Carta de Paulo de Moraes Barros, 1924, 01-0000754
Metadados
Descrição
Carta de Paulo de Moraes Barros para Antonio de Moraes Barros, Nápoles - Itália, 1924
Código do documento
01-0000754
Remetente / Autor
Paulo de Moraes Barros
Destinatário
Antonio de Moraes Barros
Palavras-chave
Hotel Isotta e Geneve | Cicinato Reinhardt | Antonio Cajado
Texto do documento
[01-0754-Página 01 - envelope]
[Envelope timbrado: HOTEL ISOTTA & GENÈVE / Comm. SALVATORE CAPPUCCIO / TEL. INT. 5-86 - 42-81 / NAPLES, com carimbo e selo do correio.]
Ex[celentíssi]mo S[e]n[ho]r D[outo]r
Antonio de Moraes Barros
Rua Braulio Gomes 2
S[ão] Paulo
Brasile
[01-0754-Página 02]
[Papel timbrado: HOTEL ISOTTA & GENÈVE / Comm. SALVATORE CAPPUCCIO. propr.]
[No cabeçalho da página:]
O Cincinato Reickert, Antoninho Cajado e
respectivas costellas continuam com-
pletando o farrancho de viagem, pela
Italia e excellentes companheiros.
Mandam lembranças.
1 de Outubro de 1924
Nhônhô
Aproveito a prisão no hotel, por
causa de uma pequena inflamação da
garganta, para dar noticias nossas.
Desde o dia 27 de 7bro[setembro] estamos em Napo-
les, cujos passeios mais interessantes
já fizemos. Por signal que Capri e
a Gruta Azul foram verdadeiros contos
do vigario; o vaporzinho superlotado, com
mais de 500 pessoas que não se podiam
mover, parecia mais uma enfermaria
de guerra, com o pessoal cahindo aqui,
vomitando por toda a parte, mesmo
uns sobre outros, sendo difficil se esca-
par de um lacedeamento buccal.
O mar desmontado proporcionou for
[01-0754-Página 03 - esquerda]
midavel banho aos poucos ousados
que se aventuraram entrar na Gruta.
Foi um dia inteiro de angustias e
porcaria, adubado com a tradicio-
nal ligeireza napolitana, alliviando,
nos hoteis de Capri, as algibeiras dos
esfomiados excursionistas. Emfim,
como diziam que era um divertimento….
Ante-hontem corremos o maravilhoso
Musêo Nacional e Posilippo Capo;
hontem, o Vesuvio e Pompeia, com
a despeza media de 140 liras por ca-
beça; hoje correremos a egreja de
S. Germano, com o sangue do santo
á ferver uma vez por anno e o
Aquario, mantido por todas as nações
da Europa; e amanhã regressaremos
a Roma, visitando antes a Feira Cam-
pionaria, de productos regionais, que
nos dizem muito interessante.
Minha projectada palestra sobre
algodão, apezar de combinada com
o nosso addido commercial para o
[01-0754-Página 03 - direita]
dia 4, falhou completamente pela
sua incapacidade de recrutar au-
ditorio, sendo elle, aliás, delegado per-
manente do Brasil no Instituto In-
ternacional de Agricultura. Não
me admirarei si falhar tambem
a que está combinada com o
Senador Crespi e Banca Francesa
e Italiana, á convite d’elles, pa-
ra o dia 9 em Milão, pois, aqui na
Italia, aparte o fascismo denuncia-
dor, quasi em dictadura, tudo o
mais é lettra morta. Não fosse Mus-
solini e o paiz estaria em maior
anarchia do que a Grecia.
Da nossa viagem ao Egypto só resta o
fumo. Tendo o Calmon deixado ao
meu criterio “resolver mesmo o re-
gresso”, é claro que este se impunha,
mesmo convidado formalmente ahi
para fazer parte de uma commitiva[?]
de expansão commercial no Levante
(de café), para o fim do anno. É possivel
[01-0754-Página 04]
que este amigo pensasse fazer tal com-
missão dentro dos 8 contos ouro, que
me abonnou p[ar]a o Congresso de Vienna.
Ao passo que se mostra assim econo-
mico o Governo custeia gordas commis-
sões na Europa; só a de um Fontaninha, mi-
neiro, sem objectivo bem definido, deve
custar ao paiz algumas centenas de con-
tos. Ao que este me contou em Vichy,
só de passagens com a familia, nas
cabines de maior luxo do Cap. Polonio
despendeu mais e 40 contos; em Ber-
lin pagava 800$ diarias de hotel e 1:100$
em Hamburgo.
Recebi tuas cartas de fim de Agosto,
que vieram me pôr ao corrente das
peripecias da revolta. Antes d’ellas já
eu lera artigos do Correio Paulistano,
articulando veladas accusações ao João
Sampaio. Estou ancioso por noticias do
Comp[adr]e Ignacinho e outros companheiros
que tão bestamente se envolveram na revolta.
Reparta com Isaura e filhos abraços de
Sinhá, Córa e do mano
Paulo.
[01-0754-Página 05]
[Papel timbrado: HOTEL ISOTTA & GENÈVE / Comm. SALVATORE CAPPUCCIO. propr.]
Continuando… Leonor tem nos dado
noticias de si por cartões postaes, nos
quaes só conta que ainda tosse bas-
tante. Nada diz da febre, nem da
radiografia, que, naturalmente im-
pedio o medico de me enviar, co-
mo promettera. Pelo tom da corres-
pondencia se percebe que ainda não
se conformou com o tratamento,
por sua natureza vagaroso e que
exige mezes. Receio muito a asneira
maior de deixar Leysin, para vos acom-
panhar ao Brasil; seria um desas-
tre que lhe custaria a vida pro-
vavelmente. Hoje ainda lhe escrevi
aconselhando-a muito a ter paciencia
[01-0754-Página 06]
e esperar o resultado seguro do
tratamento. Tel-a-ha?
De Nhanhã não tivemos mais
noticias á 15 dias. Estava, porem,
passando tão bem que, acredito,
está se dando as maravilhas
lá por Vienna. O perigo é alguma
carta das filhas de S[ão] Paulo ir
perturbar-lhe a quietitude, porque
Maria e o Juca nenhuma autori-
dade tem sobre ella, que ainda
não perdeu a mania do lapis
e caderninho o dia inteiro, fa-
zendo contas das rendas.
– A Italia soffre verdadeira inundação
de allemães; formando 80% dos touristes,
fazendo-nos duvidar da sua procla-
mada pobreza. Mesmo este hotel está
litteralmente cheio delles.
Mais abraços do
Paulo.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá
[Envelope timbrado: HOTEL ISOTTA & GENÈVE / Comm. SALVATORE CAPPUCCIO / TEL. INT. 5-86 - 42-81 / NAPLES, com carimbo e selo do correio.]
Ex[celentíssi]mo S[e]n[ho]r D[outo]r
Antonio de Moraes Barros
Rua Braulio Gomes 2
S[ão] Paulo
Brasile
[01-0754-Página 02]
[Papel timbrado: HOTEL ISOTTA & GENÈVE / Comm. SALVATORE CAPPUCCIO. propr.]
[No cabeçalho da página:]
O Cincinato Reickert, Antoninho Cajado e
respectivas costellas continuam com-
pletando o farrancho de viagem, pela
Italia e excellentes companheiros.
Mandam lembranças.
1 de Outubro de 1924
Nhônhô
Aproveito a prisão no hotel, por
causa de uma pequena inflamação da
garganta, para dar noticias nossas.
Desde o dia 27 de 7bro[setembro] estamos em Napo-
les, cujos passeios mais interessantes
já fizemos. Por signal que Capri e
a Gruta Azul foram verdadeiros contos
do vigario; o vaporzinho superlotado, com
mais de 500 pessoas que não se podiam
mover, parecia mais uma enfermaria
de guerra, com o pessoal cahindo aqui,
vomitando por toda a parte, mesmo
uns sobre outros, sendo difficil se esca-
par de um lacedeamento buccal.
O mar desmontado proporcionou for
[01-0754-Página 03 - esquerda]
midavel banho aos poucos ousados
que se aventuraram entrar na Gruta.
Foi um dia inteiro de angustias e
porcaria, adubado com a tradicio-
nal ligeireza napolitana, alliviando,
nos hoteis de Capri, as algibeiras dos
esfomiados excursionistas. Emfim,
como diziam que era um divertimento….
Ante-hontem corremos o maravilhoso
Musêo Nacional e Posilippo Capo;
hontem, o Vesuvio e Pompeia, com
a despeza media de 140 liras por ca-
beça; hoje correremos a egreja de
S. Germano, com o sangue do santo
á ferver uma vez por anno e o
Aquario, mantido por todas as nações
da Europa; e amanhã regressaremos
a Roma, visitando antes a Feira Cam-
pionaria, de productos regionais, que
nos dizem muito interessante.
Minha projectada palestra sobre
algodão, apezar de combinada com
o nosso addido commercial para o
[01-0754-Página 03 - direita]
dia 4, falhou completamente pela
sua incapacidade de recrutar au-
ditorio, sendo elle, aliás, delegado per-
manente do Brasil no Instituto In-
ternacional de Agricultura. Não
me admirarei si falhar tambem
a que está combinada com o
Senador Crespi e Banca Francesa
e Italiana, á convite d’elles, pa-
ra o dia 9 em Milão, pois, aqui na
Italia, aparte o fascismo denuncia-
dor, quasi em dictadura, tudo o
mais é lettra morta. Não fosse Mus-
solini e o paiz estaria em maior
anarchia do que a Grecia.
Da nossa viagem ao Egypto só resta o
fumo. Tendo o Calmon deixado ao
meu criterio “resolver mesmo o re-
gresso”, é claro que este se impunha,
mesmo convidado formalmente ahi
para fazer parte de uma commitiva[?]
de expansão commercial no Levante
(de café), para o fim do anno. É possivel
[01-0754-Página 04]
que este amigo pensasse fazer tal com-
missão dentro dos 8 contos ouro, que
me abonnou p[ar]a o Congresso de Vienna.
Ao passo que se mostra assim econo-
mico o Governo custeia gordas commis-
sões na Europa; só a de um Fontaninha, mi-
neiro, sem objectivo bem definido, deve
custar ao paiz algumas centenas de con-
tos. Ao que este me contou em Vichy,
só de passagens com a familia, nas
cabines de maior luxo do Cap. Polonio
despendeu mais e 40 contos; em Ber-
lin pagava 800$ diarias de hotel e 1:100$
em Hamburgo.
Recebi tuas cartas de fim de Agosto,
que vieram me pôr ao corrente das
peripecias da revolta. Antes d’ellas já
eu lera artigos do Correio Paulistano,
articulando veladas accusações ao João
Sampaio. Estou ancioso por noticias do
Comp[adr]e Ignacinho e outros companheiros
que tão bestamente se envolveram na revolta.
Reparta com Isaura e filhos abraços de
Sinhá, Córa e do mano
Paulo.
[01-0754-Página 05]
[Papel timbrado: HOTEL ISOTTA & GENÈVE / Comm. SALVATORE CAPPUCCIO. propr.]
Continuando… Leonor tem nos dado
noticias de si por cartões postaes, nos
quaes só conta que ainda tosse bas-
tante. Nada diz da febre, nem da
radiografia, que, naturalmente im-
pedio o medico de me enviar, co-
mo promettera. Pelo tom da corres-
pondencia se percebe que ainda não
se conformou com o tratamento,
por sua natureza vagaroso e que
exige mezes. Receio muito a asneira
maior de deixar Leysin, para vos acom-
panhar ao Brasil; seria um desas-
tre que lhe custaria a vida pro-
vavelmente. Hoje ainda lhe escrevi
aconselhando-a muito a ter paciencia
[01-0754-Página 06]
e esperar o resultado seguro do
tratamento. Tel-a-ha?
De Nhanhã não tivemos mais
noticias á 15 dias. Estava, porem,
passando tão bem que, acredito,
está se dando as maravilhas
lá por Vienna. O perigo é alguma
carta das filhas de S[ão] Paulo ir
perturbar-lhe a quietitude, porque
Maria e o Juca nenhuma autori-
dade tem sobre ella, que ainda
não perdeu a mania do lapis
e caderninho o dia inteiro, fa-
zendo contas das rendas.
– A Italia soffre verdadeira inundação
de allemães; formando 80% dos touristes,
fazendo-nos duvidar da sua procla-
mada pobreza. Mesmo este hotel está
litteralmente cheio delles.
Mais abraços do
Paulo.
Lista de apelidos:
Ana Maria de Moraes Burchard / Anna Maria de Moraes Burchard – Nhanhan / Nhanhâ
Antonio de Moraes Barros – Nhonho / Nhônhô
Maria Luiza Quirino dos Santos – Sinhá