabeleça, apezar dos pezares,
assim como é muito possivel que a remissão da
febre seja de pouca duração, reapparecendo logo
que, terminada a evacuação de um fóco, um outro
ao lado se forme. Seja como fôr, ou para atalhar a
molestia ainda atalhavel, ou para consolidar a
cura, ella precisa passar uns bons 6 mezes, inicial-
mente, em qualquer estação de montanha, de
preferencia na Suissa. Isso é tanto mais necessario
porque não sendo este hotel, nem a região, de trata-
mento de tuberculosos, estou a ver o momento em
que os prolongados accessos de tosse mais que sus-
peita que a affligem, seja motivos para uma
intimação para procurarmos outra freguezia, e
isso em prazo curtissimo. Enfim, são hypotheses, porem,
tanto mais desagradaveis, quando é certo que, para
se achar n’esta quadra um quarto vago em qualquer parte
é preciso prevenir com mais de 30 dias de antecedencia
e d’aqui á Suissa são dois dias em trens superlotados.
O principal é que a febre nos dê treguas e tempo
de vencer a resistencia teimosa da mana. Nas
[01-0093-Página 06]
7
montanhas, com uma boa enfermeira governante ao
lado e nós á prompto alcance, ella ficará bem, em-
quanto eu cuido de dar arrumação a Nhanhâ. Esta,
ainda que muito melhor, não está capaz de se guiar
por si, em viagem até Vienna, para se acolher a
sombra da filha e do genro. Mesmo em sua fra-
queza e decrepitude ella é uma providencia para Nônô
e principalmente em seu beneficio precisa separar-
se della. — Córa aproveitou bastante as duas
semanas de Inglaterra e tenho esperança de leval-
a de regresso boa dos nervos, como boa está da colite;
apenas da obcessão do regimen alimentar é que não
se cura, mas, antes assim. Eu, suponho que estou
com a engenhóca parada, não só porque me sinto
bem, quasi esquecido das gastralgias, como porque
tambem vivo no duro do regimen. Estou á espera
de instrucções definitivas do Calmon para saber
se sigo ou não para o Egypto e agora com von-
tade de fazer essa viagem. A bagagem prepara-
toria de estudos e informações sobre cultura
de algodão foi de tal ordem e tão preciosa,
que aguçou-me o desejo de realizal-a, habilitan-
do-me com elementos de difficilima obtenção
e com a pretenção de proveitosos resultados para
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nossa terra. Imagine isto: um mez de licções sobre barra-
gens, irrigação, cultura, solo e sub-sólo no Egypto com
Audebean-Bey, a maior autoridade no assumpto, pois
lá viveu n’esses trabalhos e estudos 40 annos, dos
quaes mais de 20 como engenheiro chefe dos serviços,
sabio de verdade, cujo precioso archivo tive e tenho
á disposição; cartas d’elle e de outros para todos
os figurões politicos e profissionaes do algodão
e até uma do governador de Gibraltar p[ar]a Zaghloul
Pachá, primeiro ministro, arranjada pelo Edmundo
Huffen Baecher; plano completo de viagem a todas
as regiões e serviços interessantes, com cartas de
apresentação a cada um dos chefes. Não é mes-
mo de enguiçar? E por fallar em Audebean
Bey, o velho está tão meu amigo e tão enthu-
siasmado com as possibilidades de S[ão] Paulo,
que deseja ahi collocar, em terras á valorizar
ção ou em empreza de cultura de algodão
dirigida ou propiciada por mim, uns 300 a
400.000 fr[anco]s de suas reservas. Prometti-lhe fazer
o possivel para servil-o, mas, só desejo fazel-o
em qualquer bôlo bom da irmandade, corren-
do os mesmos riscos que nós. Não te esqueças, pois,
delle se qualquer boa opportunidade se apresentar.
[01-0093-Página 08]
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E o Paulo 2 como vae? Já encontrou novo meio
de vida? Vontade de trabalhar e aptidão
profissional não lhe faltam. Elle precisa de
um pouco mais de constancia no esforço e
menor liberalidade nas despezas. A divergencia
com o Plinio eu já a observara esboçada ahi,
por causa de vencimentos e porcentagem de interes-
ses, combinados, mas, não escriptos. Parece que elle
pensa em trabalhar com o Saturnino de Brito, na Pa-
rahyba; melhor apoio não poderá ter, apenas com
o inconveniente de ficar empregado a ordenado fixo.
Como elle, o Paulo, naturalmente procurará ouvir
os tios, ajudem-n’o a achar o trilho para conti-
nuar a marchar para a frente.
E dem-nos notícias quanto antes da terra e
da gente, que estamos sobre brazas.
Ainda bem que Jorge não teve a visita dos - Ste-
phonoderes; agora com a revolta o bichinho in-
vadirá todos os recantos; aliás era só questão
de tempo, quando Jana com a sua excellente or-
ganização defensiva não conseguio evital-o, como
o conseguiriamos nós com o C. Motta e o H. Penteado?!
Reparta com todos de casa - abraços de Sinhá
Córa, Nhanhã, Nônô e do mano
Paulo.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhã
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Helena de Moraes Barros – Leninha
Leonor de Moraes Barros – Nonô / Nônô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá